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Bom dia, distopia

Donato S. Ferrara
May 22 · 12 min read
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Photo by Clem Onojeghuo on Unsplash

Tenho sido um mau cronista. Em 26 de fevereiro, eu me propusera a falar de minhas impressões sobre a pandemia a cada vinte dias exatos, mas fui relapso nas últimas semanas. Esta é, portanto, uma tentativa de reatar com a minha série de textos sobre a crise em que nos encontramos — imersos — e com um baita lastro nos pés.

Se interessar, estão aqui a primeira, a segunda e a terceira partes da coisa. Retratos do passado, do irredimível passado.

Em casa há 64 dias, devo principiar confessando o meu cansaço. Há também o fastio, mais espiritual — mas parto do meu cansaço, corporal mesmo. O isolamento social com crianças pequenas é bastante diverso do mundo rosa-sobre-ocre esboçado por certa imprensa cool, em que confinados “maratonam” séries da Netflix ou se põem a finalmente ler A montanha mágica ou a revisitar Os sertões.

O trabalho doméstico é duro, repetitivo, quase ininterrupto — e as crianças passam boa parte do dia um tanto negligenciadas. Contrariamente ao que penso sobre educação, as telas se tornaram ainda mais onipresentes aqui em casa. Não parece haver remédio: estamos assistindo à transformação do homo sapiens no homo videns. Ou, se quiserem algo mais meigo, à emergência meio anárquica das polegarzinhas (petites poucettes), de que fala Michel Serres, que acessam o mundo na ponta dos dedos.

Também existem, claro, as obrigações profissionais, que são cumpridas da maneira como é possível. Não raro sob protestos de outras pessoas — as quais, suponho, têm sido mais zelosas no trabalho do que eu, o que certamente explica o tempo de que dispõem para reclamar.

Efeitos curiosos no corpo: minhas mãos encheram-se de feridas por causa da baixa umidade do ar outonal e dos muitos produtos de limpeza com que têm contato diariamente. A pele da planta dos meus pés está igualmente arruinada porque fico o dia inteiro descalço. Incômodos, só: mas não deixo de imaginar como seria interessante o contraste entre a aspereza dos meus dedos e as páginas dos longos romances, impressos em papel de boa gramatura, que alguns afirmam estar lendo.

A cultura, no Brasil, é um ornato para a classe média alta, que pode pagar dezenas de reais por edições de luxo. Nunca foi um elemento de transformação radical dos indivíduos.

Há por aí mãos macias e impolutas, que nunca apertaram um parafuso sequer, que jamais arearam uma panela com palha de aço. O privilégio tem certas traduções à flor da pele, pois. Dizem que as mãos dos políticos são todas desse jeito. Certa vez, cumprimentei um padre cuja suavidade palmar me deixou impressionado.

Cá no outono seco do Terceiro Estado, ainda espero encontrar um cura da têmpera de Don Camillo, alguém que varra e limpe a sua própria paróquia — mas que não despreze o latim da Vulgata (seria a minha exigência a mais). E um político que tenha uns fumos de Cincinato, que pense que seu arado lhe dá mais prazer do que as seduções de Roma. Mas acho — apenas acho — que pessoas desse jaez estão todas mortas.

Divago, mas esclareço que a existência de tais compleições dérmicas não é melindre para mim. Cada qual tem a pele — e o dom — que Deus lhe deu. Minha questão, enquanto confinado que tem sido bastante caxias nas últimas semanas, é bem outra: são os trapaceiros.

Sem ter a paixão que move os alcaguetes, não quero apontar o dedo especificamente para ninguém, mas o fato é que a desobediência deliberada à quarentena está criando uma situação péssima para o Brasil. Estávamos indo muito bem até o início de abril, com números comparativamente menores do que os de outros países no mesmo período — e tudo desandou.

O ministro da Saúde então era Luiz Henrique Mandetta, o qual, não obstante seu desvanecimento ridículo ante os holofotes, fazia bom trabalho de comunicação: com o coletinho do SUS, falava com clareza e segurança, todos os dias, explicando as coisas aos mais simples.

Ignorando que um líder verdadeiro pode tirar partido das qualidades de seus comandados, Bolsonaro foi mordido pelos ciúmes e expôs o seu ministro da Saúde à fritura pública. Andou sem máscara pelas ruas do Distrito Federal algumas vezes e participou de diversos convescotes do coronavírus aos domingos — i.e., manifestações de militantes alucinados, que inclusive pediam intervenção militar e a volta do AI-5. A situação ficou insustentável, e o presidente resolveu sacar Mandetta do cargo, no agora longínquo 16 de abril.

