Quando criei um aplicativo de cidadania.

Ou como o seu projeto paralelo enriquece seu conhecimento e visão de mundo.

Esse é o post do lançamento informal do puf! o aplicativo colaborativo de cidadania(Android e iPhone). em que você marca em um mapa os serviços que não estão funcionando na sua cidade.

Nunca fui um desenvolvedor de apps, nunca soube nada de programação e o máximo que sabia eram noções de HTML para ajustar blogs durante muitos anos. Como publicitário, eu sempre tive um perfil meio difícil de definir. Não sou o típico cara de Criação ou o típico Planner mas tenho um pouco das características dos dois. Sempre tive afinidade com digital mas sem ser um cara técnico e sempre aprendi de acordo com as minhas necessidades por projeto. Sempre fui curioso e metia a cara para tentar achar ou descobrir soluções para os meus clientes e projetos. Então no ambiente de agência de publicidade eu acabo sendo o perfil que as pessoas não sabem direito como definir. Em 2005, quando comecei a trabalhar com redes sociais (que na época no Brasil era relacionamento com blogueiros e gestão de comunidades no Orkut), eu me encontrei. Talvez tenha sido o fato de ter trabalhado quase 5 anos com e-learning, que é algo que precisa de uma comunidade para funcionar melhor, ou talvez o fato de poder escrever para marcas de um jeito menos publicitário. Mas o fato é que era algo que eu gosto, continuo a trabalhar, escrever a respeito e me interessar por redes sociais até hoje.

Desde sempre tive projetos paralelos. Em 2010, quando era sócio de uma agência de publicidade, eu e um amigo criamos uma rede social de reviews de filmes em 140 caracteres chamada moovee.me que teve um relativo sucesso na época e chamou a atenção de algumas empresas que ofereceram parcerias mas nada demais. Meu amigo se mudou para a Austrália e o Netflix cancelou o nosso acesso a API e isso matou o projeto alguns anos mais tarde mas mesmo assim, esse projeto (e sua experiência) abriu portas para o meu próximo trabalho: diretor de redes sociais de uma agência que sempre teve mais fama de offline. Por conta desse perfil da agência e notando que eu respondia as mesmas perguntas em quase toda reunião e brainstorm, notei que poderia criar um app para ajudar a romper bloqueios criativos baseado na mecânica das cartas Oblique Strategies do Brian Eno. E assim criei o Brainstormr. Um app para iOS focado em publicitários e que fosse sempre atualizado e pudesse ter mais estratégias criadas pela comunidade acrescentadas ao app. O app ainda está no ar, funcional mas com design totalmente desatualizado.

Depois disso, trabalhei em mais algumas agências e após sair da última agência que trabalhei e onde era Head de estratégia e redes sociais, comecei a pensar em um novo app.

Eu queria fazer um app de cidadania e que pudesse ajudar mais pessoas.

Fiquei pensando nisso durante um tempo e, no SXSW de 2015 tive a coragem de comentar com um amigo em um encontro casual no meio da rua sobre o que estava querendo fazer. Foi um papo catártico. Eu e ele em momentos de questionamentos da carreira e quais deveriam ser os próximos passos das nossas vidas. Ele, um planner incrível, sócio de uma agência e pensando em sair da agência que criou e eu tentando entender melhor o que poderia fazer se não fosse em publicidade. Saí de lá decidido a tirar o app do papel. Eu já sabia o nome, já sabia o que ele faria e qual o seu público. Só não tinha feito um estudo de viabilidade para ver se valia dar continuidade. O meu amigo? Bem, ele saiu da agência que criou (e que tinha sido vendida) e virou cliente.

Decidi fazer um protótipo do app para ver como ele seria. Comprei o Keynotopia (para poder fazer em um programa que eu já sabia usar e diminuir a curva de aprendizagem), comecei a fazer o protótipo no aeroporto e passei boa parte do vôo de volta para o Brasil fazendo as primeiras telas e continuei fazendo mais telas ao longo dos outros dias e em pouco tempo já tinha algo para poder orçar o desenvolvimento e começar a fazer.

Orçamentos informais que fiz com amigos do mercado me deram estimativas “por baixo” de uma verba que eu não poderia pagar. Eu tinha algum dinheiro guardado mas também tenho uma família para sustentar e não podia comprometer muito dessa grana para o app. Resolvi usar o elance.com, que foi um site que usei para fazer o Brainstormr, e orçar o projeto com pessoas de todo o mundo. Defini um escopo do projeto e o que precisava: um app para iPhone, um para Android e o backend para aquilo tudo funcionasse. Escolhi um fornecedor em um preço que podia pagar e que já tinha experiência com apps que usassem geolocalização.

Optei fazer um app ao invés de um curso de especialização. Acreditava que ter um app criado totalmente por mim na rua seria um cartão de visitas mais eficaz do que mais um certificado de um curso em que teria mais valor pelo network do que pelo conhecimento em si.

Baseado nas minhas experiências anteriores, sabia que eu aprenderia muita coisa prática e que teria um produto que seria útil para muita gente. Eu estava empolgado e totalmente disposto a fazer esse app virar.

puf! Sumiu.

Serviços básicos e #classemédiasofre ;)

puf! é um app para mapear os problemas de falta de serviço nas cidades. Notei que todos os apps de cidadania existentes, exigiam demais do seu usuário. Fotos, descrição do problema e uma amplitude gigante de reclamações que poderiam ser feitas. Eu resolvi ir no caminho oposto. Só queria mapear os problemas de várias regiões de determinados serviços e deixar as pessoas compartilharem suas reclamações online. Minha experiência com redes sociais me ajudou com algumas coisas em termos de repertório para o comportamento de compartilhamento das pessoas.

