Por que ler os estoicos pode ser melhor que contratar um coach (3)

Donato S. Ferrara
Aug 22 · 10 min read
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Quem me acompanhou até aqui notou que meu objetivo não tem sido detratar as propostas X ou Y dos instrutores Fulano ou Sicrano, mas opor-me a certos aspectos da cultura do coaching.

E mais uma vez, insisto: há coaches e coaches. As críticas que teço claramente não se destinam aos profissionais que fazem um bom trabalho, dentro dos limites da sensatez.

Todavia, há uma febre da coisa no Brasil — e os excessos são não apenas ridículos, mas perniciosos. E perniciosos porque comportam distorções, sendo a mais terrível delas a tendência de se considerar o sucesso como a única régua ou métrica para estimação do valor de um indivíduo.

Neste particular, a discordância entre a filosofia estoica (tal como pode ser legível e aplicável no século XXI) e as distorções da cultura do coaching é diametral. Estoicamente falando, julgar uma pessoa por seu sucesso — entenda-se o que se quiser entender por essa palavra — é errado. Ponto.

E, depois de argumentos de ordem econômica e psicológica, estamos prontos para ir mais fundo no coração do estoicismo: pois vamos falar do que pode ou não trazer a realização pessoal.

3. OS ESTOICOS TÊM UMA VISÃO ÉTICA DA FELICIDADE

O que é uma vida realizada? Para essa pergunta, há tantas respostas quanto pessoas na Terra. E isso sem falar das inúmeras que já se foram, as quais decerto tinham os seus palpites. Será que todas essas respostas são convenientes? Será que todas elas recobrem a realidade humana? Será que se baseiam em coisas exequíveis?

Grande parte dessas opiniões gravita em torno do termo felicidade. É uma palavra bela, mas muito mal tratada — se não francamente prostituída — em nossa época. Como também sucede ao substantivo amor e derivados, aquele que versa sobre a felicidade enfrenta sério risco de incorrer em pieguices. Melhor ter cautela.

Segundo uma percepção geral, costumamos conceber a felicidade como um estado bastante mais duradouro do que a alegria, o contentamento ou o júbilo. A felicidade é, por assim dizer, algo existencialmente mais denso e consequente que as satisfações temporárias que podemos vir a tirar das coisas. Portanto, está apta a tornar-se um objetivo de vida, algo que se persegue com todas as forças.

Em grego antigo, o vocábulo que melhor traduz a noção esboçada acima é eudaimonía (εὐδαιμονία). É formado pelo prefixo eu-, associado a “belo” e “bom”, pelo radical -daimon-, que nomeia um tipo de divindade intermédia, mais próxima dos seres humanos (um “gênio”, “espírito” ou “demônio”), além do sufixo -ía, de substantivos abstratos. Uma pessoa feliz, conforme a mentalidade grega, seria alguém que vivesse “em comunhão com um bom espírito”, “habitado por um deus bom ou belo”.

Nos primórdios, ser eudaimonikós ou feliz tinha a ver com ser agraciado pelos céus com uma divindade benéfica, o que vinha acompanhado de dons terrenos como poder, riqueza ou reputação. O daímon (δαίμων) que cabe a alguém tem então a ver com o destino individual, com a sorte que se tira na vida — em última análise, portanto, com o favor das divindades superiores.

A tragédia grega se especializou na focalização do momento em que esse favor dos olímpicos era retirado de um mortal que se julgava feliz: o que parecia um bom daímon revelava-se um mau daímon. É mais ou menos esta a visão que o rei de Tebas expressa nos lamentos da porção final de Édipo Rei, ao colocar a si e a Apolo como corresponsáveis pela desgraça que sofria (versos 1576 em diante).

A história é longa, cheia de lances: não cabe relatá-los todos aqui. Um dos empreendimentos da filosofia grega, porém, em contraste com a concepção tradicional e religiosa, foi sugerir que o indivíduo seria plenamente responsável pela sua felicidade.

