Sexta-feira, 19h37. Mercado Municipal.
Chegava no mercado esse o horário que chegava ao municipal. Soa bonito chamar desse jeito, né? Municipal,… ao se referir ao mercado público de Joinville. É triste que não seja um hábito, mais triste ainda que alguns esqueçam uma construção tão imponente.

O geometrismo que se forma devido ao contraste entre o escuro das toras marrons e as paredes brancas (ou nem tanto) em suas paredes paredes às margens do cachoeira, hoje, retrata o contraste presente no dia-a-dia do joinvilense, que muito trabalha e pouco vê. Quantos conhecem? Quantos sabem da sua história? Do que acontece? Quantos lembram o nome daquela praça? Hercílio Luz. Não seria a ponte de Floripa? Não, é a praça, da nossa cidade, do nosso mercado e a gente nem sabe.
A proposta era analisar o comportamento dos que frequentavam aquele local. Nos reunimos nos grupos de sempre, cada um com sua mesa, a bebida de sua preferência e assim seguimos: observando. Curioso foi observar que esse comportamento se repetia, não apenas entre os outros que faziam pesquisa de campo, mas entre os observados. A música era o que dava vida a praça, fazendo com que o som distraísse quem por ali pudesse passar. Palmas agradeciam os músicos, mas a verdade é que entre as mesas não aconteciam muitos diálogos. Talvez pelo horário, talvez pelas pessoas, mas pareciam que todos estavam bem cansados e só pensando em não pensar em nada a aproveitar aquele momento. As mesas eram nitidamente diferenciadas pelo perfil: famílias comiam algum tipo de lanche acompanhado de um refrigerante apara as crianças, enquanto as outras mesas acabavam sendo fartas de cervejas e alguma porção. Além disso, nitidamente segmentada entre um grupo de homens, outro de mulheres, fumantes e não fumantes, e claro, algumas cenas de romance. Uma bela cena de filme daria: o enorme Flamboyant, rodeado por pessoas e iluminadas pela luz em tons de verde empondera, dá segurança e aconchego aos que sob ele se acomodam. O que antes se apresentava como principal ponto encontro para compras, talvez de nossos avós, hoje se mostra como refúgio para os mais tradicionais (ou nem tanto) ou talvez para aqueles que procurem experiências diferentes das apresentadas pelos pubs da cidades — como foi relatado por Santhiago, síndico do mercado em 2016.

Todas as semanas, de quarta-feira a sábado, a praça Hercílio Luz vira palavras palco para músicos da região. Confirmando seu posicionamento de ambiente democrático, a programação do mercado varia desde samba de raiz até o rock regional, trazendo ao joinvilense possibilidades de interagir com diversos gêneros e contextos musicais. Tive a oportunidade, junto com os demais colegas de turma, de participar de uma roda de conversa com Valmir Santhiago, onde foi possível realizar um melhor entendimento da história e de todo o dia a dia do mercado. Embora Valmir não represente mais como síndico do mercado, sua família ajudou a construir o que hoje conhecemos naquele local. Boxistas desde 1986, a família de Santhiago iniciou no comercio de verduras, afastando-o do desejo de tocar algo dentro do mercado. Após anos fora do Brasil, em seu retorno percebeu a oportunidade que ali estava e resolveu investir na abertura de um estabelecimento alimentício e cervejeiro. O boxista conseguiu compartilhar os diversos entraves que acontecem na gestão do mercado e a dificuldade que se tem em manter a rotatividade de clientes diante da dificuldade de veicular informações sobre o mercado nas redes sociais. Hoje, o mercado funciona com 11 estabelecimentos ativos e alguns boxes vazios por fatores políticos e burocracias geradas. Porém, atualmente o mercado mudou sua estética, tendo uma relação com o joinvilense está muito mais voltada para eventos e se colocando constantemente como o local mais democrático da cidade — será?
Qualquer cidade que viemos a conhecer, sabemos que o mercado público representa e vende muito dos comportamentos que naquele local acontece, podendo ser considerado como a alma da cidade. Ao comparar o Mercado Municipal de Joinville aos grandes mercados de cidades próximas, percebe-se que ele apresenta uma característica muito própria. Curitiba, marcado pela venda de consumíveis para lares, Florianópolis, marcado pelos happy hours, mas é Joinville? Talvez seja uma das perguntas mais difíceis de responder. O fato é que ali ele está e dele podemos e devemos usufruir. Por que no final das contas, onde mais faria sentido comer um rollmops? Gostaria que fosse um hábito.
ALVES, Diana.
|| 2017