A ele seguiu Nelson Teich, oncologista e empresário de algum renome. Figura exangue, aparentemente saída de um episódio de “Família Adams”, ocupou a cadeira ministerial entre 17 de abril e 15 de maio. Evidentemente, não teve tempo de fazer muita coisa — mas, como médico, sua opinião não divergia tanto da de seu antecessor. Foi desautorizado publicamente em uma das poucas entrevistas que concedeu, tomando conhecimento por um jornalista ali presente de um decreto presidencial que liberava salões de barbeiro e academias como “serviços essenciais”. Pediu demissão quatro dias depois.

Apegado ao fetiche da cloroquina, a panaceia da vez, o Dr. Bolsonaro fez de tudo para atropelar mais um de seus ministros. Anteriormente, quando deputado, ele já fora um dos entusiastas da fosfoetanolamina sintética — a tal “pílula do câncer”, cuja eficácia jamais foi comprovada. Além do vasto conhecimento em medicina, há que lembrar a grande contribuição de Bolsonaro ao debate energético e econômico nacional, com a sua paixão pelo grafeno e pelo nióbio. O motivo pelo qual não desenterrou a tal “areia monazítica”, de que se falava tanto durante a Ditadura Militar, me escapa.

Entenda-se que Mandetta e Teich não são gigantes morais. Todavia, tendo feito um juramento de ofício, não puderam compactuar com um presidente que se nega a enxergar a realidade. Assim como um professor que honre a sua profissão não pode subscrever atitudes que deseduquem; assim como um piloto de avião não pode aceitar voar sem condições mínimas de segurança — também um médico não pode se envolver em situações que atentem contra a saúde, tanto individual como coletiva. Afinal, o sumo do Juramento de Hipócrates é: eu não causarei dano.

Quem foi que disse: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro”? Não terá sido Jesus, em Mateus 6:24? Crenças à parte, não é uma formulação brilhante para ilustrar como alguém deve portar-se nas questões de consciência? Não foi isso que os dois ministros fizeram — optar, enquanto profissionais da saúde, pela própria consciência, servindo a tal “senhor”, e não ao poderoso da vez?

E qual seria a profissão de Bolsonaro? Qual a ética que o embasa?

Ele se diz militar, mas sabemos que, em 1987, planejou pôr bombas em quartéis para pressionar o comando das Forças Armadas a aumentar o soldo das patentes mais baixas. É isso ser um militar? um bom militar?

Ele se declara conservador. O que as suas ações pretendem conservar?

A vida dos brasileiros é que não é.

Talvez seja um pouco mais fácil chegar a tais respostas pelo lado da religião. Como se sabe, ele é cristão. Há oito meses, ajoelhou-se diante de Edir Macedo e foi por ele ungido no Templo de Salomão: “como o profeta Samuel, um dia, consagrou o rei Davi”.

“Samuel” está para “Macedo”, assim como “Davi” está para “Bolsonaro”, confere? É isso ser cristão?

Seja como for, Bolsonaro é o rei dos que trapaceiam na quarentena. Sua revolta contra a realidade tem levado de arrasto uma parcela considerável dos brasileiros. Não por acaso, aliás, há terraplanistas em seu governo. Esse é, mais do que outros, o problema que me ocupa aqui.

Cada patroa que não dá dispensa à sua doméstica, cada prefeito do interior que decide unilateralmente que todo o comércio ali deve ficar aberto, cada sujeito bronco que acha que não pega doença nenhuma, cada bravateiro de WhatsApp que espalha a “notícia” de que chá de boldo-do-Chile é efetivo contra a Covid-19 o têm como modelo e ídolo: Mito! Mito! Mito!

Muitas dessas pessoas não põem o pé para fora de casa, mas não criam as condições para que os outros também permaneçam em suas residências, assim contribuindo com o esforço comum de redução do contágio. Alguns, os mais desvairados, recusam-se a reconhecer que o vírus exista. Outros negam que ele seja letal. Parece um sketch do Monty Python, mas é a realidade brasileira.

Nossa distopia tem um quê inconfundível de chanchada, com roteiro nonsense e atuações de décima oitava categoria.

Como é possível que esta crise passe se a adesão ao isolamento social é inferior a 50%?

