O Grandão

Foto: Genival Gonzaga, emprestada da web.

Minha vida não era muito divertida desde que meu marido morreu, faz uns dezesseis anos. Eu até queria morrer pra ficar junto com ele. Os filhos já tinham crescido, eu já não precisava mais de um homem comigo, nem de parentes.

Apesar de não ter mais o companheiro e nem muita vontade de viver, tinha tudo que precisava pra continuar viva. As peças que eu alugava na minha casa rendiam um dinheirinho que pagava a minha comida, as contas e ainda sobrava um pouco. E tinha mais a pensão do falecido, que também não era grande coisa, mas que ajudava bastante.

Quando o meu marido morreu, já estavam construindo o aeroporto. Demorou nove anos até ficar pronto. Da sacada da minha casa, acompanhei a construção de um bom pedaço dele. Não consegui ver a construção do prédio, que dizem que é lindo, mas tudo bem.

Às vezes, um filho ou um neto apareciam pra me visitar, mas, em geral, quem está comigo nestes anos todos são os meus inquilinos. Eles sabem que aqui sempre vai ter um chimarrão e, com sorte, alguma coisa pra comer. São todos pobres, mas são gente boa. Até o alcóolatra, que mora no pior quarto e vende mercadorias roubadas, é legal. Quando sobe aqui, sempre traz uma cachaça pra fazer caipirinha. Eu entro com o limão e o açúcar e ele sai, sempre, se segurando pra não cair quando desce a escada.

O bairro onde eu moro é uma vila. Uma vila enorme que agora tem vista para o aeroporto. Tudo aqui é muito organizado: a pracinha é dos traficantes, as ruas mais ou menos escuras são dos ladrões e as ruas escuras de verdade são dos estupradores. Sorte que na minha rua tem luz. Mas como eu moro aqui desde o começo da vila, comigo ninguém se mete. E todo mundo, até um sujeito que eu só descobri que era estuprador depois que foi linchado pelo pessoal da vila, acaba vindo na minha casa conversar comigo.

Não é tão ruim viver assim, mesmo sem marido e quase sem família.

Felizmente o aeroporto foi inaugurado.

No começo, eu não saía mais da sacada. Ficava olhando os aviões manobrando na pista, pousando e decolando o dia todo. Até que depois de dez dias, eu vi o grandão. O grandão foi o maior avião que eu já vi em toda a minha vida. Eram sete e meia da noite quando ele começou a andar pela pista. Às vinte pras oito ele decolou. E veio subindo, subindo, subindo até passar bem em cima da minha sacada. Minha cadeira tremeu, os vizinhos que estavam tomando chimarrão comigo se assustaram: acharam que o grandão ia cair bem em cima da gente.

Que nada, ele passou reto.

No outro dia de manhã, fui pra sacada, mas nenhum dos aviões era como o grandão. O receptador alcóolatra me disse que o grandão era um Boeing 727, mas eu prefiro chamar ele de grandão.

No mesmo horário, ele decolou de novo. Depois disso, nunca mais perdi meu tempo olhando os outros. Mas todos os dias, às sete horas, esquento a água do chimarrão e vou pra sacada. Daí, aconteça o que acontecer, não me mexo dali até o grandão levantar vôo.

Meus filhos pararam de me visitar. Disseram que eu tinha ficado louca de perder tempo todos os dias pra ver um avião. Não sei por que eles falam isso, acho que é por que eles já viajaram muitas vezes de avião.

Eu não preciso nem subir num avião. Tenho o meu amigo grandão que faz um show pra mim todos os dias. É tão lindo que às vezes eu esqueço de comer. Em outras, nem tomo banho. Mas o grandão eu nunca esqueci desde que inauguraram o aeroporto, há sete anos. Se eu pudesse, fazia um laço e puxava ele bem aqui, para o pátio da minha casa.

Hoje eu nem penso mais em morrer. Quer dizer, às vezes eu penso, sim. Mas não quero morrer dormindo como antes. Eu queria que o grandão subisse um pouquinho e começasse a descer, descer, descer até cair aqui, na sacada da minha casa. Se existe um céu, e se a gente vai pra lá quando morre, eu quero que o grandão me leve.

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