Desgarrada do favor dos deuses, a eudaimonía passaria a ser um assunto que toca mais de perto aos humanos, com sua liberdade de buscá-la ou deixar de buscá-la, de ter êxito ou não em sua procura. Isso decerto soaria ímpio aos ouvidos dos que professavam a visão mais antiga. Contudo, foi um passo decisivo na libertação dos seres humanos de um conjunto de forças caóticas e obscuras.

De fato, a filosofia alterou significativamente o modo como os deuses eram vistos: não se tratava mais de potestades ambivalentes que observavam tudo meio de longe e tomavam os mortais na mão como joguetes, mas de entidades benfazejas que queriam, justamente, que o ser humano se tornasse autônomo. A felicidade dos mortais passou a ser fazer coincidir sua vontade com os desígnios divinos, que se exprimiam pela organização do cosmos. A virtualidade da eudaimonía humana estaria assim inscrita na própria natureza.

Sócrates foi, como Nietzsche sinalizou tantas vezes, o coveiro da mentalidade trágica da Grécia — um antitrágico. Quero insistir no termo, mas deixando de lado algumas características que em geral se emprestam à figura, sobretudo pela influência de Platão. Podemos pôr em suspenso o “racionalismo ingênuo” (o naive rationalism mencionado por Nassim Nicholas Taleb) de muitos diálogos platônicos e ficar com o que importa: a vida e a morte de Sócrates, com seus tons indissolúveis de enigma.

A antitragicidade do exemplo socrático transborda para boa parte da filosofia subsequente, inspirando decisivamente os cínicos, os epicuristas e os estoicos. Naquilo que nos importa, a eudaimonía dos adeptos do Pórtico andava sempre lado a lado com outra palavra grega que já encontramos: a areté (ἀρετή), que quer dizer “excelência” ou “virtude”. Estoicamente, o bem moral e a felicidade eram vistos como indissociáveis. Era feliz quem era virtuoso.

Neste ponto, uma divergência pode surgir. Seriam as pessoas virtuosas e/ou excelentes de fato felizes? Quem não conhece um caso de indivíduo aferrado ao bem mas entristecido, talvez mesmo deprimido? Quem não presenciou uma história de alguém que agiu corretamente e se deu mal? Que concepção estranha, a dos estoicos!

Pois eles responderiam a essas indagações todas afirmando o seguinte: a virtude ou excelência é condição suficiente para a felicidade do sábio, mas não se dá exatamente o mesmo com as pessoas comuns, não instruídas na filosofia. Essas outras — basicamente, todos nós — continuarão vendo as coisas de uma perspectiva que, em muitos pontos, não difere daquela da tragédia. Quando vierem a perder qualquer coisa exterior que tomem por bem, recairão em lamento, em acusações contra homens e deuses, em imprecações.

Nelas, a porta está aberta para o desespero, estejam ou não disso cientes.

O sábio estoico sabe uma coisa fundamental: colocar-se para fora das vicissitudes da Fortuna, das flutuações da sorte. Antitrágico como Sócrates (modelo de sabedoria para o Pórtico), mesmo as adversidades são por ele transformadas em vantagens ou ocasiões para o aperfeiçoamento. Eis como Marco Aurélio ilustra o ideal da sabedoria — a sabedoria que ele procura incutir em si por si — em uma passagem célebre:

Torna-te semelhante ao promontório contra o qual as ondas vêm quebrar-se: ergue-se impávido e, à sua volta, apazigua-se o furor das águas.