Como a China saiu da crise? Praticando um lockdown bastante restritivo. Como a Nova Zelândia zerou a doença? Praticando o lockdown. Como a Alemanha domou o problema? Lockdown. Como a Espanha e a Itália diminuíram muito a incidência de internações e mortes por Covid-19? Hum-hum, lockdown.

Existe o caso da Coreia do Sul, em que um isolamento pontual, aliado ao costume generalizado das máscaras e à testagem massiva, deu bons resultados. Provavelmente é a maneira mais inteligente de lidar com a questão, com menor impacto econômico, mas vejam: estamos falando de um país pequeno, homogêneo, organizado, ultratecnológico, com protocolos antiepidemia que datam da época do surto de SARSCoV-1 (2002–2003) — e que, ainda por cima, teve acesso a muitos testes numa época em que não eram tão disputados.

Eram essas as condições do Brasil em janeiro, fevereiro? Não: estávamos brincando de trenzinho em nossos blocos de Carnaval e produzindo montanhas de lixo para os garis recolherem. Nosso país tem essas condições agora? Muito menos: estamos abrindo covas e empilhando caixões.

Resta-nos a alternativa medieval de nos trancarmos em casa. É certamente uma humilhação para o nosso orgulho contemporâneo. Porém, se feita com disciplina e abrangência, funciona. Esperava-se que a adesão ao então semiconfinamento se intensificasse um pouco mais por meados de abril e que estivéssemos discutindo, agora em maio, como se daria a reabertura paulatina. O Governo Federal poderia ter ajudado em tal esforço, garantindo aos mais vulneráveis uma renda suplementar decente, pelo período de 6 a 10 semanas.

Na prática, o que aconteceu foi o seguinte: a porção da classe média que é esclarecida se isolou ou se cercou de precauções maiores, a porção da classe média que é tosca fingiu que o problema não existia (“Corona, para mim, é cerveja”) e os pobres foram abandonados à própria sorte.

O que Bolsonaro e Guedes propuseram como auxílio emergencial? R$ 200,00. O que Maia conseguiu junto ao Congresso? R$ 600,00. Filas e mais filas do lado de fora das agências da Caixa Econômica Federal. Os necessitados precisam não somente ser expostos a um possível contágio por Covid-19, mas também ser humilhados.

A meu ver, a responsabilidade de Bolsonaro e de seu contingente de templários negadores da realidade na exacerbação desta crise está fora de qualquer dúvida. É um dos quatro líderes mundiais que não veem gravidade no problema, ao lado de Alexander Lukashenko, da Bielorrússia, Gurbanguly Berdymukhamedov, do Turcomenistão, e Daniel Ortega, da Nicarágua. Todos os três, ditadores — o que diz muito sobre o modo como nosso mandatário enxerga as coisas.

Não há, no presente, luz no fim do túnel. Fala-se de retorno à normalidade em meados do segundo semestre, mas nem isso me parece possível. Eu e dezenas de milhões de pessoas estamos voluntariamente presos em casa há dois meses, esperando razoabilidade de outro naco imenso da população, que flana pelas ruas como se nada estivesse acontecendo, como se respirasse o ar asséptico e virginal do Jardim do Éden. E com muitos outros, os mais pobres, zanzando por aí, desnorteados, premidos pela necessidade. Por quanto tempo mais?

Temos hoje, 21 de maio, 291.579 casos confirmados, com 18.869 mortes. Os recuperados somam 116.683 pessoas. Já somos o terceiro país do globo em número de contaminados, atrás de EUA e Rússia. Isso, claro, dentro de nossas estreitas e desconhecidas margens de notificação. A cloroquina, que é empregada oficial ou oficiosamente em hospitais de todo o País, não parece ter trazido melhoras à situação — se não é que não a tem piorado.

Neste momento, o surto se agrava no Amazonas (6.119 casos por milhão de habitantes), no Ceará (3.577), no Pará (2.446) e em Pernambuco (2.435). Em São Paulo, onde a quarentena tem mais adesão e o sistema sanitário é melhor, temos 1.588. Alguma dúvida de que o Norte e o Nordeste sofrerão mais severamente com a pandemia? De que o potencial para que se produzam verdadeiras calamidades ali é imenso?

Admito que o que vivemos é uma realidade deprimente: circula por aí um vírus novo, de letalidade considerável e dinâmica pouco conhecida, desafiando todas as sociedades modernas. Muito de nossas vidas se modificará substancialmente no curto e médio prazo, mas o prospecto para uma espécie que já venceu a varíola e o tifo é, no final das contas, muito bom.

