Resenha da peça Eu de Você

Olhe para o lago

pedro a duArte
Nov 2 · 5 min read
Cena da peça

Eu de você é a primeira peça solo interpretada pela atriz Denise Fraga. O texto é inédito: ele foi construído a partir de relatos selecionados após uma chamada feita no jornal e nas redes sociais — as histórias, contadas por pessoas de diversos cantos do país, foram selecionadas e organizadas dramaturgicamente por uma equipe de roteiristas, sendo que o texto final foi redigido por Rafael Gomes, Luiz Villaça (que também assina a direção) e pela própria atriz. Através de uma execução impecável deste artifício, o monólogo se coloca como uma das melhores obras do Teatro Contemporâneo produzidas atualmente.

Segundo o crítico e curador de Arte, Nicolas Bourriaud, em seu ensaio A Forma Relacional, a Arte Contemporânea cria modelos de sociabilidade (um “domínio de trocas”, uma situação de relações) mostrando para a sociedade novas formas de relacionamento, novas formas de vivência. Ele afirma que “a Arte é um estado de encontro fortuito” entre duas pessoas, entre uma pessoa e um objeto (artístico). “Uma forma de arte cujo substrato é dado pela intersubjetividade e tem como tema central o estar-juntos, o ‘encontro’ entre observador e quadro, a elaboração coletiva de sentido”. É isto que ele chama de forma relacional: quando a Arte Contemporânea pega essas possibilidades de encontros fortuitos e torna-os permanentes (o que o artista faz é dar forma para aquilo, no sentido de preservar). Ele diz que “a essência da prática artística residiria, assim, na invenção de relações entre sujeitos; cada obra de arte particular seria a proposta de habitar um mundo em comum […]”.

Quando Denise se coloca como mensageira de outras pessoas, o que ela faz é promover um encontro entre o público e as pessoas que nos emprestaram suas histórias. Temos acesso às dores e a alegrias de pessoas que, em outros contextos, jamais seriam ouvidas: seja uma mulher presa em uma rotina estafante, um psicanalista profundamente movido por algo que sua paciente disse, um homem homoafetivo, uma mulher negra ou mesmo uma professora aposentada que reencontra um ex-aluno anos depois.

Ela potencializa este encontro de maneira brilhante ao também se colocar enquanto artista, contando a história de seu pai (um homem que ama cantar) ou mesmo sua mãe (uma exímia nadadora). Desde que atuou em A Alma Boa de Setsuan, as peças de Denise começam com o elenco recebendo o público na entrada da sala de espetáculo — em Eu de você, ela leva este contato à última potência ao, além de conversar com o público na entrada, fazer cenas inteiras na plateia, pedindo para membros do público lerem uma das cartas enviadas ou mesmo a participarem das cenas. O cenário, extremamente minimalista, fecha as entradas das coxias fazendo com que a atriz precise passar o tempo inteiro no palco e com o público, obrigando-a a começar e encerrar o espetáculo na plateia.

Ao fazer isto, a artista é tirada de um pedestal e colocada de igual para igual com o público: através do olho no olho, Denise apela para nossa cumplicidade. Em determinado momento da peça, diz:

“Eu confio no Teatro. Olha nós aqui nesse pacto de foco comum. Se alguém aqui ainda duvida, não acredita que estamos interligados, vai sair daqui essa noite com a certeza de que, pelo menos, uma coisa nos une: essa noite. Essa noite de silêncio compartilhado. Eu confio no Teatro. Eu confio no Teatro!”

É desta maneira que Denise dá forma ao nosso encontro fortuito: ao negociar com o seu papel de intérprete (uma mensageira), ao mesmo tempo que não abre mão de ser ela mesma, ela põe em evidência a característica mais potente das artes dramáticas: sua capacidade de gerar empatia. Não é possível não se encantar com as pessoas maravilhosas que estão em cena (através de suas histórias) ao lado da atriz. Constantemente nos é pedido para que olhemos para o lado e prestemos atenção no que o outro tem a dizer. Como diz o personagem do psicanalista na peça:

“Se cada um de nós ouvisse dentro de si o que o companheiro de experiência (ela, eu), o que a gente reverberava um no outro por conta da força daquele imprevisto. O silêncio! Uma experiência…”

Através de sua técnica de atuação primorosa, que lhe garantiu um lugar como uma das maiores atrizes do teatro brasileiro, Denise apela pela nossa empatia: a peça firma todas as histórias nos pilares do Amor (que todo mundo deveria ter). Eu de você nos propõe uma nova maneira de viver, de se relacionar: basta que a gente,honestamente, preste atenção no outro.

Borriaud, em seu ensaio, admite que a obra de Arte não é capaz de mudar o mundo, afinal não é capaz de atingir a todos (seja por estar presente em um único lugar, às vezes, por um período determinado de tempo, seja porque nem todos irão compreendê-la) — esse é o dilema da micropolítica. Assim, A Arte Contemporânea não se propõe a ter alcance universal e, sim, trabalhar dentro de onde o artista é capaz de atingir (dentro de sua alçada). Mas é possível que a experiência proposta pelo artista cause um impacto positivo no espectador: a Arte não é capaz de mudar o mundo, mas é capaz de mudar (a noite de) outra pessoa.

Ou, como proposto por um dos personagens da peça: “Não é uma cura, nunca seria. Mas é uma alegria!”.

BIBLIOGRAFIA

BOURRIAUD, Nicolas. A Forma Relacional. In: Estética Relacional. São Paulo: Martins Fontes, 2008. p. 15 a 33.

Poster da peça

SERVIÇO

Eu de Você — Teatro Vivo

Sexta às 20h, Sábado às 21h e Domingo às 19h

Ingresso: R$50,00 (inteira) — disponíveis na bilheteria do teatro ou no site: https://bileto.sympla.com.br/event/62232/d/71522/s/371112

Temporada: Até 15 de dezembro

Gênero: Monólogo, Teatro Documentário, Verbatim / Classificação:12 anos

A peça conta com audiodescrição (os espectadores que tenham a necessidade do recurso de Audiodescrição precisam entrar em contato com a bilheteria do teatro para orientação) e tradução em Libras (a venda de ingressos para clientes que tenham a necessidade do recurso de tradução em Libras será feita exclusivamente na bilheteria do Teatro).

pedro a duArte

Written by

Estudante de Cinema, amante de Teatro // Ai, palavras, ai, palavras, que estranha potencia a vossa! Todo o sentido da vida principia a vossa porta (C. Meireles)

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