A blogosfera atual e “why we can’t have nice things.”

Sobre uma blogosfera que escreve por obrigação, procurando receita para ganhar dinheiro e com um olho no Google Analytics e outro no que o outro blog tá fazendo pra ganhar seguidores.


Eu abri meu primeiro blog em 2005. Chamava Ginny’s Place, eu usava um layout gratuito em um dos muitos blogs sobre Harry Potter que existiam na época, e demorou pelo menos um ano até que eu aprendesse a programar e fazer meus próprios layouts, que até então eram feitos pelo Fireworks, já que Photoshop era coisa de profissional, coisa que eu não era e nem pretendia.

Durante muito tempo a dinâmica do meu blog foi bem simples: eu escrevia dois ou três parágrafos sobre as coisas que tinham acontecido na minha vida até aquele momento (algumas vezes atualizações semanais, já que usar a internet durante a semana era um luxo ao qual eu não podia me dar) e então três asteriscos centralizados (***) separavam o meu “semanário” das notícias sobre o universo de Harry Potter que tinham saído naquela semana. Muitos blogs eram assim, eu fiz muitos amigos, as pessoas se importavam comigo e durante uns bons anos eu fui bem feliz assim.

Com o tempo minha habilidade de “programadora” foi evoluindo, e o interesse pelos blogs de Harry Potter foi diminuindo. Depois de 2 anos eu fechei o Ginny’s Place e abri o Promise, que era inspirado na minha música favorita da Vanessa Hudgens. O Promise ficou no ar pelo UOL de 2007 a 2010 e você ainda pode ver um pouco do que sobrou dele aqui (percebam que eu já era Lovatic). Naquela época, alguns blogs pequenos eram selecionados por blogs maiores para serem “hospedados”, assim o endereço principal de acesso era um domínio bonitinho –passei dois anos com o endereço ma-cherie.org/promise graças à fofura da Lilika.

Em 2010 eu parei de publicar no Promise –e em qualquer blog– até abrir o Pode Chamar de Duds, em 2013, e ele permanece até hoje.

Toda essa breve história do tempo para dizer que, 10 anos se passaram, e a situação dos blogs não poderia estar mais diferente. Também pudera, quando a principal mudança em 10 anos para os blogs foi justamente o acesso fácil à internet, que faz com que você possa acessar seu blog de qualquer lugar, postar de qualquer lugar e escrever o que você quiser. E, talvez, essa tenha sido a pior coisa que já aconteceu. Mas não me leve a mal.

Conteúdo

Não é preciso ir muito longe para entender o que mudou, apenas ler o segundo parágrafo da introdução desse mesmíssimo texto. Se quiser eu ponho de novo: “(…) a dinâmica do meu blog foi bem simples: eu escrevia dois ou três parágrafos sobre as coisas que tinham acontecido na minha vida até aquele momento (…) e então três asteriscos centralizados (***) separavam o meu ‘semanário’ das notícias sobre o universo de Harry Potter que tinham saído naquela semana.” E isso já diz basicamente tudo sobre as coisas que mudaram em 10 anos.

Em “The Perfect Man” (2005), a personagem da Hilary tem um blog no qual ela compartilha suas mudanças de casa, a dificuldade em se adaptar e fazer amigos, e como é difícil se apegar a um lugar apenas para ir embora. Nos comentários da sua página, os leitores da blogueira dão conselhos e apoio.

Os blogs há muito deixaram de ser o que o Ginny’s Place era, e isso foi um processo natural que aconteceu à medida que começamos a expor cada vez mais nossa vida na internet. Seria absolutamente compreensível que a necessidade de guardar o mais íntimo começasse a se fazer presente –um exemplo bem prático é a Duds de 22 anos que faz alguns posts pessoais contra a Duds de 14 anos cujo blog ainda tem um único post sobre uma decepção com uma viagem de escola. Se eu fosse escrever todas as coisas que me deixam decepcionadas hoje em dia eu estaria… bom, eu estaria escrevendo esse texto.

