Já era meio tarde da noite, cedo da manhã e eu andava com meus fones de ouvido ao lado de alguém que eu brevemente conhecia. Pensei em conversar com ela, mas ela estava tão entretida na música quanto eu fingia estar. Seja lá qual fosse a música. Estávamos ambos bêbados de vodka barata e rumávamos a algum lugar onde poderíamos comprar algo para comer.
Olhei para a garota que andava ao meu lado, parecia ter a mesma idade que eu e usava meia calça colorida com botas prateadas, que andavam meio cambaleando. Ou talvez dançando. O cabelo ondulado era comprido e escuro, repartido ao meio perfeitamente. Era tão perfeitamente repartido que dava satisfação de olhar.
Ela puxou meus fones para chamar minha atenção e apontou para uma loja de conveniências vinte e quatro horas de um posto de gasolina. Andamos até lá. Compramos sanduíches secos e vinho barato pra acompanhar, e sentamos numa mesinha alta lá dentro.
- Eu não lembro seu nome — eu disse, parecendo estúpido, enquanto limpava uma mancha de mostarda da minha calça.
Ela riu e deu de ombros.
- Isso me parece bem razoável. Aliás, eu nem falei qual era mesmo — disse, passando a língua pelos dentes para retirar os restos de pão.
Continuei bebendo meu vinho barato em meu copo de plástico, dando mordidas no meu sanduíche, puto por ter sujado aquela calça. Ainda poderia usá-la várias vezes, mas agora havia uma grande mancha amarela na coxa. Amarela igual o vestido da garota na minha frente. Lembrei que ela estava lá.
Ela poderia ser famosa. Era essa minha teoria. De que ela era famosa, por isso se vestia colorido e não falava seu nome. Uma cantora talvez. E se a voz dela cantando fosse tão bonita quanto falando, então definitivamente era isso. Perguntei isso pra ela, citando a roupa esquisita. Ela riu.
- Eu trabalho numa loja de ferramentas. Nada muito interessante, na verdade.
- Eu não trabalho com nada, consigo ser pior — eu disse, e ela concordou com a cabeça.
- Eu acho — disse ela, se inclinando sobre a mesa e diminuindo a voz para um sussurro — que deveríamos tentar roubar essa loja.
Enquanto olhava ao redor e sorria para a moça do caixa, pegou na minha mão. Eu na verdade não sabia se ela falava a verdade ou não. Poderia ser. Poderia estar brincando. Mas eu apertei a mão dela e disse que tudo bem, era isso que faríamos.
- Bosta. Nesse momento seria conveniente ter uma bolsa. Bem, eu preciso do seu casaco, de qualquer forma, e esqueci o meu naquela casa. E também da sua carteira, assim eu pago a nossa conta, enquanto você pega as coisas, tudo bem? Quer dizer, tem dinheiro aqui? Também precisamos achar um táxi depois pra fugir rápido.
Isso parecia não funcionar, na verdade não fazia muito sentido, mas eu bebi mais um gole do vinho e ela falava como se tudo fosse dar certo. Passei a carteira e a jaqueta para ela.
Então, lá foi ela, pagar a conta, e eu comecei a circular pela loja. Peguei diversas coisas, mesmo que não tivesse nada muito especial. Alguma garrafa de bebida, um pacote de batatas, parecia divertida a ideia de roubar qualquer coisa com aquela garota bonita. Então eu vi a moça do caixa vindo correndo atrás de mim, gritando que ela sabia minhas intenções, enquanto a garota do vestido amarelo mexia no caixa, pegando alguma quantidade de dinheiro, um pacote de chicletes e saiu correndo.
O alarme disparou, e eu saí correndo também. Logo ouvi meio perto o som de sirenes, mas continuei correndo.
Procurei pelos fones e pelo celular, um pouco de música para me situar, mas ambos estavam nos bolsos da jaqueta. Então continuei correndo, rindo, ofegante. As sirenes, meus passos, risos e respirações eram a melhor música para aquela noite.
