Não é hora do unfollow — ainda!

Seu amigo conservador curte o Bolsonaro? Talvez não seja hora de parar de seguir ainda

Para vários, o post cumpre o que promete: “clique aqui para desanimar hoje”, ele diz. No link, a página com os amigos que curtem a fanpage de Jair Bolsonaro no Facebook. Ao resultado, espécie de confirmação reveladora, se segue uma onda de cliques. Unfollows, unfriends e até confronto aos amigos “tirados do armário”. Para quem não tem nenhum contato na lista, o clique é um Print Screen orgulhoso: nenhum amigo curte o deputado, yay!

O recurso não é novo — e nem exclusivo da página do Bolsonaro. Um breve passeio por outras páginas revela os contatos que seguem Eduardo Cunha (seis amigos por aqui) e Marco Feliciano (quatro amigos). Isso pra não falar de outros que curtem a Banda Calypso (dois amigos) e até cerveja Bavária (um amigo, provando que tudo é possível).

Nos últimos dias, de votação de impeachment na Câmara dos Deputados, o convite acima é ainda mais tentador. Especialmente colocado um embate tão claro como o ocorrido entre Bolsonaro e o colega Jean Wyllys, de quem o primeiro levou uma cusparada em plena votação. É abrir o Facebook e conferir aquele amigo distante e homofóbico ganhar 60 likes com: “e eu achando que ele [Jean] só engolia”.

O dedo do unfriend chega a coçar — e muito! E resta a pergunta: será que esse amigo, com quem saía junto aos 19, ainda vale o contato? Por que eu quero continuar no radar de alguém assim? Mas a realidade, meu amigo, é que esse tipo de gente te mantém com os pés no chão.

É horrível, eu sei. E não falo nem apenas do tom dos ataques, carregados de racismo, machismo, homofobia. Mas da própria qualidade dos posts: piadas primárias, charges em baixa resolução, montagens da Dilma com Hitler. É como se aquele tio-avô da piada do pavê finalmente tivesse acesso ao Facebook, mas sem a tia-avó para segurar a onda.

O dedo treme novamente e a pergunta se repete: por que mantê-lo na timeline? Por que manter alguém que curte apoiador do regime militar? Apoiador de Carlos Alberto Brilhante Ustra? E nesse caso, nem é só uma diferença: é medo! Medo, pois sabemos onde esse tipo de pensamento acaba: você e eu, que lemos o que ocorria nos porões do DOPS. E é medo de apanhar na rua, também; de ser estuprada; medo de ser chamado de macaco, de comuna, sapatão. No fundo sabemos que, pra eles, não importa qual seja o que nos difere, somos todos diferentes, perigosos. Mas é exatamente esse o ponto: precisamos, sim, ser diferentes. E na frente deles.

Mande àquele amigo que não entende o impacto de curtir quem curte o Ustra

Então não adianta, a essa altura do campeonato, fazer a tal “limpa” em seu Facebook, nem deixar de curtir aquele moleque que você ajudou caindo de bêbado na faculdade. Não adianta, porque a ignorância não vai parar com um clique. Mas você vai saber onde está pisando. Você vai ver seus ataques racistas, seus memes malfeitos, e saber onde está pisando. É em contato com esse tipo de gente que você vai se preparar quando tiver de lidar com um quórum como o da Câmara, por exemplo, que vota por Deus e pela família. Você não precisa discutir com eles, se não quiser. Apenas ficar atento. E não fechar os olhos pra eles.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.