Redescobrindo o Mercado Municipal de Joinville
Durante 8 encontros a turma de Design Thinking e Novos Negócios (da qual faço parte) teve um desafio na disciplina de Pesquisa em Design: pesquisar sobre o Mercado Municipal de Joinville (MMJ). Fundado em 1906, o mercado é localizado na área central da cidade e sua característica mais forte é a arquitetura tipicamente germânica e a peixaria, conhecida por sua variedade de frutos do mar. Ao longo do tempo o mercado passou por diferentes fases, boas e ruins, e hoje se encontra em um momento de (tentativa de) reestruturação.

O nosso primeiro passo foi dedicar uma noite de sexta-feira (19h às 22h) para observar o ambiente: estrutura, serviço e público. Rapidamente, pontuarei o resumo de cada um desses aspectos. A estrutura estava muito semelhante ao que (quase sempre) foi. O estacionamento é escasso e pouco iluminado, passando bastante insegurança. A fonte que era atração já não existe mais (mas confesso que só notei depois que me avisaram). A ocupação do local acontece em sua grande maioria na área externa, em um ambiente bonito, porém um pouco escuro embaixo das árvores e sem cobertura. O banheiro fica na área interna do mercado e é surpreendentemente limpo (ao menos nesse dia). O serviço limita-se a três bares/restaurantes com alimentação variada e ampla variedade de cervejas. Os pratos que fazem sucesso são as porções (em especial as com frutos do mar) e os lanches. Durante a noite transitamos pelo ambiente ficando um pouco em cada local e o atendimento não impressiona (e, em uma das vezes, decepciona).
Agora, vamos à parte favorita: as pessoas.
A movimentação não é extensa, mas vai aumentando ao longo da noite. Há uma dupla tocando MPB e parece já ser familiar do público. Os grupos são variados e em sua grande maioria consomem cerveja de garrafa (aquelas comerciais, não as artesanais que também são oferecidas pelos restaurantes). Curiosamente essa é uma das opções com melhor custo x benefício. Logo no início da noite são raras as mesas consumindo alimentação (uma exceção se destaca: dois colegas de trabalho comendo um lanche em local afastado do som e cada um bem imerso nos seus próprios pensamentos). Com o tempo, as porções começam a fazer sucesso e os grupos vão aumentando, incluindo algumas famílias com criança (ainda assim, a maioria das mesas segue sendo exclusivamente feminina). Todos parecem confortáveis com o ambiente e sem pressa para ir embora. Surpreende o número de fumantes (com certeza por ser uma opção de restaurante ao ar livre) e a fumaça dos cigarros por vezes incomoda. Além do cigarro, os celulares distraem a atenção e por vezes deixam batata-frita amolecer na mesa. Fui checar e o wi-fi era livre e estava funcionando! Um fato interessante é que nesse período havia três cadeirantes circulando pelo local. Apesar de ser um número baixo, está acima da média de outros ambientes noturnos da cidade. Analisando, o local é amplo, plano e as mesas de plástico/madeira são móveis e permitem ajustar o layout conforme necessidade. Assim, esse é um ponto positivo para a acessibilidade do ambiente. Para finalizar a fase de observação, fica difícil definir classes sociais. Olhando de fora, todos parecem igualmente bem acomodados e satisfeitos.
Após esse dia de observações os dados foram sintetizados visualmente e levados para uma roda de conversa com o proprietário de um dos restaurantes do local, o Valmir Santiago, ex-síndico do mercado e Stammhaus Café. A conversa foi produtiva e esclarecedora, trazendo a tona dados que apenas a observação não foi capaz de nos fornecer. Descobrimos que o fim do mês não costuma abalar o ticket médio das mesas (isso pode ser por conta de muitas empresas pagarem um antecipado do salário próximo ao dia 20). O que mais influencia no valor consumido é a música que está tocando, sendo o rock a trilha sonora mais lucrativa. A casa, que abre todos os dias, oferece música ao vivo de quarta a sábado e também buffet de almoço (opção com baixo ticket médio mas que garante o movimento durante a semana). Outro dado interessante foi em relação a complexidade de administrar o mercado, sendo este um órgão municipal. O principal desafio é também uma das principais falhas: a comunicação e divulgação dos eventos. Somente a prefeitura tem permissão para administrar e postar na página do Facebook do mercado, que por conta disso acaba ficando parado e sem atualizações. Para descobrir a programação, o cidadão deve entrar em contato com os restaurantes.
