Vai pra China!

Alex Teixeira, Gervinho, Jackson Martínez, Pocho Lavezzi, Ramires, Burak Yilmaz, Renato Augusto, Jadson, Guarín, Gil, Luís Fabiano, Jelavic, Kakuta, Fredy Montero, Oba Martins, Geuvânio, Stéphane Mbia, Jô, Ralf, James Troisi, Assani Lukimya. Até o último minuto de janela aberta, ainda havia gente trabalhando para estender a lista de contratações de impacto. Quase €400 milhões foram investidos em 2016 por clubes da China.

Ligas periféricas que contam com forte apoio governamental, mecenatos ou qualquer fonte de dinheiro desproporcional ao baixo interesse que geram sempre atraíram jogadores de bom nível. Asamoah Gyan, por exemplo, trocou aos 25 anos o Sunderland e uma carreira que ainda poderia decolar na Premier League pelo salário astronômico oferecido pelo Al Ain, dos Emirados Árabes, em 2011. Mas certamente nunca houve um ator tão relevante quanto a China de 2016.

Gyan também já foi para lá, ainda em 2015, para ganhar incríveis £227 mil por semana, patamar salarial que apenas seis ou sete clubes europeus ousam reservar a algumas de suas estrelas. Mesmo não sendo um personagem importante do futebol de clubes há quase meia década, o atacante ganês garantiu seu lugar na terra prometida. Por ter deixado a Europa aos 25, ele se tornou uma espécie de símbolo do grupo de jogadores que substituem a perspectiva de algumas ótimas experiências por mais dinheiro. Não é certo, nem errado. É apenas uma decisão que ninguém tem o direito de tomar por ele.

No entanto, à medida que o mercado se expande e deixa de ser alternativo, e escolhas como a de Gyan se proliferam, esse processo passa a mudar a dinâmica do futebol mundial e naturalmente será debatido. O papel da China (em nosso imaginário, quem contrata é sempre “a China”) no senso comum brasileiro, por exemplo, é o de vilã. “Ela” tem o poder de devastar um elenco repleto de contratos frágeis, como era o do Corinthians com suas baixas multas rescisórias, ou de desestabilizar um jogador que o clube não pretende vender, caso de Ricardo Oliveira no Santos.

É também inegável que, de alguma forma, a questão chinesa exerce sobre o jogo que nos interessa, as ligas a que nós assistimos, um efeito de empobrecimento. É muito mais significativo no Brasil, pois três dos quatro melhores jogadores do país nos últimos dois anos estão lá — o outro foi aos Emirados Árabes. Na Europa, de maneira geral, o fenômeno por enquanto substitui alternativas de recomeço para jogadores que perdem espaço em grandes clubes. Ramires, Martínez, Lavezzi, Guarín… Muita gente poderia começar 2016–17 em bons times de bons campeonatos.

Mas isso é o que ela faz às ligas, não aos clubes de onde saem os jogadores. Pergunte hoje a Enrique Cerezo, presidente do Atlético Madrid, o que ele pensa sobre a ascensão econômica do futebol chinês. O atacante colombiano Jackson Martínez, de 29 anos, foi contratado pelo Atleti por €35 milhões após ótimas temporadas no Porto, marcou três gols em 22 jogos na Espanha e viu seu valor de mercado cair, com perspectiva de desabar se seguisse nesse ritmo. Só que o Guangzhou Evergrande não liga para valor de mercado e presenteou o clube espanhol com €42 milhões, sete de lucro por uma aposta alta que fracassou.

O confiável Liverpool Echo, da Inglaterra, indica que a China pode ser um caminho para Mario Balotelli na próxima temporada. O péssimo negócio do Liverpool, que já era tratado como prejuízo definitivo, terminaria com o dinheiro surpreendentemente recuperado a partir da concorrência entre os próprios chineses para contar com um jogador que atrairia mais holofotes à Super Liga.

Terra prometida (NASA Worldwind)

Sejamos sinceros: a nova associação na China entre baixa exigência técnica, desespero por enxertar jogadores famosos numa liga fraca e poder astronômico de investimento é um prato cheio para os grandes clubes europeus, que quase sem exceção estão sempre tentando recuperar (parte de) algum investimento que não deu certo. Os chineses pagam bem acima do valor de mercado pela transferência para viabilizá-la, ignoram o nível recente de atuações desde que o jogador tenha uma carreira relevante, oferecem salários exorbitantes e sentenciam o perdão ao clube que cometeu um erro grave de avaliação.

Sem a questão chinesa, ninguém pagaria £25 milhões pelo atual Ramires, ídolo do Chelsea que perdeu relevância no elenco nos últimos anos. Diego Simeone ainda estaria tentando resgatar o nível de Martínez (e Cerezo não teria qualquer perspectiva de resgatar o dinheiro). O PSG ainda estaria pagando a Lavezzi um salário muito superior à resposta que ele oferece em campo. A Internazionale ainda teria Guarín como um fardo em seu elenco. Enquanto houver grandes equívocos no mercado, a China será bem-vinda — pelo menos por enquanto, pelo menos por este grupo de clubes.

O amor pelo jogo

Não é que as pessoas se sintam no direito de tomar decisões envolvendo o dinheiro alheio. A lamentação quando um jogador relevante vai à China não é puramente resultado de um julgamento moral (embora possa haver esse aspecto, que talvez não faça muito sentido), mas do amor que temos pelo jogo. O futebol é parte importante de nossas vidas e, mesmo que não haja fronteiras para nossa apreciação pelo esporte, queremos ver bons jogadores em boas ligas, e não imersos em times que simplesmente não os acompanham. De alguma forma, fica a ideia de que aquele talento está a nosso serviço, porque amamos, respiramos, consumimos e rentabilizamos o futebol.

É o mesmo amor pelo jogo que certamente tem o atacante Odion Ighalo, artilheiro do Watford na temporada, que recusou um salário quase dez vezes maior. A decisão de ficar provavelmente foi tomada não pelo homem de 26 anos, mas pelo menino nigeriano que “assistia à Premier League e sonhava ser parte” daquele universo, como registrou em entrevista ao Daily Mail. Dimitri Payet, que precisa ser incluído em qualquer seleção da temporada na Inglaterra, também preferiu permanecer no West Ham — é bem verdade que com aumento e extensão do contrato até 2021, quando terá 34 anos. Lucas Lima apostou que pode construir uma carreira mais interessante. Por algum motivo, Pato também disse não.

A saída de Alex Teixeira para o Jiangsu Suning foi a mais lamentável. A fábrica Mircea Lucescu / Shakhtar Donetsk de lapidar talentos brasileiros agora não serviu ao jogo, mas apenas aos cofres do clube ucraniano e a uma liga que não desperta real interesse. Teixeira não pôde ir à Premier League (e à Seleção Brasileira) agora, é certo, mas provavelmente teria mais uma chance em breve. Shakhtar e Alex ganham mais por conta dos chineses, mas nós, em algum nível, perdemos.

Também publicado em pertenceaofutebol.wordpress.com.

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