Em meio à incerteza, o espírito

Photo by Aziz Acharki on Unsplash

Se me atenho ao pouco que me é dado saber, constato em primeiro lugar que estou vivo. Vivo — e neste instante, que não se repetirá. Ele, que foi antecedido de inúmeros outros (para sempre perdidos), em breve se desvanecerá por seu turno. E assim por diante.

Os estoicos romanos tinham o costume de referir-se ao passado como a um abismo, dizendo o mesmo do futuro. “Tudo o que você tem em mãos é o presente”, insistiam eles, “um lapso de tempo comprimido entre dois fossos de igual inacessibilidade”. Desejar ressuscitar o que já se foi é loucura apenas comparável a querer divisar com muita clareza o que está pela frente.

Eis Lúcio Aneu Sêneca, escrevendo em seus últimos anos (depois de 60 de nossa era) ao amigo Lucílio (trad. J. A. Segurado e Campos, 1991):

Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso. A natureza nos concedeu a posse desta coisa transitória e evanescente da qual quem quer que seja pode nos expulsar. É tão grande a insensatez dos mortais que aceitam prestar contas de tudo quanto lhes é emprestado (não obstante o seu valor mínimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuperável), mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir. (Cartas a Lucílio, I, 3)

Mais adiante na obra, na transcrição a uma consolação a um tal Marulo (Quintus Iunius Marullus?), diz o filósofo o seguinte:

Repara na rapidez com que passa o tempo, atenta na exiguidade desta ínfima fração que nós percorremos a toda velocidade, considera todos estes seres humanos que se dirigem em massa para o mesmo ponto, separados uns dos outros por intervalos brevíssimos mesmo quando se nos afiguram muito longos.

(…) Representa no teu espírito toda a vastidão das profundezas do tempo até atingires a dimensão do universo, compara depois a essa imensidão aquilo a que nós chamamos o tempo de uma vida humana e verás até que ponto é diminuta essa extensão por que nós ansiamos e que fazemos por prolongar. (idem, XCIX, 7, 10)

O que ficou registrado acima não deve ser novidade para ninguém: ao contrário, é a substância mesma da vida, em seu aspecto mais cotidiano.

Por repisada que seja, a visão de passado e futuro como instâncias que não passam de fantasmagorias é apenas raramente convertida em consciência.

Quero dizer: a rigor, passado e futuro não existem. Você não vive em nenhum deles. Você pode transportar-se mentalmente para trás ou para frente, mas o fato concreto é que está empregando seu momento presente com o conceito do que já viveu ou do que tem para viver. E esse conceito está sempre imbuído de um viés: o das preocupações que você permite que se instalem dentro de si. Algo bem pouco objetivo, na maioria das vezes.

Embora ninguém ignore que o presente é tudo o que nos está à mão, são poucos os que não vivem intoxicados pelo conceito que formam de acontecimentos passados ou de expectativas futuras. Um paradoxo, talvez.

Evidentemente é necessário ter a possibilidade de consultar nossas memórias e alguma opinião sobre o que já vivemos para daí extrairmos lições úteis, assim como certa aptidão para a previsão, a fim de nos guiarmos pela existência. A capacidade de lembrar-se e a de prever, aliás, são dois dos predicados que nos fazem humanos. O problema ocorre quando essas possibilidades de perscrutar os dois “abismos” passam a consumir completamente a atenção que deveríamos devotar — pelo menos de quando em quando — ao presente.

O apego excessivo ao passado é produtor de tristezas e arrependimentos: nada do que você possa fazer agora ou daqui por diante modificará o que já se foi. A atenção desmesurada ao futuro costuma gerar ansiedades desnecessárias, porque o prospecto que formamos em nossas mentes inquietas está não raro tingido de um catastrofismo que não se verifica na realidade.

Uma das estratégias mais comuns da meditação de atenção plena (mindfulness) é a de rotular os pensamentos que ocorrem ao praticante com as etiquetas “passado” e “futuro”. Prestar atenção a isso lhe dá uma medida da ocupação de sua mente pelas ideações de retrospecção e de antecipação. É uma boa ideia, mesmo para não praticantes de técnicas de meditação oriental.

Qualquer um consegue, assim, ter uma noção de quanto se ocupa do que já se foi ou do que está por vir — e do modo como negligencia o momento preciso em que vive.

Os antigos tardios e os medievais usavam os adjetivos “ativa” e “contemplativa” para caracterizar duas maneiras de viver: uma com pleno envolvimento com as coisas do século (i.e., medindo-se constantemente com os afazeres e sua relação com passado-futuro) e outra, em que se buscava um distanciamento das vicissitudes do tempo. Vita activa et vita contemplativa.