Durante os 2 anos em que eu venho mantendo o PCD, eu perdi a conta de quantas vezes eu larguei o que estava escrevendo pela metade e desisti de postar –desde os posts mais pessoais como quando contei sobre quando eu resolvi parar de usar sutiã, até um post mais técnico como a minha resenha de um livro ou minha experiência pessoal sobre um produto.

Isso porque, por anos da minha vida, manter um blog foi sempre uma questão de documentar o que estava acontecendo com a minha vida, fosse ela um produto ou uma entrada de diário. Não importa o quão privilegiada eu tenha sido na minha vida por poder comprar determinados produtos que estavam dentro da renda que meus pais podiam pagar e que estão dentro da renda que, agora, eu posso pagar por mim mesma. E não pense você que nesse tempo em que eu estive sem blog eu deixei de acompanhar a blogosfera. Não produzir não significa não consumir. Você não precisa produzir música para consumir música, e a lógica é a mesma.

E é por isso que tantas pessoas lêem blogs: porque elas não precisam produzir conteúdo para receber conteúdo, elas não precisam escrever num blog para ler um blog, elas não precisam expor a vida delas e suas experiências para ler a vida de outras pessoas e suas opiniões sobre os produtos. Gradativamente, os blogs foram se transformando calmamente em grandes mesas redondas, grandes mesas de bar, grandes reuniões amigáveis onde um “porta-voz” dá sua opinião sobre determinados produtos/serviços/lugares/músicas ou qualquer que seja o assunto do blog em questão.

Diversão x Profissionalização

Em pouquíssimo tempo, marcas começaram a pagar para blogueirxs falarem em seus espaços na internet sobre seus produtos. Vamos, pense um pouco: isso é muito diferente de um comercial na televisão? Não, é até melhor. Porque vem de alguém que você confia, de alguém que você ouve a opinião e não se importa que a pessoa fale daquilo assim como você não se importa que um amigo seu te indique algo maneiro que ele curtiu. E então isso virou uma profissão.

Perceba que fomos de diário para comercial, em um espaço de tempo tão rápido que, se você piscou, já perdeu. E é um pouco assim que eu me sinto, perdida (será que estou em Alagoinha?), com a sensação de rodar e rodar sem saber exatamente pra onde estava indo ou como se já estivesse lá.

Quando, mesmo depois de abrir o PCD, a sensação continuou, ficou bem claro que alguém precisava fazer alguma coisa. Alguém precisava dizer que tudo bem ter um blog sem ganhar dinheiro com ele. Que tudo bem você falar sobre sua vida para um número x de pessoas sem necessariamente se preocupar com esse número e sim com as pessoas que interagem com você. E, foi assim, que a partir de um post da Vic do Borboletando (um blog que, aliás, eu sempre acompanhei mesmo depois de parar de postar) no finalzinho de 2013, nós duas mais um grupão de “blogueiros old-school” criamos o Rotaroots, que durante um tempo trouxe de volta aquele gostinho de unidade, de diversão e de personalidade que os blogs tinham em seus “anos dourados” (em aspas, porque dependendo do seu ponto de vista, você pode achar que estamos melhores agora que podemos ganhar dinheiro com isso).

And this is why we can’t have nice things

Se você prestou atenção reparou que eu disse “durante um tempo”, o que quer dizer que não é mais assim. E esse é um desabafo bem pessoal. Conforme o grupo foi crescendo, foi bem claro ver para onde estávamos indo e contra o quê estávamos lutando –não que seja uma guerra, entenda.

Não há nada de errado em ganhar dinheiro com o seu blog, é importante dizer isso. Não quero ser hipócrita, já que uma das minhas fontes de renda vem de um trabalho onde eu escrevo uma quantidade relativamente grande de posts por mês para um blog. Eu trabalho com conteúdo pra internet –seja como Diretora de Arte, seja como produtora de conteúdo, e eu acho isso maravilhoso porque amo fazer.