Como nota antropológica, digo que o papel a que têm se prestado muitos dos mais velhos é lamentável. Entre a credulidade devotada a boatos, a frustração por não poderem fazer nada, a superstição orgulhosa e a teimosia pura e simples, vários são os que bradam: “ninguém manda em mim!”, “vou viver como sempre vivi”. Que me desculpe, mas isso não é mais possível. Você não está sozinho ou sozinha no mundo. Ainda que não se importe consigo, você pode se tornar o vetor de contaminação de outras pessoas. Ninguém tem o direito de ignorar esse dado.

Envelheceram, esses, mas passaram longe da sabedoria. Espero, quando e se chegar à idade dessas pessoas, ter um pouco mais de compreensão da vida. Espero, ao menos, não ter me tornado intelectualmente tão decadente a ponto de achar que ser governista é bonito.

Em larga medida, somos prisioneiros do que sabemos sobre infectologia hoje. Assim, nós nos convertemos, todos, em bombas biológicas ambulantes e potenciais. Enquanto a dimensão microscópica revelada por Pasteur permaneceu obscura, na era da Praga de Atenas (430 a.C.) ou da Peste Negra (1347–1351), foi possível a cada um convencer-se ou enganar-se acerca do favor dos deuses ou de Deus na proteção de si ou dos seus. Se a opacidade da situação expunha os seres humanos aos elementos patogênicos, ela os resguardava do vislumbre de certas de suas responsabilidades morais enquanto criaturas vivendo em sociedade.

Quando notamos os primeiros colocados da Covid-19, vemos três países governados por líderes voluntariosos, que exibem espalhafatosamente a sua macheza: Trump, Putin, Bolsonaro. Mas o vírus não tem deferência nenhuma pela testosterona. Como também tanto se lhe dá topar com o estrogênio. Devemos reconhecer que Angela Merkel, da Alemanha, e Jacinda Ardern, da Nova Zelândia, têm feito um trabalho melhor na defesa do próprio povo — e não por serem mulheres, mas por agirem com racionalidade e respeito aos fatos.

Em 26 de março, Bolsonaro não acreditava que pudéssemos chegar a uma situação como a norte-americana e dizia:

Eu acho que não. Eu acho que não vai chegar a esse ponto. Até porque o brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele.

Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil, há poucas semanas ou meses, e eles já têm anticorpos que ajudam a não proliferar isso daí. Estou esperançoso que isso seja realmente uma realidade.

É falso, evidentemente: ninguém vê que o “cara” depois foi para a casa, teve um andaço de dias, passou horas na fila do hospital público e ficou sabendo que contraíra uma esquistossomose.

No passado, tínhamos Monteiro Lobato reconhecendo que o Jeca Tatu era indolente porque tinha, no final das contas, verminoses. Hoje, há Bolsonaro louvando o Übermensch brasileiro, com imunidade de semideus.

A realidade não se dobra à vontade dos indivíduos. Isso é uma mentira que foi contada no Ocidente, talvez remontando a Maquiavel, com sua noção de uma virtù (ou “força interior”) capaz de subjugar a Fortuna. Um grego certamente riria da pretensão do florentino e lhe traria à memória a visão de Prometeu acorrentado, que exclamava, pelo verso de Ésquilo: A técnica é largamente mais débil que a necessidade (τέχνη δ᾽ ἀνάγκης ἀσθενεστέρα μακρῷ, v. 514). Ou seja: o poder que o ser humano tem de interferir no real é muitíssimo mais fraco que as leis que regem tudo quanto existe.

A realidade pode ser, como eu dizia, deprimente, mas nós não a escolhemos. Já negá-la é o fruto de uma escolha, sendo algo ainda mais deprimente. Porque é uma atitude que não serve para nada — e só causa sofrimento.

E eis alguns fatos bem objetivos (e provocadores): a Terra é redonda. Somos todos mortais. Temos responsabilidade pelo bem-estar de nossos semelhantes. O coronavírus não se importa com a orientação ideológica de ninguém. Não há evidências seguras de que a cloroquina ou a hidroxicloroquina funcionem contra a Covid-19. Bolsonaro conduz pessimamente o Brasil em meio a esta crise — e corremos o risco de nos tornar uma nação-pária, incapaz de gerir uma crise sanitária.

Como cidadão brasileiro, não posso me calar ante o que vejo. Se você não gostou do que leu, paciência: sugiro que vá tomar uma tubaína, tá OK?

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