Imersão no Mercado Público de Joinville
Fonte: Joinville Convention Bureau, Divulgação
O Mercado Público de Joinville, fundado em 1907, não é um local apenas para venda de peixes e frutos do mar, como ainda é muito conhecido pelos joinvilenses, possui alguns boxes que trazem ao público a comercialização de produtos naturais, açougue, peixaria, além restaurantes, lanchonetes e muita música e cerveja. O Mercado Municipal de Joinville se transformou em um ponto de encontro, as pessoas se reúnem na praça, sentam nas mesas e degustam aquela cervejinha. Alguns eventos são promovidos na praça como encontro de carros, festivais, shows de música ao vivo, etc.
Fazia muito tempo que eu não ia ao Mercado, mas por meio de uma aula de pesquisa em design para a especialização de Design Thinking e Novos Negócios, acabei redescobrindo o Mercado Público de Joinville. O objetivo da aula foi aplicar os conhecimentos e técnicas da pesquisa em design para entender melhor o lugar em questão e sugerir melhorias.
Fonte: Rodrigo Philipps, Agencia RBS
Na primeira etapa foi realizada uma pesquisa de observação, com foco na coleta de informações a respeito dos hábitos de consumo do público frequentador do Mercado. Esta pesquisa é um método de imersão etnográfico para compreender situações, comportamentos e interações das pessoas. A síntese de todas as informações anotadas e percebidas foi feita por meio de um painel visual, chamado no design thinking de image board.
O que foi observado:
1 - Bebida: a bebida mais consumida é a cerveja, sendo a maioria das marcas Devassa e Brahma. As outras bebidas consumidas foram steinhäger, caipirinha, refrigerantes e vinho.
2 - Comida: petiscos e lanches rápidos ao estilo de porções. As pessoas mais bebem do que comem no Mercado.
3 - Cigarro: consumo excessivo de cigarros. Mesmo ao ar livre na praça o cheiro do ambiente era bem característico de fumo.
4 - Pessoas: muitos casais ou grupos de amigos fazendo um happy hour. A maioria das pessoas era de uma faixa etária superior aos 35 anos e havia mais mulheres do que homens, em torno de uns 65%.
5 - Celular: dominante o uso do celular tanto em grupos de amigos como nos casais, existia maior interação com o celular do que pessoal.
6 - Ambiente: As pessoas deram preferência para as mesas de fora, ao ar livre, do que as mesas encontradas na marquise do Mercado. Constatou-se a falta de iluminação na praça, estacionamento e entorno do estabelecimento. O estacionamento além de escuro é bem pequeno, não suportando um público muito grande.
7 - Música: o ambiente é tomado pela música, neste dia o gênero era MPB. Os cantores interagiam com as pessoas, chamando algumas pelos nomes, dando a entender que eram clientes recorrentes do Mercado.
Após a síntese do foi observado, realizou-se um mapa de contexto, para encontrar mais informações relevantes a respeito do local como tendências demográficas, tecnológicas, leis, necessidades dos usuários, economia, competição e incertezas.
Na próxima etapa da pesquisa foi realizado um bate papo com toda a turma e o dono de um estabelecimento comercial no Mercado. Conversamos com Valmir Santhiago Júnior, proprietário do Stammhaus Café.
Fonte: Facebook Stammhaus Café
Valmir relatou que o Mercado Público é o lugar mais democrático da cidade, sem muita formalidade e propício a diversas tribos, mas que a população de Joinville é muito crítica e não tão aberta a novidades, talvez pela cultura alemã presente na cidade, portanto a frequência de joinvilenses no mercado é baixa.
O Stammhaus Café vende vários rótulo de cervejas artesanais e utiliza em seu pratos, ingredientes encontrados no próprio Mercado, como verduras e frutas, carnes do açougue e frutos do mar. Atualmente no horário do meio dia serve almoço tipo buffet a quilo para atender as empresas no entorno no Mercado. Os pratos mais pedidos são os frutos do mar e o ticket médio que o consumidor gasta está entre R$ 25 e R$30. O sábado corresponde a 45% do faturamento da semana.