No humanismo italiano, evocava-se respectivamente o par Lia e Raquel, as filhas de Labão oferecidas em casamento a Jacó, para ilustrar essas modalidades de existência. Por volta de 1542, Michelangelo Buonarroti deu-lhes corpo no mármore: sua Lia tem vestes romanas e na mão esquerda um espelho, representação clássica da prudência (que dá, entre outras coisas, o poder de olhar para frente e para trás ao mesmo tempo), ao passo que a escultura Raquel tem um manto longo e os olhos voltados para o céu, em atitude súplice.

Ambas as imagens foram postadas na basílica de São Pedro Acorrentado (San Pietro in Vincoli), em Roma. A interpretação mais comum nos diz que elas encarnariam as duas vias de salvação: pelo trabalho e pela fé.

Ninguém precisa estar de acordo com os pressupostos metafísicos ou o conjunto de histórias que embasam o cristianismo para entender a alegoria estatuária. Estamos falando de polos complementares: a operosidade como um hábito tem um contraponto necessário na abertura interior, o mais desarmada possível, para o mistério que nos transcende. Labora et ora; trabalha e confia.

A contemporaneidade nos afastou das formas de contemplação e introspecção que pareciam tão importantes para muitos de nossos antepassados. Elas são frequentemente rotuladas como “perda de tempo”. Dá-se assim de barato que o desejo de se ter uma boa posição social seja o único fim para o qual todos nós tendemos, que uma vida inteiramente consumida pelo interesse em amealhar poder, riquezas, popularidade esteja de antemão justificada.

Bem, o fato é que não está. Não só porque nem todos atingirão os “píncaros da glória” no mercado financeiro, no favor dos paparazzi, nas métricas do Instagram ou no reconhecimento acadêmico, por exemplo, mas também porque, ainda que cheguem lá, será por bem pouco tempo.

Além disso, o que ocupou o lugar da contemplação na vida que levamos são formas de entretenimento ou distração cada vez mais onipresentes. Elas apenas reforçam o estilo de vida baseado na busca por um lugar ao sol dentre os que têm boa performance na sociedade.

A miríade de vídeos, canções, filmes, notícias, programas, memes, notificações — e comerciais, que acompanham tudo — só faz crescer exponencialmente. A maior parte dessa produção de mídia é descartável — e feita para ser assim. São armas de distração em massa.

A vida ativa se absolutizou ao proscrever a contemplação, o silêncio, a ascese, o estudo desinteressado, as ações de graças, e substituí-los por formas cada vez mais sinestésicas de se gastar o tempo. Estamos bem perto do Admirável mundo novo, de Huxley.

Enquanto isso, a vida passa.

A distração é uma fuga do presente e não prepara, de maneira nenhuma, o futuro. É o complemento de que o sistema de homologação necessita para formatar bilhões de seres humanos e colocá-los em regime de servidão voluntária.

Não admira que muitos cheguem à idade madura sentindo-se condicionados, exaustos, interiormente empobrecidos. Presos a rotinas de trabalho e a automatismos familiares embrutecedores há quinze, vinte, trinta anos, já não podem apreciar o presente em seu frescor e singularidade — porque ele parece idêntico ao passado e não dá motivos para supor que trará um futuro diferente. Isso quando simplesmente não dependem de narcóticos para continuar existindo.

Mas há mais: à medida que a idade avança, o abismo às nossas costas se torna mais volumoso — e aquele que se encontra à nossa frente, mais rarefeito. A finitude se torna uma perspectiva mais palpável com o lento despontar das fragilidades de mente e corpo.

E os boletos não param de chegar; e a política não para de alimentar os piores espécimes humanos.

E tudo isto para quê? qual será o propósito disto? — é o que podemos nos perguntar.

A mais comum das existências de hoje em dia tende a ser um exercício de niilismo. As pessoas que se orgulham de não parar nem sequer um minuto sabem que, se o fizerem, poderão dar de cara com o nada. Mesmo entre os que conquistaram algo invejável, não é inusual o sentimento de desimportância e vazio.

Porque a passagem do tempo é inexorável para todos nós, mortais, se não tivermos um quadro em que situar o que estamos vivendo, tudo poderá nos parecer sem sentido.

Esse quadro só pode ser, a meu ver, espiritual. Aqui, a palavra não precisa ser necessariamente tomada na acepção de “sobrenatural” ou em filiação a qualquer tradição religiosa. Decerto nada tem a ver com nutrir superstições. Devemos voltar a algo mais básico: ao étimo greco-latino, em que pneûma (πνεῦμα) e spiritus designavam o ar que entra e sai por nossos pulmões e nos proporciona a vida.

