Por que ler os estoicos pode ser melhor que contratar um coach (1)

Donato S. Ferrara
Aug 8 · 4 min read

Antes de mais, atenção ao verbo auxiliar: pode. Como em toda categoria, entre os coaches há profissionais bons e maus, competentes e incompetentes, pragmáticos e lunáticos. Passada a febre da coisa no Brasil, sobreviverão à prova do tempo — e do mercado! — os melhores, os que entregam benefícios verificáveis. Pode demorar, demorar muito, mas a coisa é certa.

E, coisa ainda mais certa: no futuro, o apego ao hype, a paixão por novidades, nos trará, de arrasto na sua marola, mais um lote de flagelos meio ridículos. Quem se lembra das pulseiras magnéticas? Pois é.

Nesta série de artigos, discuto cinco motivos que me fazem pensar que ler com atenção as obras dos antigos estoicos, nelas meditando, pode ser melhor que converter-se em coachee.

Abaixo, o primeiro motivo.

  1. LER OS ESTOICOS É MAIS BARATO QUE CONTRATAR UM COACH

Ler é um hábito dos mais econômicos. O livro poderia ser mais barato no Brasil, óbvio, não fossem os impostos e certa tendência editorial de conceber tal objeto como artigo de luxo. Habitantes de país subdesenvolvido, tememos a circulação de ideias.

Ainda assim, dotar-se de pequena biblioteca é um objetivo que cabe no bolso de qualquer remediado. O mesmo não se pode dizer, por exemplo, das fortunas cobradas por coaches para prover experiências irrepetíveis a seus clientes. As cifras podem girar em torno de centenas de milhares de reais — e há quem esteja disposto a pagá-las. Sem problemas aí: capitalismo, trocas voluntárias.

É evidente que, nesses eventos (não raro caríssimos), promove-se uma catarse coletiva. Os participantes se livram de boa parte de suas angústias, aquelas que os limitam na busca pelo sucesso, e tomam para si as palavras do mentor como balizas para sua vida profissional e afetiva. E muito do que dizem os coaches é pleno de significado e certamente benigno, sem dúvida.

A questão é a efetividade dessa catarse — dessa purificação espiritual, por assim dizer — a longo prazo. Tomar para si um novo mindset, a mentalidade de alguém verdadeiramente vencedor, não é coisa imediata, muito menos certa. Provavelmente o coachee precisará de mais sessões catárticas para livrar-se do entulho mental que impede “a maximização de seus resultados pessoais”. Mais grana despendida, portanto.

Há outra coisa: o participante que porventura não se sentir assim tão “impactado” ao longo do encontro pelo qual pagou tão caro terá coragem de admitir para si, assim a seco, que aquilo não funcionou? Ou insistirá um pouco mais no método? Mais grana despendida, talvez.

Os estoicos nos oferecem uma perspectiva diferente e meio esquecida (porque clássica): uma educação.

A vida, claro está, não vem com manual de instruções. Também se nota que certas pessoas acabam tendo uma desenvoltura maior na lida com seus problemas, parecem estar mais à vontade na existência: são portadoras de uma ars vivendi, uma “arte de viver”. Podemos aprender com elas, tomá-las como modelos de conduta e às vezes até mesmo indagá-las diretamente ou travar convívio: atos totalmente gratuitos, que são o ponto de partida de uma educação. Quando não as encontramos à nossa volta, os livros podem suplantar essa falta. Algum dinheiro envolvido; nada de abusivo.

E quanto ao impacto em real time? E quanto à catarse? E se, em vez de irmos à cata de coisas mirabolantes, nos dispuséssemos a uma experiência mais modesta e comezinha: a de notar as mudanças que uma filosofia de vida é capaz de fazer em um indivíduo (pode ser você), pouco a pouco, gota a gota, por uma espécie de impregnação?

Eis Epicteto, ex-escravo e filósofo estoico, dirigindo-se a seus alunos muito cheios de urgência:

Nada grandioso produz-se imediatamente, pois que isso não sucede nem ao figo nem à uva. Se você me disser agora que quer um figo, eu lhe responderei que isso exige tempo: deixemos que a figueira primeiro floresça, depois que o fruto se forme e por fim que este amadureça. Mas se o fruto da figueira não chega de imediato e em uma hora ao ponto de madureza, você quer colher o fruto da mente de um ser humano em tempo tão breve e tão facilmente? Não tenha essa expectativa, nem se eu disser que é assim. (Diatribes, I, 15: 7–8)

“Milhares de vidas impactadas em uma única noite!” Como disse um amigo meu, soa como o acidente de Chernobil. Deixemos, porém, a radioatividade satírica de lado; vamos dar a palavra ao senador e filósofo romano Lúcio Aneu Sêneca:

Diferente é o propósito dos declamadores que pretendem ganhar o aplauso da assistência, diferente é também o dos conferencistas que atraem a atenção dos jovens e dos ociosos pela variedade dos temas ou pela elegância da exposição; a filosofia, essa, ensina a agir, não a falar, exige de cada qual que viva segundo as suas leis, de modo que a vida não contradiga as palavras, nem sequer se contradiga a si mesma; importa que todas as nossas ações sejam do mesmo teor. O maior dever — e também o melhor sintoma — da sabedoria é a concordância entre as palavras e os atos, o sábio será em todas as circunstâncias igual a si próprio. “Mas quem será capaz de atingir um tal nível?”. Poucos, decerto, mas mesmo assim alguns. (Cartas a Lucílio, XX: 2)

Você não se sentiu impactado ou impactada por perceber que existem coisas que não envelhecem de jeito nenhum? Não sentiu nenhum indício de arejamento em seu mindset?

Continua. [Parte 2]

Donato S. Ferrara

Written by

Professor e administrador escolar. Escreve também em devitastoica.com.

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