“Que desgraça! Aconteceu-me tal coisa!”. É preferível dizeres: “Que felicidade! Aconteceu-me tal coisa e estou contente; o presente não me fere nem o futuro me assusta”. Com efeito, semelhante coisa poderia suceder a toda a gente, mas bem poucos a suportariam sem aflição. Por que motivo será tal acontecimento considerado desgraça e tal outro fortuna? Chamarás desgraça ao que não tolhe a um homem a sua própria natureza? E o que não estorva a sua natureza poderá ser contrário à vontade dessa natureza? No entanto, conheces bem essa vontade: o tal acidente que sofreste impede-te porventura de seres justo, magnânimo, sensato, circunspecto, verídico, modesto, capaz, enfim, de possuíres essas virtudes cuja reunião constitui o característico da natureza do homem? De resto, sempre que um acontecimento provoque a tua tristeza, recorre a esta verdade: não é uma desgraça, mas suportá-lo corajosamente é uma felicidade. (Meditações, IV, 49)

A imagem inicial é interessante: tornar-se tão sólido e inacessível quanto uma falésia batida pelo mar revolto. Não se deixar, pois, confundir com o caos circundante, resistir ao que é meramente destrutivo. Ademais, é algo que tem paralelos no Dhammapada budista (Appamadavagga, 25) e na Consolação da Filosofia (Livro II, Poema nº 4) de Severino Boécio.

O que é característico do estoicismo aureliano vem logo depois: cada ocasião da vida inicialmente tomada como uma “desgraça” ou um “mau golpe da Fortuna” deve ser encarada como uma felicidade ou bem-aventurança. Todo o trecho é perpassado por palavras derivadas de túche (τύχη), que quer dizer “sorte” ou “fortuna”. Assim, pode-se ver que, para os estoicos, a sorte do ser humano — e, por extensão, sua felicidade — é posta inteiramente em suas mãos. Antitragicidade pura e explosiva.

E isso só é possível quando se tem uma visão ética da felicidade. Em cada ocasião, por dura que ela nos pareça, é sempre possível ao ser humano manifestar sua excelência ou virtude — ser “justo, magnânimo, sensato, circunspecto, verídico, modesto”, dentre outras coisas. Por causa da areté que a natureza mesma inscreveu no íntimo humano, diriam os antigos.

— Mesmo em um leito de hospital?

Mesmo ali.

— Mesmo depois de o sujeito ter perdido todo o seu dinheiro?

Mesmo nessas circunstâncias.

— Mesmo na morte de uma pessoa que amamos?

Pois é, mesmo nesse caso bastante difícil. Quem é que impede você de ser excelente nessas circunstâncias? O que há para fazer numa situação assim além de tentar continuar a ser uma pessoa boa? As lágrimas podem ser um bom exutório para nossa dor de perda, mas nunca ressuscitaram ninguém.

Estamos muito longe das obsessões de certa forma de coaching, portanto. E isso porque o estoicismo nos inspira a ter coragem e serenidade quando o mundo parece nos ter desabado sobre a cabeça. Como se sabe, ninguém gosta de pensar nisso, mas o fato de evitarmos tais pensamentos não significa que estejamos ao abrigo do pior.

Porém, vamos dar uma espiada em algo um tanto menos dramático.

O que fazer, por exemplo, quando não atingimos o sucesso? Os coaches dirão que devemos continuar tentando buscá-lo: resiliência. Talvez alguns adicionem a cláusula “custe o que custar”. Custe o que custar? Será que vale a pena roubar, mentir e assediar moralmente para atingi-lo? Pois então estes menearão energicamente a cabeça em desassentimento, acho: nada disso, nada disso!

Os custos para a obtenção do sucesso podem ser altos demais: podem incluir expedientes antiéticos. Às vezes, torna-se impossível ascender em certas estruturas sem trapacear, criar intrigas e puxar o tapete de muita gente. É o que se chama, desde tempos antigos, corrupção. O termo vem do latim corruptio, sendo inicialmente usado para denotar a podridão dos corpos defuntos. Como ninguém ignora, meios em que há muita corrupção só podem navegados por gente igualmente corrupta.

Será que você está preparado para nadar em mares de corrupção em nome do sucesso? Será que isso tem alguma relação com felicidade genuína?

— Você está sendo tendencioso em sua explanação. Nenhum coach, de respeito ou de sucesso, defende a trapaça ou a corrupção.

