O que ninguém me contou sobre estar livre da depressão
2010. Minha primeira crise. Acho tragicamente engraçado a forma como a minha mente apagou boa parte do que aconteceu. Não lembro dos fatos, mas lembro do sentimento. Aquela tristeza e aquele vazio que se tornaram tão familiares. Mais familiares até do que a própria família. Me acostumei tanto a me sentir “um nada” que esqueci o conceito de normalidade.
Foram sete anos. 84 meses de diferentes diagnósticos que atestavam a mesma falta de sanidade. 2555 dias entre idas e voltas da psiquiatra, trocas de remédio, melhoras, recaídas, choros. 61320 horas sonhando com a ideia, às vezes tão utópica, do fim da prisão química que sustentava minha frágil liberdade.
E aí… o dia chegou. A Duda de 14 anos jamais imaginou viver tempo o suficiente pra ver uma Duda de 21 sair do consultório psiquiátrico sem nenhuma prescrição. “Você já está bem o suficiente para parar com os remédios”. A frase que esperei tanto tempo para ouvir.
A primeira sensação foi medo. “Será que estou bem mesmo? E se eu não estiver? E se eu estiver, mas for só por causa de todos aqueles comprimidos?”. Eu, sempre tão ruim em esconder o que sinto e penso, devo ter transparecido toda a minha insegurança para a médica que fez questão de me assegurar que me acompanharia durante todo o processo e que estaria a uma ligação de distância de me ajudar caso eu precisasse. Me permiti respirar fundo e curtir a sensação pela qual tanto ansiei.
Sabe, havia um certo conforto em saber que boa parte da minha personalidade e dos meus sentimentos eram fruto da minha química cerebral fodida. Mas e quando são duas horas da manhã e você embala seu próprio sono com o som de suas lágrimas por causa de um dia de bosta? E aí? Ninguém me contou que seria tão difícil distinguir a tristeza normal da depressão.
A ansiedade, a raiva e a frustração também são partes essenciais desta equação tão confusa que paira entre a sanidade e a doença. Na verdade, pra ser sincera, nem a felicidade escapa do medo que sinto. Aumento o som do carro quando toca aquela música que tanto gosto e penso “caralho, eu acho que realmente estou feliz com quem eu sou”. Mas e se for só mais um dos dias “bons” da bipolaridade?
O mais difícil de deixar para trás um transtorno psiquiátrico é nunca ter certeza se você de fato o deixou. Os dias que passei doente foram tão sombrios que criaram em mim a falsa ideia de que não existiriam dias ruins depois que (e se) eu me curasse. No meio de toda essa dúvida que veio como preço desta liberdade condicionada, só me resta repetir como um mantra “eu estou bem”.
