Aceite os termos de uso

- Senhores clientes, promoção relâmpago. Nos próximos 20 minutos, televisão Telefuken® 20 polegadas em cores por apenas mil trezentos e quarenta e nove Cruzados Novos. É só até as dez da manhã, aproveitem.

Rapaz, ainda não são dez horas e meu carrinho já tem duas caixas de malt 90, quatro barras de Lollo, suco tang para uma vida e papel camélia para duas. O que mais precisa um solteirão sem bebê?

Ah sim, macarrão instantâneo!

— Com licença, moço. Onde encontro macarrão instantâneo?
— O senhor quis dizer Nissin Miojo™? Fica bem ali na sessão de massas, atrás da sessão Amor — me respondeu o gerente.
— Sessão Amor? Os sertanejos venceram e agora tem até a própria sessão? — incrédulo, retruquei.
— Não, meu amigo. Nós do Jumbo Eletro (patente pendente) estamos mirando o futuro, onde todas as necessidades dos homens, mulheres e outros gêneros ainda não em voga poderão ser atendidas de acordo com interesses financeiros. Afinal, para que sair da fábrica direto ao consumidor, não faz o menor sentido, o senhor não acha?
— Como assim?
— Veja. O produto sai da fábrica, vai para um centro de distribuição, onde sai do caminhão para um armazém, para depois entrar novamente em um caminhão para vir para cá, onde fica no estoque até que o fabricante que pagar mais levar a prateleira na altura dos seus olhos. Aí o senhor escolhe, como lhe convém, coloca na carrinho, tira do carrinho para passar no caixa, embala em sacolas plásticas antes de colocar no carrinho novamente, para tirar do carrinho e colocar em seu carro, para só depois tirar do seu porta malas diretamente para sua despensa. Acreditamos que não há opção melhor. Certamente as futuras gerações nos agradecerão pelo sistema que criamos hoje.
— Não, moço. Eu quero entender a sessão amor.
— O senhor é casado?
— Não.
— Então passe por lá antes de ir para o seu destino final. Não irá se arrepender. Daqui, é a terceira fileira de gôndolas.
Três fileiras depois, um atendente me para na entrada da sessão:
— Senhor, o Jumbo Eletro informa que não se responsabiliza por quaisquer inconvenientes, prejuízos, direitos de utilização e quaisquer outros danos que por ventura ocorram durante sua estada nas prateleiras da sessão Amor. O senhor concorda?

Termos de uso para andar no supermercado, vejam vocês. Esta é a vida moderna, onde temos que concordar que aceitamos coisas que nem sequer aconteceram.

— Concordo, amigo, posso entrar?
— Ainda não. Preciso que o senhor preencha esta ficha enquanto eu tiro uma foto com esta novíssima Polaroid.

Já com a prancheta em mãos, preenchi o questionário. Idade, sexo, músicas, filmes e comidas favoritas e um breve texto descritivo: “Se você perder muito tempo com os fantasmas do seu passado, eu serei apenas o monstro embaixo da sua cama”.

—Senhor, faça pose para foto. Estudos indicam que óculos de sol e sem camisa fazem muito sucesso e serão sucesso nos anos 90. Se o senhor quiser, podemos usar um fundo falso simulando tanto uma queda de paraquedas quanto uma visita à torre Eiffel.
— Não rapaz, pode tirar assim, como sou mesmo. To nessa pela curiosidade, não pelo que irá acontecer ano que vem.
— Não quer nem segurar um gatinho?

Minha expressão de desânimo foi captada com perfeição. Nem o David Foster Wallace, citado entre meus escritores favoritos, poderia descrevê-la. Quando finalmente entrei na sessão, uma série de polaroides com mulheres na torre Eiffel se seguiram. Me perdi. Achei melhor focar, e passei a só olhar para as de biquini. Eis que surge uma moça com uma plaquinha indicando “Talita, 26” dizendo: Você tem um gosto musical muito bom! Ela foi seguida pela Rafa, 36, dizendo “oi”. Oi, Raquelina, 29. Lia, 28, gostou da minha foto. Fadinha Violeta, sem idade, disse: olá pessoa. Carolina, 33, me chamou atenção e trocamos 28 frases, até ela me chamar para um encontro. Nunca mais respondi. Mandei mensagem para a Cristiane, 40, que disse que eu era muito novo, mas mesmo assim trocamos 139 frases. Oi, Raquelina, 29. Com Camila, 32, foram 128 amenidades até o silencio. Ela só falava em casar e ter filhos, e eu só estou tentando entender quando é que a complexidade de uma pessoa pode ser resumida nas 300 letras que cabem na ficha cadastral daqui. Oi, Raquelina, 29. Mariana, 26, me bloqueou porque eu respondi churrasco quando ela me perguntou o que eu fazia aqui. Será que ela nunca ouviu os Sobrinhos do Ataíde? Tanto faz, pois na sequência a Cinthia, 40, saiu da sessão pois me achou um babaca após 267 frases em que não correspondi às suas expectativas. Raquel, 28, você é exatamente a realização da mulher dos meus sonhos carnais, mas te conhecer aqui me faz achar você mais enlatada do que o atum que ainda não coloquei no carrinho. Grazielaa, 19, não entendo a sua língua juvenil. Oi, Raquelina, 29. Lê, 41, me pagou uma cerveja. Voltei para as gôndolas. Seria mais fácil ter no cadastro qual meu bairro e minha altura, todas perguntam. Oi, Raquelina, 29. Duda, 45, tem um gato igual ao meu. Marcela, 33, não me chamou para jantar pois está muito cedo. Paula, 38, não me respondeu quando não aproveitei a deixa e a chamei para sair. Oi, Raquelina, 29. Mari, 23, estava de abadá. A regra é clara, abadá elimina. 17 Frases e Daniela, 32, não falou mais comigo. Laura, 32, você é ótima, só que me conheceu em um momento muito estranho da minha vida. Clau, 42, gritou que sou burro, que não faz joguinhos e que foi uma tentativa fracassada de facilitar minha vida e tornar a dela mais feliz. Achou que era gentileza a oportunidade que me concedeu de comandar a situação, e por mais machista e presunçoso da parte dela, disse estar focando em mim.

— Senhores clientes, dentro de 15 minutos estaremos encerrando nossas atividades diárias.

Resolvi fazer o mesmo que Clau e focar em mim. Afinal, o macarrão instantâneo não virá para meu carrinho sozinho. Só espero que este pessoal do Jumbo Eletro não esteja certo quanto ao futuro. Um poeta disse que é duvidoso.

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