O tipo de música do dia influencia no consumo tanto de comida quanto de bebida. Quando são apresentados os gêneros pagode, sertanejo e samba são consumidas cervejas mais populares e come-se menos, apenas petiscos e porções. Já nos dias de rock, mpb, blues e jazz são consumidas cervejas mais diferenciadas, artesanais ou chopps e comidas à la carte como peixes, hambúrgueres, etc.
Sobre o ambiente, ele explicou que o Mercado é de propriedade da Prefeitura de Joinville, por isso o local não possui muitos investimentos e acaba se deteriorando. Os boxistas pagam uma taxa de condomínio mensal para as despesas do local e realização de pequenas reformas e que muitos boxes se encontram vazios devido a falta de licitação da prefeitura. A iluminação da praça também é por conta da prefeitura, podendo ser o motivo econômico o fato de ser fraca ou inexistente em alguns pontos.
Há uns anos atrás, para poder utilizar o ambiente da praça, os estabelecimentos se responsabilizaram pelo valor da manutenção dela. Após a ocupação da praça do Mercado pelos restaurantes, esta tomou uma nova cara (antes era ocupada por muitos ambulantes) e possibilitou a organização de eventos que movimentam muito o mercado, como festivais, feiras, shows, etc. Estes eventos atraem muitos visitantes e consumidores ao mercado.
Questionamos a respeito dos eventos e de sua divulgação e nos foi apresentado que esta é feita de forma individual nas páginas do Facebook de cada um dos estabelecimentos do Mercado municipal. Existe uma página oficial do Mercado no Facebook, mas ela é administrada pela prefeitura, que não cede a sua administração aos proprietários dos boxes do Mercado e nem a atualiza, devido outras prioridades existentes no município.
A partir desta conversa, para sintetizar todas as informações recolhidas, foi realizado um mapa de afinidades. Optou-se por fazê-lo associando os hábitos de consumo ao estilo musical ou evento realizado no Mercado.
Para o entendimento mais aprofundado dos hábitos dos consumidores do Mercado, foi realizada uma entrevista semi-estruturada durante um sábado de manhã (dia de maior consumo e movimento). Procurou-se questionar qual o propósito da visita ao Mercado, o que mais o atraia naquele ambiente, o que mais gostava de consumir, qual a preferência para o tipo de música ou evento, o que não gostava do Mercado, etc.
A partir das entrevistas pode-se constatar que:
1 - Consumo: Muitas pessoas consideram o Mercado Público um lugar barato. As pessoas confirmam que mais bebem do que comem e muitas acreditam que o Mercado possui pouca opção de alimentação.
2 - Propósito: Algumas pessoas estavam frequentando o espaço para matar tempo, por ser um local perto do centro. Outros eram moradores de bairros próximos e sempre visitam o Mercado ou pessoas que gostam do ambiente ao ar livre para poder aproveitá-lo durante o dia. Algumas aproveitam para frequentar o Mercado com animais de estimação, para poder aproveitar o espaço aberto da praça e mesmo assim poder consumir aquela cervejinha, já que muitos estabelecimentos não permitem animais.
3 - Ambiente: O estacionamento é ruim, pequeno e de difícil acesso. Um grande defeito são os banheiros sujos.
Após todas estas informações sobre o Mercado pode-se fazer uma análise e algumas sugestões de de melhorias para algum ponto negativo observado. Um dos pontos mais deficientes no Mercado Público é a divulgação dos eventos, que tanto atraem o público, mas que não são divulgados de maneira eficiente. Para isso foram sugeridas algumas pequenas ações para a comunicação e publicidade.
Outras sugestões:
1 - Estacionamento: Utilizar o corredor de ônibus da Av. Beira Rio nos fins de semana, quando o movimento do Mercado é maior e os horários de ônibus são diferenciados.
2 - Opções de alimentação: Food trucks na praça com opções de comidas diferentes das que já existem no Mercado.
3 - Uso dos boxes: Espaços de coworking gastronômicos ou espaço para cursos de culinária ou laboratórios para as instituições que possuem cursos relacionados a gastronomia. A Univille, por exemplo, tem uma cozinha no shopping Mueller, onde promove eventos, cursos, aulas do curso de gastronomia, etc. Por que não a utilização de um espaço mais democrático para a realização destes eventos?
Autor: Jacque Tkac