Após este encontro, foram feitas mais duas visitas ao mercado. Uma delas em dia de evento. Contextualizando: em parcerias estabelecidas com veículos de comunicação e demais órgãos, o mercado é sede de alguns eventos da cidade como datas comemorativas, festival de cucas, encontro de food trucks, entre outros. Essa foi uma das ações que desde 2014 vem retomando o movimento do mercado. No dia, estava acontecendo a comemoração ao dia mundial do rock e os efeitos eram óbvios: aumentavam as opções de consumo (com barraquinhas de cerveja e hambúrguer) e o público tornava-se mais específico.
A outra visita ocorreu em um sábado próximo ao horário de almoço. Dessa vez encontramos um mercado diferente: com a área externa igualmente movimentada, mas a interna dessa vez estava em pleno funcionamento. Algumas senhoras faziam compras de verduras, poucos homens estavam na barbearia e o maior grupo se concentrava na espera da peixaria (sendo esse o maior atrativo do local desde sua fundação). Além disso, havia loja de produtos naturais, uma de artesanato e produtos locais que surpreendeu pela qualidade dos produtos e a barraquinha de acarajé na área externa que tem ótima fama na região. O maior empecilho do dia foi estacionamento mal sinalizado e a necessidade de deixar o alerta do carro ligado.
Por fim, para validar alguns dados, foi aplicado um questionário com 70 cidadãos. A maioria deles tinha entre 18 e 30 anos e 75% informou que raramente frequenta o mercado e identifica como os maiores atrativos a música, os eventos e o espaço ao ar livre. Quando questionados em relação ao conforto, higiene e segurança a maioria classificou sua satisfação como “regular”, sendo o quesito higiene o com maior reclamações (39 pessoas indicaram a satisfação como “ruim”). No espaço aberto para apontar os aspectos que poderiam ser melhorados, as seguintes palavras se destacaram:

Considerações finais
Os mercados municipais são comumente associados a um lugar que carrega em si as principais características de sua cidade. “Para conhecer uma cidade, vá ao seu mercadão” eles dizem. É também um elo importante entre passado e futuro, carregado de simbolismos e memórias afetivas é responsável por manter tradições e ainda assim se reinventar ao longo dos anos.
Como dito, o MMJ já viveu diferentes fases e hoje busca atender a novas demandas oferecendo um ambiente versátil que pode atende diferentes perfis e necessidades da população. Como o próprio mercado se descreve: a praça mais democrática da cidade.
Essa pesquisa foi meu primeiro contato com o MMJ após longos anos. Até então eu só o frequentava em eventos específicos. Encontrei um mercado um pouco escuro e com pontos a serem melhorados, mas também vi cardápios mais variados do que imaginava, uma movimentação interessante, música ao vivo e até descobri uma loja nova. Em sua maioria, os pedidos da população é pode mais variedade de opções (pois realmente o nosso mercado é pequeno e com muitos boxes não ocupados), melhoria da higiene (segundo o Valmir a empresa responsável pelo banheiro foi modificada e melhorou muito, mas alguns ainda se incomodam o cheiro da peixaria — sendo este um fator difícil de ser administrado). Outras reclamações envolvem o estacionamento, conforto da área externa e segurança. Dentre todas, destaca-se o pedido por mais divulgação. Para entender, vou transcrever dois dos comentários:
“O mercado poderia ter música ao vivo nos fins de semana e fins tarde. Poderia ter mais opções de cervejas e comidas. E precisa ter mais divulgação dessas opções, sobretudo em redes sociais. Gosto do lugar, mas não é um lugar que costume ir pq não acho que tenha muitos atrativos além dos eventos esporádicos que ocorrem.”
“Melhoraria a higiene, a qualidade do som e manteria um padrão de música, por exemplo, faria a quinta do rock, a sexta do samba, o sábado do MPB e em cada dia desses um prato específico: samba com feijoada, rock com petiscos, MPB com comida de boteco.”
O interessante é que algumas sugestões citadas, como música ao vivo, variedade de cervejas (que inclusive é uma das maiores da cidade) e dias específicos para cada tipo de música (incluindo o sábado com feijoada) já existem no mercado, porém não são de conhecimento do grande público. E o fator que mais impacta nesse conflito entre o que o local entrega e como ele é percebido é a ausência do mercado nas mídias sociais. Já que a maioria acaba frequentando o MMJ em dia de evento pois nesse caso a divulgação é feita por seus patrocinadores.
Assim, percebemos que o Mercado Municipal de Joinville vem passando por atualizações interessantes que cativam seu público mais fiel mas ainda não convence a maior parte da população, que mantém em seu imaginário a imagem antiga do mercado ou o retrato dos dias de evento (que não representam como o local realmente é no dia-a-dia). Espero que o MMJ siga se aprimorando e possa em breve ampliar os serviços oferecidos e alinhar os valores que são entregues aos valores percebidos pela população.
Iohana Pereira
