Dear White People, eu só quero que vocês assistam a série

E o que acontece quando as pessoas confundem “não invadir lugar de fala” com ser conscientemente omisso

Você sabia que a Netflix finalmente lançou a série Dear White People, baseada no filme homônimo lançado em 2014? Sua resposta pode ser “não”, ou, no meu caso, “só soube porque a série estava na minha lista no aplicativo então eu fui notificada.”

Pode parecer meio estranho pra você ler isso agora pois, caso você não esteja numa bolha “boa” de amigos, ninguém está falando sobre essa série.

Se você chegou agora, tem duas coisas que você precisa saber:

1) Eu ainda não assisti a série

Isso quer dizer que sim, esse é um texto spoilers free. Isso porque eu decidi que, com essa série, eu ia tomar meu tempo. Eu ia assistir com calma. Eu ia aproveitar. Eu ia assistir quando quisesse dar uma risadinha (sim), quando quisesse um humorzinho. Até vou rever o filme. Caso vocês estejam interessados em saber, no momento da redação desse #textão, eu estou no episódio 4.

2) Existe um conceito chamado “lugar de fala”

Caso você não esteja familiarizado com esse conceito, esse texto é incrível pra você aprender muito mais a fundo, mas basicamente é aquela máxima que a gente usa na quinta série pra falar pro amiguinho “não sabe, não fala!” No texto, destaco: “O ‘lugar de fala’ é um termo que aparece com frequência em conversas entre militantes de movimentos feministas, negros ou LGBT e em debates na internet. O conceito representa a busca pelo fim da mediação: a pessoa que sofre preconceito fala por si, como protagonista da própria luta e movimento.Não fica mais claro que isso.

O problema está quando as pessoas confundem lugar de fala com algo que é um híbrido de omissão e vergonha.

Essa é literalmente a minha cara quando percebo estou aqui mais uma vez escrevendo o óbvio.

Há um tempo atrás você deve ter percebido o debate em torno da série 13 Reasons Why, uma adaptação também da Netflix, que estreou dia 31 de março de 2017 (se não me falha a memória). A internet se encheu de posts e #textões lá na outra rede social, choveram críticos pra falar bem e falar mal, psicólogos, podcasts… A porra (com o perdão da palavra) toda.

A Gabe fez um texto muito mais incrível que esse sobre essa questão racista na falta de comentários de Dear White People em comparação a 13 Reasons Why que você pode ler aqui. E EU RECOMENDO ALTAMENTE QUE LEIA.

Não me levem a mal, eu amei 13 Reasons Why. Me tocou em vários pontos pessoalmente e eu sou do time das pessoas que acha que as pessoas precisam assistir e conversar sobre depressão e suicídio. Seria irresponsável da minha parte calar esse tipo de questão ou só querer ser muito legal e dizer “ai, mas eu não vi nada demais mesmo.”

Na época que a série saiu a Ari escreveu sobre, eu fiquei super tocada com o tratamento que o assunto recebia, e eu vi inúmeras vezes na minha timeline posts de pessoas que se diziam arrependidas por x comportamento na época da escola. Pessoas que repensaram coisas. Pessoas que se ofereceram para ser um ombro amigo e conversar. Que pediram perdão e se perdoaram. Foi incrível.

Em contra partida, eu sou 100% contra o famoso Super Trunfo de Tragédia™ da internet, mas caso vocês morem no mesmo mundo maravilhoso que o Alckmin mora, o racismo mata jovens tanto quanto o suicídio. A diferença é que a gente não escolhe, não faz fita cassete e ninguém fala sobre os por quês. Ninguém tá interessado em se ver em um perfil de pessoa racista. Não é preciso ir muito longe em uma pesquisa no Google pra ler estatísticas como: a cada 23 minutos um jovem negro é assassinato no Brasil –não sou eu que tô dizendo, é essa matéria da BBC. E quando a gente junta as estatísticas de jovens assassinados com as estatísticas de suicídio de pessoas de cor (por exemplo, o número de pessoas negras nos Estados Unidos que se matam vem crescendo), as coisas ficam ainda piores.

Nesse outro texto, a Gabe explica a relação entre transtornos mentais e racismo. Vocês já seguem a Gabe?????

O mundo está nos matando. Uma blackface* de cada vez.

*se você assistiu a série, sabe que ela meio que gira em torno de uma festa onde gente branca faz blackface. Se você não sabe o que é blackface, a Gabe explicou no texto dela.

Respondam de coração: vocês acham que Dear White People é pra mim? É pra Gabe? É pra Stephanie Ribeiro? É pro Travon Fee? É pra Leslie Jones?

Eu sou negra, eu sei muito bem o que acontece. Eu sei o que é, por exemplo, entrar numa sala da Universidade de São Paulo pra participar de uma mesa redonda e falar para 30 mulheres e 3 delas serem negras. Dear White People é pra você, suprise surprise!, pessoa branca.

Pode parecer duro quando dito, mas se esconder atrás de “ai mas não é o meu lugar de fala” é tão irresponsável quanto puxar um gatilho. E sabe por quê? Porque sempre que você assiste um episódio de 30 minutos da série, mais um jovem negro morre no Brasil. Se você assiste a temporada inteira em um dia só, morreram 10. E se você senta com os braços cruzados pra esperar gente negra falar sobre o assunto, mais 23 minutos se passam, e mais gente morre. No tempo que eu levei pra escrever esse textão, morreram 3.

Se você, pessoa branca, não sentar com seu grupo de amigos no bar ou onde quer que seja que vocês pessoas brancas legais vão pra discutir as atitudes racistas de vocês, nada nunca vai mudar.

Isso porque o negro é forte, mas o negro tá exausto.

Vocês acham que a gente não tem mais nada pra fazer a não ser ficar espalhando pelos quatro ventos coisas que a gente já sabe? Você acha que eu e meus irmãos negros já não fazemos isso todos os dias? Acho que já tá mais do que na hora de vocês começarem a não reconhecer o erro de vocês em silêncio, mas anunciar pros seus amigos brancos.

E pelo amor de deus, eu não estou falando pra vocês saírem por aí esbravejando coisas sobre feminismo negro ou sobre militância negra como se você fosse dono da verdade. Eu estou falando de repensar. Eu estou falando de não se esconder atrás de “quero esperar uma pessoa negra se manifestar” porque na verdade você não quer encarar o fato de que você é parte do problema.

Eu não sei vocês, mas no mundo onde eu vivo, o negro não se manifesta e é ouvido. O negro cansa a voz de gritar pra vir uma pessoa branca e dizer a mesma coisa num vídeo do YouTube, ganhar 1 milhão de inscritos e todo mundo compartilha com vários emojis de palmas. No mundo onde eu vivo não tem iniciativa da Netflix em uma divulgação gigantesca da série com hashtag no Twitter e atores vindo ao Brasil pra promovê-la. Isso porque a série é da mesmíssima plataforma.

Você pode não se interessar em ver, afinal de contas, no fim do dia a escolha é inteiramente sua e tá tudo bem. Mas não se esconda atrás de “lugar de fala” enquanto espera que as vítimas falem sobre o problema com seus opressores.

E a gente sabe o que acontece com vítima que fala, né?