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A estas alturas, já existe a confirmação de um caso de coronavírus no Brasil. Trata-se de um senhor de 61 anos, que passou alguns dias na Lombardia (norte da Itália). Depois da viagem a trabalho, retornou a São Paulo. Foram cerca de quatro dias até que os sintomas se manifestassem. Nesse ínterim, disse ter se relacionado com umas trinta pessoas, em pleno Carnaval.

O contágio não é tão simples, a crer em nosso Ministro da Saúde: seria facultado apenas pelo contato íntimo.

Ainda assim, a possibilidade de que nosso Paciente Zero já tenha infectado um punhado de paulistanos não é nula. Estariam esses cidadãos neste momento circulando entre nós, incógnitos para as autoridades sanitárias, insuspeitos para si mesmos.

E isso sem falar nas dezenas de voos internacionais que aterrissam em território brasileiro. Novos vetores podem chegar, em outras levas, a mais cidades. Os protocolos de segurança de nossos aeroportos não têm a fama de ser rígidos. Todavia, mesmo que o fossem, não seriam infalíveis.

Desde que o surto de coronavírus despontou, no início de dezembro de 2019, era óbvio que aportaria por aqui, mais cedo ou menos cedo. Se nem a ditadura chinesa, com todo o seu aparato de controle, fora capaz de deter a contaminação de dezenas de milhares de pessoas, que poderíamos nós?

Efetivamente, temos pouco a fazer. No nível pessoal, podemos nos alimentar e dormir bem, higienizar as mãos várias vezes ao dia e não levá-las ao rosto, talvez evitar multidões. E é só.

Como política, os eventuais novos casos serão mantidos em isolamento, em domicílio ou hospital. Em momentos mais críticos, poderá haver a suspensão de aulas e do expediente de alguns serviços. São coisas que podem diminuir o ritmo de difusão da doença.

Entretanto, o Covid-19 pode se manter em incubação por até 14 dias antes da fase sintomática.

Ainda não há antiviral eficaz. Temos de contar com nossos sistemas imunológicos para lidar com a infecção — daí a importância de hábitos saudáveis. Em cerca de 80% dos casos, nossos linfócitos têm levado a melhor: o vírus somente provoca sintomas como os de uma gripe pouco severa.

Para 2% ou 3% dos infectados, contudo, a combinação de pneumonia e insuficiência dos rins tem se revelado fatal. Na maioria são pacientes idosos ou com problemas de saúde pré-existentes. De modo nenhum, gente dispensável. O fato é que todos temos pessoas nessas condições entre familiares e conhecidos.

Pelos indicativos, não é um apocalipse. A mortandade da epidemia que se desenha não deverá se equiparar à do influenza H1N1 de 1918–19 — a “Gripe Espanhola”, responsável por no mínimo 40 milhões de óbitos. Sabemos muito mais sobre infectologia hoje e temos condições de higiene e nutrição bem melhores que as de um século atrás. Nesse meio-tempo, já batemos a tuberculose, a sífilis, a varíola.

Com toda a probabilidade teremos, em poucos meses, uma vacina ou um tratamento mais potente contra o vírus. Há gente trabalhando incansavelmente nesse sentido em laboratórios de todo o mundo. Devemos ser gratos a essas pessoas, quase todas anônimas.

Talvez a coisa nos ponha em uma grande crise, porém. Seus efeitos econômicos têm sido levados em conta mais do que a questão humana: fábricas param, bancos deixam de lucrar, serviços minguam. O pavor que pode nascer em sociedades muito midiatizadas é, além disso, considerável. Para além do razoável.

Se o contágio pelo novo vírus não é sentença de morte certa, a sombra que paira sobre todos nós, os mais de 7,7 bilhões de habitantes terrenos, tem ao menos o condão de desfazer certas ilusões.

Pois, a bem da verdade, ninguém está a salvo. Não há garantias de que algum de nós não passará para as estatísticas, de que não se tornará uma casualty. É improvável (e não devemos nos torturar com isso), mas não impossível. O vírus busca sobreviver à custa dos hospedeiros. Ele quer viver — e multiplicar-se — tanto quanto cada um de nós. E se sente tão à vontade como nós outros, humanos, neste planeta.

Não há nada de “não natural” nesse processo, nada que a humanidade não tenha visto muitas vezes — e de maneira ainda mais dramática.

É certamente bizarro pensar que nós ou as pessoas que amamos estamos todos sujeitos a padecer como consequência possível de uma sopa de morcego ou de um espetinho de cobra consumido às pressas num mercado de Wuhan.

Contudo, como postula a Teoria do Caos: O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um tornado no Texas. Tudo está interconectado.

Não se pode fugir da interconexão, do encadeamento de causas e efeitos que governa tudo quanto existe. A regra do jogo, aqui, é que somos vulneráveis, mortais. “Viver é perigoso”, dizia o jagunço Riobaldo.

Se não perecermos por força do último vírus, será por qualquer outra causa. Não podemos nos enganar a esse respeito. Não devemos pensar que somos estáveis, permanentes.

Mas nem por isso podemos ceder ao pavor, sob pena de nos tornarmos pessoas piores — pois, se isso acontecer, o vírus nos terá decretado uma derrota bem mais terrível do que as que nos impõe no momento.

O jeito é ir levando a vida em frente, com mais cautela.

A humanidade sobreviverá (e, com ela, muitos de nós). Para a natureza, é o que basta.

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