Querido Adolescente de 14 anos, o Sexo Não é um Direito Seu

Uma carta ao meu eu mais novo

A Sex ed [Educação Sexual] precisa de uma renovação. Se você pudesse escrever uma carta para você mesmo quando adolescente, explicando o que você gostaria de ter conhecido sobre sexo na época, o que você diria?


Embora possa não parecer, haverá um tempo, distante de agora. Um tempo em que, apesar de não ter crescido um centímetro em anos, e apesar de ainda ter esse gosto por música pop dos anos 80 e seus preceitos sobre moda, alguém vai querer fazer sexo com você. Alguém vai querer estar no ponto de chegada de toda a desinformação que você recolheu durante anos de “educação sexual”, e pela exploração da internet.

Ilustração de Skip Sterling

Neste momento, eu sei que você conhece a perda apenas como algo severo e profundamente destrutivo. No verão, você foi dormir e tinha uma mãe, e acordou em um local frio e vazio, um funeral sendo planejado na sala de estar. Nos próximos anos, você vai conhecer a perda em muitos meios mais triviais. Você perderá chaves, dinheiro, dois celulares em um fim de semana, e inumeráveis jogos de futebol. Você vai chorar a perda de coisas que não retornarão. Você vai perder coisas tão aproveitadas que não vai sentir falta.

Mas você saberá que sempre vai haver mais para encontrar e mais para perder. Entre essas últimas está a forma como os meninos são educados para se tornarem homem e permanecerem assim. Para se tornar o corpo que consome e nunca o corpo que é consumido. Tudo está disponível até que nada mais possa ser tomado. Quando você eventualmente transar com uma garota, e então escapar da casa dela enquanto ela dorme, durante a manhã — incorporando um clichê de filme adolescente — , você não se arrependerá. Você não vai sentir vergonha porque ninguém exige isso de você. Você tem amigos, ávidos para viver outra história de outro garoto viajando para a Terra Prometida, sem se preocupar com o que ou quem o leva até lá.

Tudo o que você aprende sobre pureza é um mito. É um mito injusto, contado para um propósito muito específico, por razões muito específicas. Quando você gastar um ano inteiro dizendo às garotas do time de basquete que elas "não são garotas de verdade", isso será por causa desse mito. Anos mais tarde, quando um amigo fizer a piada "garotas não deveriam usar o banheiro", e você rir, será por causa desse mito. Você vai ter de desaprender o mito do corpo puro tão rápido quanto possível. Você não pode perpetuar esse mito. Você não pode cair na gandaia todas as noites e então acordar de manhã e se dizer mais puro do que qualquer coisa que você já tocou.

Você vive em uma época na qual não há culpa pelo que você faz à noite. Você vive nessa época agora, e você sempre viverá. Sempre haverá um grupo de homens que fingem não sentir vergonha por tudo o que fazem para quem não é um homem. O que demorará muito para você perceber é como é fácil projetar cada pedacinho de vergonha e ansiedade que você sente sobre você, o seu corpo e sua dificuldade de amar sobre alguém que tenta te amar. Meninos frágeis crescem e se tornam homens frágeis. O que não te ensinam em nenhuma aula de "educação sexual" é a violência que surge em um homem que não consegue algo de uma mulher que ele sente ser sua por direito. Sim, é verdade, pode ser que você nunca seja esse cara em um nível físico, mas você sempre vai se beneficiar dos sistemas e das histórias que esses homens organizam.

Isso tudo começa com o valor que é colocado sobre os corpos de meninas e mulheres, mesmo agora, quando você tem 14 e está na escola aprendendo tudo que há para saber sobre sexo. Quando um homem dá a você a sua aula de educação sexual, a perda da virgindade será tratada como inevitável; algo que com certeza acontecerá, antes cedo do que tarde. Haverá uma conversa sobre sexo, o que fazer e o que não fazer, como por uma camisinha. A você será apresentado um mundo novo e excitante, quase como se você estivesse recebendo um folheto sobre uma emocionante viagem avistada no horizonte. É quase como se o sexo (com uma mulher, claro) fosse seu direito de nascença. Algo que é seu direito, simplesmente, por existir como um garoto ou um homem na América.

Um dia, você vai se lembrar do burburinho dos jovens garotos animados enfraqueceu um pouco quando as garotas retornaram à sala de aula depois de terem ouvido uma aula sobre virgindade, dada também por um homem. Você vai lembrar do silêncio delas, como algumas estavam vermelhas, muitas olhando para os sapatos. Muitas fitavam qualquer coisa menos os olhos dos meninos a quem havia sido prometido o mundo, às custas delas.

