A voz da experiência

—Tá estressado? Fuma maconha. Garanto, funciona.
Olhei bem para o rosto daquele senhor. Não me parecia usuário.

— Não obrigado. Prefiro uma opinião médica.
— Tem médico que receita, você sabia? Na minha época não era assim não, maconheiro era vagabundo. Hoje em dia é comum, vai por mim, tenho netos da sua idade.

Não tive forças para explicar ao colega que só fumo em ano de copa do mundo (afinal, Paraguai contra Nigéria, só fumando um mesmo). Por mais que eu entendesse que aquele senhor deveria estar ali mais para conversar do que para ter uma consulta emergencial, não conseguia me livrar do sentimento de aversão a coletividade. Mesmo sabendo que o meu eu só faz sentido se inserido num contexto de nós, como raça humana, não conseguia a simpatia necessária para continuar a premissa de um bate papo agradável proposto pelo notável viuvo ao meu lado. Optei por um cigarro.

Mal havia saido da sala de espera do pronto socorro e acendido o cigarro, já ouvi meu nome sendo gritado por um enfermeiro, e a senha no monitor de plasma não deixava dúvidas, era minha vez. Joguei o cigarro na rua e corri em direção ao consultório. Sentei e expliquei o grande drama: não conseguia dormir.

O médico me encarava como se eu fosse um drogado. Não para menos, vinte e quatro horas sem dormir deixariam qualquer Brad Pitt parecendo o Steve Buscemi, mas o fato é que eu não estava ali em busca de drogas. Eu só quero saber se a visão turva é resultado de qualquer coisa que não seja a insônia. Em vão. Após exames de rotina onde nada anormal foi encontrado, ouço do médico:

— Eu vou te receitar este medicamento, é controlado. Mas você deve procurar um especialista.
— Certo, de que tipo? — respondi mais por desencargo de consciência, estava claro que o problema era na cabeça.
— Um clínico geral, sua visão está assim pois você não dorme, e um psiquiatra. Neste pronto socorro não tratamos problemas crônicos, apenas emergências. Durma, descanse e procure tratamento adequado.

Agradeci ao Doutor pelo seu tempo que eu não deveria ter desperdiçado, peguei a receita e fui embora. Nem me dei o trabalho de passar na farmácia, uma vez que certamente conseguiria fechar os olhos sem o medicamento. E a possibilidade de abri-los novamente após algumas horas também seria maior. Assim o fiz.

Nas treze horas que se seguiram, muitos sonhos. Daqueles que não conseguia mais ter de olhos abertos. Daqueles que só a imaginação de alguém cujo poder de cognição não tivesse sido afetado pela realidade. Sim, somente crianças e políticos por aqui sonham sem se preocupar com impostos. Me admira o fato de nunca ter pago imposto por idealismo, ou por sonhar. Por desejar algo mais leve do que o acorda-come-transito-trabalho- come-trabalho-transito-come-dorme. Por entender que a injustiça prevaleça, mas não deva ser eterna enquanto dure. Saber que é possível ser profissional e humano. O tipo de coisa que só a juventude ingênua possui. Tinha sido o tempo, como foi o sonho que não recordei, pois quando realmente despertei, ainda estava cansado.

Acordar de um sono merecido mas mal dormido nunca é o ideal para recarregar energias por stress, vide clube da luta. A questão agora é que por necessidade da cevada nossa de cada fim de semana, não seria possível me abster do próximo dia de labuta, mesmo que fosse a sexta-feira que seria. Lembrei-me do remédio, e sim, tinha a receita. Tomei um banho e parti para a farmácia.

Adentrei em passos firmes, mas cautelosos. Não podia parecer o junkie que não era. Entreguei a receita a balconista com um sorriso discreto. Ela examinou minuciosamente a receita e concluiu:

— O médico não preencheu o seu endereço.
— E? — perguntei eu, uma vez que o nome do remédio, meu nome e o carimbo do hospital estavam legíveis até para uma letra característica de médico. — E que caso eu preencha seu endereço, será considerado rasura, e este tipo de medicamento, por ser controlado, não pode ter a receita rasurada.

Achei que era preguiça de fim de expediente da moça, peguei de volta a receita e decidi ir para uma farmácia concorrente, novamente sem sucesso e, pelo mesmo motivo. Resolvi ir a uma grande rede de farmácias, talvez menos burocrática. Ledo engano. Desta vez, já perturbado com a falta de sucesso da empreitada, totalmente lícita diga-se de passagem, solicitei a presença do gerente e disse:

— Veja. Este é um remédio para combater stress, procede?
— Sim, com certeza — disse o gerente.
— Pois bem. Esta é a terceira farmácia que tento comprar e me negam, pelo mesmo motivo. Você concorda que a busca deste remédio contra stress está me causando mais stress?
— Sim senhor, compreendo, mas infelizmente não posso vender sem o médico ter preenchido corretamente.

Achei mais prático não discutir, e perguntei qual a solução, mais por desencargo de culpa do que propriamente pela informação em si, uma vez que se confirmou que eu deveria voltar ao pronto socorro. Já eram dez horas da noite, impossível o mesmo médico estar lá desde as oito da manhã. Mesmo assim, não vi outra solução e para lá rumei.

Pronto-socorro em bairro de classe média pequeno burguesa costuma ser lotado, por mais abusivos que sejam os valores de planos de saúde. Mesmo assim, como bom conhecedor da lei de Gérson e com nível de stress elevado a uma boa potência, optei pelo jeitinho e fui direto a enfermeira chefe. Expliquei todo o caso, o que não bastou. Foi quando ouvi: -Sinto muito, mesmo averiguando no sistema que realmente o senhor realizou a consulta hoje e a receita procede, o médico não esta mais aqui. Por motivos éticos, nenhum outro médico pode prescrever outra receita identica, o senhor deve passar por outra consulta. Apelei por bom senso, recebi um sorriso amarelo, que respondi com um olhar vermelho rumando em direção a recepção do pronto-socorro.

Mesmo que minha aparência demonstrasse a necessidade do medicamento, meus protestos foram em vão. Novamente, retirei a senha, número 78 desta vez, e fui fumar um cigarro para encurtar o tempo de espera.
Foi dar o primeiro passo para fora da recepção e percebi que estava sem cigarros. Avistei um bar, daqueles bem copo sujo, do outro lado da rua e para lá parti. Chego no caixa e digo para o simpático atendente:

— Quero fumar, tem marlboro?
— Não só marlboro, tenho um do artista bom também. É três para um, coisa fina. Coxo um de amostra grátis, aceita? Olho no plasma da recepção. A senha chamada é a de número 30.
— É, aceito.

Traguei e pensei: devia ter ouvido a voz da experiência. Ela certamente sabia que, no Brasil, é mais fácil comprar maconha do que remédios controlados.

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