O segundo turno carioca

O PSOL, objetivando abarcar em seu projeto todas as minorias existentes na sociedade brasileira, acabou por não dar o destaque necessário ao ideal trabalhista, de significativo apelo e relevância para as classes mais baixas. Ou, ainda pior, não compreendeu que, além da garantia de seus direitos, o trabalhador das classes média e baixa, talvez inspirado pelo discurso da direita, quer também prosperar e subir na vida.

O “jovem, negro e pobre”, qual outras personagens características do discurso da esquerda, tornou-se apenas uma figura da estatística na retórica do PSOL. Os anseios de caráter mais geral comuns a esses indivíduos representativos não foram interpretados de forma pragmática pela esquerda brasileira. Ao contrário, foram assimilados (forjados?), acolhidos e alimentados pelo discurso dos candidatos de orientação neopentecostal, filhotes de Macedos, Valdemiros, Malafaias, Soares, entre outros.

Como consequência disso, a esquerda perdeu a capacidade de dialogar com a população de renda mais baixa, não conseguiu se fazer entender pelas grandes massas e, obviamente, tampouco se colocar como sua potencial representante. É necessário recordar que não existe vácuo de liderança.

A derrota de Freixo no segundo turno carioca, em minha opinião, está intimamente relacionada a esse problema de diálogo, e não a uma superioridade das propostas de Crivella para a cidade. Ao tentar atender às reivindicações particulares de cada minoria — embora quase sempre justas e necessárias — , a esquerda brasileira ignorou o sonho comum de prosperidade material das classes mais baixas como um todo.

Em suma, a esquerda, paradoxalmente, não consegue mais retomar a sua origem: o operário “chão de fábrica”.