Por que eu escolhi trabalhar com adolescentes.

Não é de hoje que a adolescência é uma fase confusa, para maioria dos adultos e até pra eles mesmos, os adolescentes. Lidamos com essas questões há tempos, ou seja, nada necessariamente de extraordinário com a geração atual, mas sim, no olhar que hoje podemos ter sobre esse momento. Os dados e pesquisas na área são recentes — datando apenas 20 anos aprox. —mas já têm clareado muitas dúvidas sobre a adolescência. Graças ao interesse de pesquisadores em entender melhor essa fase, combinado ao avanço das tecnologias, hoje sabemos que a adolescência é, primeiro de tudo, é um estado biológico geral. Ou seja, estar adolescente é principalmente uma condição fisiológica, psicológica e neurológica. Portanto, a melhor forma de começar a compreendê-los é lembrar que seu cérebro é a fonte de todas grandes mudanças e comportamentos.

Através de ressonâncias magnéticas, como a imagem ao lado que mostra a regressão da massa cinzenta no cérebro ao decorrer dos anos, e comparando as diferentes fases de vida, os neurocientistas puderam concluir que a adolescência vai além dos 19 anos, como antes era dito. Com opiniões que variam lá e cá, na média, pode-se dizer que a adolescência se inicia aos 12 anos e se encerra aos 24. Segundo a professora britânica Susan Sawyer, o que justifica essa expansão na idade é o desenvolvimento que corpo e o cérebro ainda apresentam, combinados ao delay da relação parental que gera uma “semi-dependência”, bem característica da adolescência. Ela ainda afirma: “Definições por idade são sempre arbitrárias.” É por conta dessa subjetividade na interpretação e definição dessa fase, que não algo há fixo e imutável, mas muitos cientistas também concordam que a cada geração estamos demorando mais para sair da adolescência.
Conhecida por ser a fase das primeiras vezes, das oscilações emocionais, das crises de ansiedade, de muitas escolhas e consequentemente muitas dúvidas, a adolescência tem uma fama nada cool. Gerando um discurso bastante comum entre muitos adultos, como: "adolescentes são chatos, insuportáveis", "não raciocinam direito", "não adianta conversar com ela(e), não aprende nada" e por aí vai.
Pensando dessa forma, quem é que vai se dispor a ouví-los, a conversar e trocar com eles sem julgamentos?
E hoje, somado às características que citei anteriormente, estamos presenciando a chegada de novas questões com a atual geração de adolescentes, também conhecida como a iGeneration. Eles, diferente das gerações anteriores, cresceram grudados à dupla: smartphone e mídias sociais. O que têm gerado grandes mudanças, como afirma a psicóloga norte-americana Jean Twenge:
O aumento do par: smartphone e mídias sociais, causou um terremoto de uma magnitude que não vimos em muito tempo, se alguma vez vimos. Há evidências convincentes de que os dispositivos que colocamos nas mãos dos jovens estão tendo efeitos profundos em suas vidas, e tornando-os seriamente infelizes.
Por quê eu estou te contando tudo isso? Porque foi tudo isso — e mais um pouco rs — que me inspirou a tomar a decisão de trabalhar e me especializar em adolescentes. Quando comecei a analisar essas informações, lembrei também de como foi pra mim esse período, e percebi que, assim como na minha época, eles ainda estão pouco amparados de ferramentas que os ajudem emocionalmente a passar por essa fase. Emocionalmente, pois nas áreas técnicas já há bastante conteúdo, ferramentas e gente, mas na vida real não basta apenas saber muito sobre Ciência, Matemática, Línguas e etc. Elas são pilares tão fundamentais na formação de um ser, quanto a inteligência emocional, pois Ser humano envolve, inevitavelmente, passar por frustrações, alegrias, dúvidas e etc.
Por definição, a Inteligência Emocional nos desenvolve para reconhecer e avaliar os sentimentos próprios e dos outros, assim como a capacidade de lidar com eles. E a adolescência se mostra uma fase incrível para desenvolver tal habilidade, dito pelo próprio criador dessa conceito, Daniel Goleman:
“As lições emocionais que aprendemos na infância, seja em casa ou na escola, modelam os circuitos emocionais, tornando-nos mais aptos ou inaptos nos fundamentos da inteligência emocional. Isso significa que a infância e a adolescência são ótimas oportunidades para determinar os hábitos emocionais básicos que irão governar nossas vidas.”
O desenvolvimento da Inteligência Emocional se mostrou algo tão importante e com sentido para mim, que o tornei um dos alicerces que compõe o tripé do processo que trabalho com adolescentes. Sendo os outros dois: Autoconhecimento e Prática. Formando assim, o tripé: Inteligência Emocional + Autoconhecimento + Prática.
Se a I.E. traz o conhecimento das nossas emoções e de como administrá-las, o Autoconhecimento contribui com a visão sobre si mesmo. Descobrindo — através de ferramentas, conversas e testes que aplico — seus ponto fortes, pontos a desenvolver, habilidades, sonhos e crenças, para obter uma visão mais completa de quem é você. Com todo esse conhecimento em mãos, as tomadas de decisões se tornam mais conscientes, e como toda e qualquer teoria é inútil sem aplicação, a Prática fecha o processo. De forma que a sabedoria adquirida durante cada encontro possa ser aplicada na vida real, com definição de objetivos e ações.
Eu acredito que assim podemos formar adolescentes mais conscientes de si, do seu futuro e do seu entorno, mais equilibrados, e consequentemente adultos mais responsáveis e presentes na sociedade.