É assim que começa. Alguém de quem você gosta no colégio vai dormir com alguém do time de futebol e você se convencerá de que ela "não vale a pena".

Aos 21, um cara que você conhece vai transar com duas pessoas na mesma festa, e vocês vão rir a respeito disso no café da manhã do dia seguinte.

Aos 23, uma mulher no seu condomínio caminha da porta de casa até o seu carro e os homens na rua gritam algo sobre as suas pernas, e lhes dizem o que fariam com ela.

Aos 26, você vai concluir que nunca recebeu nenhuma atenção indesejada em qualquer rua em que estivesse.

"Patriarcado" é uma palavra que você não entende ainda, mas é um sistema em que você já está profundamente imerso. O problema com o patriarcado, como todos os sistemas de opressão, é que ele não machuca apenas o grupo de pessoas que oprime. Claro, o patriarcado impacta qualquer um com mais severidade do que impacta homens hetero, cisgênero. Mas ele também vai ferir você. Também vai limitar a sua imaginação, o tipo de bondade ao qual você vai se permitir. Vai restringir a sua habilidade de amar e ser amado por muito tempo, tempo demais.

Aos 30, você vai olhar para trás e perceber todas as oportunidades perdidas de desmontar e contra-atacar um sistema que ainda lhe diz que você só pode ser uma coisa, uma máquina que ama mulheres em silêncio e que magoa mulheres com estardalhaço. O passado, neste sentido, será um fardo saudável. As coisas que você carrega consigo em cada novo relacionamento, as coisas de que se lembra quando luta por outras pessoas que não sejam você mesmo, as coisas que te lembram de sentar, escutar e se apropriar de menos e menos do espaço que lhe foi concedido.

O verdadeiro dano começa agora, com 14 anos na aula de educação sexual. Começa quando você aprende que o sexo é, a cada vez que você consegue, um novo troféu a ser exibido. E que o sexo que as mulheres fazem é algo a ser silenciado e do qual nunca se fala. Começa quando você pede por ensino e lhe dão camisinhas. Quando você é ensinado, como menino, que o corpo de uma menina é um recipiente dentro do qual você descansa enquanto ele lhe transporta para a idade adulta.

É uma pena que eles nunca vão lhe ensinar como ficar sozinho. Como amar uma mulher por outro motivo que não o sexo. Como ser honesto sobre esse amor. Como apenas curtir ficar com alguém por um tempo e não mentir sobre isso quando os seus colegas perguntarem. Mas você tem sorte. Você vai aprender o bastante sobre isso por sua própria conta, eventualmente. Tarde demais, tarde demais de verdade, mas ainda cedo o bastante para contra-atacar. Para ser outra coisa além de um garoto que sai, furtivo, de um apartamento e cumprimenta outros garotos que fazem o mesmo.

Aos 30, será difícil se lembrar que você merece o amor de todas as mulheres inteligentes, encorajadoras e incansavelmente poderosas na sua vida. Aquelas que vão sempre exigir que você seja melhor, mais consciente. É impossível não errar alguma coisa. É totalmente possível ser amado por mulheres que se importam com você o bastante para garantir que você vai ser responsabilizado por ter errado, e para incentivá-lo a fazer melhor.

O que eu quero que você saiba é que nada disso vai te salvar. Você nunca vai deixar de viver em uma sociedade que atende a todas as suas necessidades e desejos, e poucas coisas são mais viciantes do que saber disso. Mas não é o suficiente saber o que está errado. Não é o suficiente meramente observar como uma mulher é chamada de "puta" na internet, nem mesmo é o bastante dizer "isso não é legal".

Você tem de desmontar tudo o que dá poder à falsa pureza. Pegue todo sistema que coloque os seus desejos acima da humanidade dos outros e comece a pô-lo abaixo. Abra espaço para as vozes dos que sofrem por causa de qualquer sistema do qual você percebe que é cúmplice.

Você não pode definir o corpo de ninguém mais alto do que eles mesmos.

Você não pode apenas ficar olhando enquanto o corpo de alguém é definido sem que essa pessoa tenha voz.

Derrubar essa torre também começa agora, quando um homem fala sobre o sexo como se fosse um presente. Começa com você, levantando a sua mão. Começa com você, tendo algo a dizer.

Um abraço,
Hanif

[Tradução de Duanne Ribeiro]

Clique no botão "Responses" abaixo para escrever uma carta ao seu eu mais jovem. Tagueie com "LetsTalkAboutSexEd". Para saber mais sobre por que pensamos que esta é uma conversa importante e o que a Bright espera que seja desenvolvido por meio dessa iniciativa, leia isto.

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