A questão é que nem todo mundo consegue isso, e pra muita gente, isso é muito ruim. É devastador. É broxante. É desmotivador. Não ganhar dinheiro contando sua vida e suas experiências é desmotivador. Percebem o erro? Isso me leva a pensar: será que a pessoa vai parar de viver a vida e ter experiências só porque ela não é paga para isso? Será que não vale a pena dar uma dica de lugar ou produto só porque você o comprou do seu bolso? Será que se a Bruna Vieira não tivesse os milhões de seguidores em seu blog que ela tem ela teria escrito seis livros, quando é algo que ela realmente ama? Provavelmente sim, amigos. Levaria mais tempo. Mas se é algo que ela ama fazer, as chances disso acabar acontecendo eventualmente são bem grandes.

Todo mundo tem um colega que foi fazer faculdade com algo relacionado a engenharia, computação ou concurso público porque “dá dinheiro”, certo? Bom, hoje em dia, meninas e meninos entram em grupos de blogs no Facebook querendo uma receita para ser um blog bem sucedido. Porque, hoje em dia, “dá dinheiro.”

Amigo, se você não acredita no seu conteúdo a ponto de parir um blog com sua própria receita, por que o mundo deveria acreditar por você ou te ensinar a fazer isso? O meu ponto é: se até o maior dos blogs começou compartilhando a vida e experiências, por que você começaria de um jeito diferente?

E é por isso que a blogosfera é essa bagunça que é agora: os receptores de conteúdo se inspiram nos produtores de conteúdo e criam espaços na internet que não têm personalidade, produzem o mesmo conteúdo, e carregam em si a ideia de que ter um blog é ter um trabalho, quando o mais importante de um blog é compartilhar experiências. É desafogar aquilo que está dentro de você, seja o mais puro dos sentimentos, seja o mais puro dos publieditoriais. Mas o primeiro sempre vem antes do segundo.

Em dois anos de Rotaroots, nós lançamos diversas blogagens coletivas que deram muito certo. Uma interação absurda com muita gente que “faz blog do jeito certo”, e que se não tem nada verdadeiro pra escrever, não escreve. Uma galera que recusa receber pra escrever sobre algo que não acredita ou só atualizar com publieditorial porque sabe que esse não é o ponto. Uma galera que faz uma “playlist pra viajar” só porque vai viajar e acha muito legal compartilhar aquilo com mais gente. Mas, ao mesmo tempo, eu tenho encontrado pessoas que não querem postar nos blogs todos os dias “porque diminui o alcance do meu blog,” “porque vai ter vários posts seguidos sem comentários,” “porque fica difícil para divulgar.

Se você leu tudo até aqui, deve estar se perguntando por que diabos eu resolvi falar sobre uma história que meio mundo já conhece.

Quer saber por que quando você diz pra alguém que tem blog a pessoa acha que você escreve sobre maquiagem e moda? A resposta é bem simples, direta e deprimente: blog hoje em dia é sinônimo de free pass para ser rico, bem sucedido e celebridade na internet. Eu preciso de muitas mãos para contar nos dedos quantos amigos eu vi desistirem de um blog por causa da onda do “bem sucedido”, da onda de “preciso escrever porque meus leitores PRECISAM LER”, da onda de “preciso que marcas anunciem comigo.” Gente que achava o máximo ter um blog, falar da vida, e se empolgava bastante mas quando ia conversar com as pessoas tudo que elas queriam saber era qual o tamanho do número no seu mídia kit.

Quer saber o que blog significava em 2005? Que você tinha um diário. Quer saber como os grandes blogs começaram? Sendo um diário.

E muitos deles continuam sendo, só você que não percebe.

Sem receita. Sem fórmula. Só a sua vida. E se você tá lendo isso, tem um blog e se pergunta, frustrado, por que você não é convidado para viagens a Nova York, Barcelona, Londres, eu espero que você não se ofenda, mas é porque você tá bem longe de entender o que um blog é.