Aceito, em parte, a crítica. Mas meus leitores improváveis têm de aceitar, por sua vez, o fundo de meu argumento. Desejo insistir no seguinte: um sucesso que aconteça à força de desonestidades e tramoias não vale a pena. Ou, ao menos, que se aceite isto: a ética pode impor uma série de restrições à busca pelo sucesso sob certas circunstâncias (que não são tão raras assim). “Obter o sucesso, custe o que custar” é uma fórmula amoral, para dizer o mínimo.

O problema é a lógica subjacente ao tipo de coaching que estou criticando. Pois, se o sucesso está acima de tudo, há pelo menos uma implicação necessária bastante visível: a de que os recursos antiéticos para obtê-lo estão de antemão justificados, goste você ou não dessa perspectiva.

Como se vê, a obsessão pelo sucesso é uma areia movediça. O sucesso não é uma boa métrica para aquilatar o valor de uma pessoa. Também não coincide com a felicidade. Por fim, tomá-lo como fim último de nossas ações pode nos desvalorizar perante nós mesmos, caso venhamos a falhar.

É certamente desafiador colocar-se para fora dos domínios da Fortuna e felicitar-se com o bem interior. Mas é algo que vale a pena tentar, diriam os estoicos, visto que a alternativa é pior: inclui opiniões errôneas, injustiças, lamúrias. Eis mais um vislumbre da coisa, por Marco Aurélio Antonino:

Seja o que for que não dependa de ti, e que consideres um bem ou um mal, acontece necessariamente que, ao sofreres esse mal ou ao faltar-te esse bem, murmuras contra os deuses e odeias os homens causadores — ou que consideras como tal — dessa contrariedade ou desgraça. E muitas são as injustiças que cometemos baseadas em tal erro. Mas, se considerarmos apenas bens e males o que depende de nós, não nos resta motivo algum para acusar Deus nem para declarar guerra aos homens. (Meditações, VI, 41)

Para terminar, ilustremos um pouco mais a “alternativa” mencionada acima. Como pode ser a vida daquele que está permanentemente descontente ou insatisfeito? Epicteto, em uma de suas aulas, fala-nos do castigo de não aceitar as coisas como elas são:

E qual é o castigo para os que não aceitam favoravelmente tudo o que ocorre? Ser como são. Alguém está descontente por estar só? Esteja na solidão. Alguém está descontente com os pais? Seja mau filho e lamente. Está descontente com os filhos? Seja mau pai. “Lança-o na prisão”. Qual prisão? Aquela na qual ele está agora. Pois está aí contrariado. Onde alguém está contrariado, aí para ele é a prisão. Portanto, Sócrates não estava na prisão, pois estava ali voluntariamente. “Mas minha perna será mutilada!” Prisioneiro! Por uma minúscula perna acusas o Cosmos? Não a cederás voluntariamente pela totalidade? Não te separarás dela? Sendo grato, não a devolverás a quem a deu a ti? Irritar-te-ás e ficarás descontente com as coisas que foram dispostas por Deus, coisas que ele, através das Moiras, presentes e fiando a tua gênese, definiu e dispôs? Não sabes que tu és pequena parte em relação à totalidade? Isso segundo o corpo, porque certamente segundo a razão não és inferior nem menor que os Deuses: pois a grandeza da razão não é julgada pelo tamanho, nem pela altura, mas pelas opiniões. (Diatribes, I, 12: 21–26; trad. Aldo Dinucci)

É dura, porém necessária, a lição do ex-escravo frígio que se tornou o maior professor de filosofia estoica. Não passa de um prisioneiro todo aquele que, não entendendo que há coisas fora de sua alçada ou controle, procura em vão dominá-las.

Alguns prisioneiros, aliás, julgam-se pessoas de sorte e vangloriam-se de seu sucesso.

Continua.

Donato S. Ferrara

Written by

Professor e administrador escolar. Escreve também em devitastoica.com.

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