Eu sabia que as marcas só iriam se manifestar se alguém fizesse barulho sobre o problema. Então os compartilhamentos do app sempre citariam no Twitter as marcas envolvidas associado ao CEP da região e o serviço que estava faltando.

um errinho nessa tela atrasou o lançamento em 10 dias :/

Nessa época em São Paulo o governo estadual estava negando que havia qualquer tipo de racionamento de água e várias pessoas estavam relatando falta d’água frequente e em horários definidos em suas casas mas o governo continuava negando. O puf! serviria para isso. Ainda mantendo a ideia de fazer barulho, ele poderia pautar a imprensa para relatar áreas com problemas nas cidades e para facilitar a vida dos usuários ele poderia ser um catálogo de telefones das empresas que prestam serviço na sua cidade. Chega de ficar procurando a conta do serviço para saber o telefone daquela empresa. Era um clique no celular e você já estaria em contato com as empresas. E esse era o meu MVP (minimum viable product).

Nessa jornada de 6 meses do protótipo até o produto pronto em sua versão 1, foram mais de 20 builds dos apps, infinitos QAs (que eu achei extremamente prazerosos, ao contrário de quando eu fazia para clientes em projetos frankenstein ao longo dos anos), voltei a fazer as coisas que me levaram a chegar no cargo de diretor nas agências que trabalhei. Fiz o site no Wordpress, escrevi todos os textos do app e do site, pensei nas estratégias de divulgação e em como poderia ganhar algum dinheiro com esse app se for o caso. E como consequencia, poderia ter mais esse app como complemento ao meu CV e portifolio, mantendo-o como um projeto paralelo e não como uma start-up.

O desenvolvimento do puf! não é para ser uma fuga do mercado publicitário. É para ser mais uma maneira de mostrar uma nova competência e parte do meu portifolio e repertório.

Independente de eu ir para agência ou para o lado do cliente, o puf! é uma declaração como: “Além de tudo o que você já viu no meu CV, olha o que eu consigo fazer do zero e sem equipe”. Óbvio que tive ajuda de amigos na hora de criar os ícones do app, sugerir como o site poderia ser e de testar as várias versões. Mas fazer tudo do zero foi incrível e mostrava (e testava) a minha capacidade de diversas formas.

E a maneira de deixar isso claro foi reforçar que esse é o meu projeto paralelo e uma maneira de dar alguma coisa para a comunidade. Conversando com o Bob Wollheim , ele deu uma das melhores dicas possíveis:

Celebridades e empresários criam ONGs e eu, que não tenho essa verba ou visibilidade toda, crio um app para a comunidade. Esse é o meu projeto social.

Mundo real

Aí eu descobri uma coisa curiosa na cultura corporativa brasileira. Ela não valoriza empreendedores. Não interessa se for em agência ou cliente. Quando uma pessoa conta para os seus entrevistadores que montou várias coisas ao longo da carreira, raramente alguém pergunta como foi essa experiência, o que você aprendeu com isso e etc. Sempre há um tom fatalista subentendido de que você é um perdedor que não conseguiu fazer virar nenhum projeto desses. Independente desse projeto ser pessoal ou não.

As melhores conversas que tive até agora foram com os donos das empresas e pessoas que tem essa gana de empreendedor, de querer entender mais aquilo que você fez e o que aprendeu com a história. Descobri que há 2 tipos de entrevistadores, os empregados e os empreendedores. Os empregados te avaliam por tudo e os projetos paralelos que não viraram parecem se tornar manchas no seu perfil. Já os empreendedores (que podem ou não ser os donos da empresa), já pensam em como aquele conhecimento poderia ser usado em prol da sua empresa e como um perfil de gente que quer fazer acontecer pode ser bom para a cultura corporativa.

Claro, algumas das vezes eu posso ter sido o causador de uma impressão errada. Sempre que eu falava do app eu não conseguia esconder meu entusiasmo e acho que isso pode ter passado a mensagem de que eu estava naquela entrevista de emprego apenas como algo temporário enquanto a minha “start-up” não virasse. Mas acredito que o papel do entrevistador é também saber filtrar isso numa entrevista e esse tipo de amor por um projeto eu vejo mais como uma coisa boa do que algo ruim.

Mas nada vai me parar.

Acabei de lançar o puf! para iPhone e Android e estou ansioso para ver como (e se) o app vai ser usado. Independente de todas as dificuldades para lançar, do dinheiro e tempo investido, a impressão que tenho é que hoje eu tenho uma nova experiência profissional e um bando de novas características técnicas que tem valor para empresas que eu vá trabalhar. E posso afirmar sem medo de errar que aprendi muito mais nos últimos 6 meses do que aprenderia em qualquer curso que eu pudesse ter feito no mesmo período. Mas a real é que o dinheiro saiu. O dinheiro que entrou foi de alguns freelas que fiz para algumas agências e marcas. Sei que não é todo mundo que tem essa chance. Mas o fato é que para mim valeu muito a pena. Tanto o caminho quanto o seu final.

Vale a pena empreender. Tanto em projetos pessoais que não visam o lucro quanto em projetos com um modelo de negócio claro e definido. E sabe porque eu digo isso? Porque é fazendo que a gente vai aprender e estudar mais para solucionar os problemas que surgem quando você começa a executar aquela sua idéia. Todo o conhecimento teórico que você teve até agora vai te ajudar a resolver esses problemas também. Um bom profissional junta a teoria e a prática e hoje eu estou me sinto mais preparado do que seis meses atrás.

Vamos fazer acontecer.