É espiritual, em primeiro lugar, a dimensão na qual certos processos naturais involuntários podem se tornar objeto de nossa atenção. É espiritual, logo em seguida, a reflexão sobre as condições especialíssimas que mantêm este planeta repleno de vida senciente. É espiritual, por extensão, o questionamento acerca de tudo o que nos põe em conexão com a totalidade cósmica — e a possibilidade de um propósito, mais que um propósito bem delimitado, daí decorrente.

Na prática, a espiritualidade de que falo consistiria em abrir recessos de contemplação em meio à azáfama da vida ativa, permitindo que nossas próprias buscas por afluência ou influência fossem relativizadas pela percepção de algo maior. Isso daria ocasião a que compreendêssemos, com profundidade, por que fazemos aquilo que fazemos, em vez de somente subsistirmos.

O adjetivo espiritual, assim, não se oporia a material, mas a termos como maquinal, mecânico, automático.

Por exemplo, tomar o momento presente nas mãos é espiritual porque trabalhamos com a satisfação que podemos tirar de coisas simples, do mero prazer de existir. Somos, deste modo, levados para longe dos mores predatórios que criam desarmonia, além das distrações, que só têm por objetivo o esquecimento de nós mesmos.

Ademais, uma visão espiritual da passagem do tempo nos incutiria a ideia de que a incerteza com relação ao futuro nada tem de temível ou escandaloso, sendo o característico da condição humana. Vivemos os momentos, um após o outro, tendo controle bastante diminuto sobre as coisas. Estas dependem propriamente do “infinito nexo de causas e efeitos”, da “inteligência do cosmos”, da “vontade de Deus” — use-se qualquer outra expressão que denote o incomensuravelmente grande e complexo —, não de nós.

Marco Aurélio Antonino, imperador romano entre 161 e 180 e adepto da filosofia estoica, falando do melhor uso do presente, fez a seguinte nota de si para si (trad. Edson Bini, 2019):

Todas as coisas pelas quais anseias e que procuras por caminhos sinuosos, poderias tê-las desde já se, por malevolência contigo mesmo, não as negasse para ti, isto é, se deixasses atrás de ti o passado em sua totalidade, se confiasses o futuro à providência [πρόνοια, prónoia] e se procurasses concentrar-te restrita e exclusivamente no presente, construísses para ele uma rota na direção da devoção religiosa [ὁσιότης, hosiótēs] e da justiça [δικαιοσύνη, dikaiosúnē]. Na direção da devoção religiosa, para que tenhas amor pelo lote que foi a ti atribuído; com efeito, esse lote foi a ti destinado pela natureza, e tu foste por ela destinado a ele. Na direção da justiça, para que teu discurso seja verdadeiro e para que tuas ações sejam de acordo com a lei e segundo o valor das coisas, isso livremente e de maneira não intricada e tortuosa. (Meditações, XII, 1:1)

Em “Velha roupa colorida”, canção do álbum Alucinação (1976), Belchior assim exprime essa necessidade de buscar dentro de si, a cada momento, uma espécie de fonte da juventude:

No presente, a mente, o corpo é diferente
e o passado é uma roupa que não nos serve mais.
Você não sente, não vê,
mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo,
que uma nova mudança, em breve, vai acontecer.
E o que algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo
e precisamos todos rejuvenescer.

Ironia dos tempos, o lirismo do cantautor sobralense também faz parte do passado, assim como os sonhos da geração de que ele procurou ser porta-voz. Aliás, assim como este texto, composto em sucessivos instantes que já se foram, mas que se transporta, como garrafa lançada no oceano, até você, que o está lendo.

O que importa é que Belchior então falava de um anelo que no ser humano jamais morre: o de buscar uma espécie de plenitude no presente, sentindo-se no mais alto de seu potencial — com argúcia, vigor e expansão. E sobretudo com calma — como um tigre, que só age quando estritamente necessário, mas de modo exato, plástico. Como alguém que entende que o passado ficou para trás, estando totalmente equipado para abraçar o futuro, qualquer que venha a ser ele.

Isso é espiritual no grau mais elevado, segundo meu entendimento. Portanto, apenas caminhe em direção à incerteza, momento após momento. Você saberá lidar inteligentemente com os desafios que a vida lhe colocará.

Porque a alternativa é a resistência inútil: medo, lamúrias, imprecações, ranger de dentes. E você não é mais uma criança.

Professor e administrador escolar. Escreve também em devitastoica.com.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store