Vantagens de uma memória ruim

Time to Dance — The Shoes

— Quem faz esse clipe é aquele ator…aquele, que faz aquele filme…arg, esqueci, deixa eu procurar aqui.

Foi coisa rápida. Primeiro, fugiram os nomes. Depois, as palavras do léxico debandaram. Pouco a pouco, virou uma labuta diária não saber me referir a amigos, álbuns, filmes, comidas e verbos de ações corriqueiras. Me tornei só sensação, sentimento e expressão.

Lembra daquele dia? Não, não lembro. Quais foram os diálogos, os amigos que estavam com a gente, as loucuras que sucederam? Ao fim, só guardei o frescor que senti na alma e uns relances do seu sorriso ao encostar a cabeça no meu colo.

Memórias de infância vêm das fotos. Até os meus 5 anos, a câmera analógica dava conta de registrar todos os meus primeiros passos. Depois, a roubaram. Irrecuperável, agora, o lapso de registros até o dia que meu pai chegou em casa com uma câmera digital barata, quando eu já tinha meus 14 anos.

Lembro da juba de leão que era o meu cabelo até os 9 ou 10 anos. Depois, me ajeitei e toquei bumbo e prato na banda marcial da escola até meus 12. Virei mocinha, beijei alguns moleques, mas não sei quais, nem quantos.

Reuni certificados de cursos e concursos, estudei para o vestibular e cá estou. Sem lembrar das aulas de química, sem saber subtrair, nem localizar a Revolução Francesa na história da humanidade. Sem olhar para o céu para lembrar que existem outros planetas, estrelas e galáxias para além do meu interior.

Agora faço quase 20 anos e esse processo de esquecer tudo se tornou mais escrachado. A confusão das recordações que me tornaram quem eu sou incomoda, mas sobrevivo. Não há, na verdade, vantagens em se ter uma memória ruim.

Talvez isso me faça mais leve. Não guardo mágoas nem momentos ruins na memória. Se eu lembrasse, talvez viveria em parafuso. Também não me apego demais às coisas boas e me liberto da nostalgia. Minha personalidade tem bases frágeis também, o que torna processos de mudança mais tragáveis.

Toda manhã, quando acordo, levo uns minutos para tomar consciência de mim e do espaço que ocupo, dos problemas do dia anterior e das tarefas do dia que tenho pela frente. Sou feliz nesses minutos, enquanto não sinto o peso do mundo.

Já cheguei a fazer cartinhas para mim mesma antes de dormir, a fim de agilizar esse processo. Hoje sei que a situação não é tão grave assim. Mesmo acordando sem reconhecer a pessoa do meu lado, meu namorado não precisa ser nenhum Adam Sandler em Como se fosse a primeira vez.

Aliás, lembrei. O ator do clipe de Time to Dance é o Jake Gyllenhaal, ele fez um monte de filmes maravilhosos, mas as pessoas ainda lembram dele pelo Donnie Darko.

Enfim.