E O DUKE TRAZ A TRETA: ONU vs. Gamers Arcade Edition ex plus alpha

Update (2016/02/16): Adicionei uma imagem no trecho “Uma ação vazia contra um não-problema”

Vídeo games vivem em um limbo ideológico: são um meio de entretenimento maduro, complexo e rentável na hora de conversar sobre a parte econômica, sempre com comparações com Hollywood e como pessoas de todas as etnias, idades, gêneros e povos jogam (incluindo a famosa “48% dos gamers são mulheres” ). Contudo, basta o meio começar a tocar um pouco dos benefícios de ser uma “mídia consolidada” e de repente games são coisas de crianças, predominantemente meninos, e qualquer obra mais incendiária é uma ameaça às mulheres e crianças, independente de existência de algo dez vezes pior em filmes ou livros ou de uma clara classificação indicativa: se você compra um game, a sociedade não acredita na sua capacidade de discernimento entre fantasia e realidade, bom senso ou decência.

Eu queria dizer que superamos essa fase e que as pessoas já qualificam o mérito e o ônus de cada ação baseada no indivíduo ao invés de generalizar em cima de um hobby, mas sejamos honestos: vídeo games são o maior bode expiatório para mazelas psicológicas e inépcia social já criado. E, em mais um movimento polêmico, a ONU decidiu tentar dar sua cacetada nessa Pinhata

O caso

Conforme informa o site nichegamer.com No dia 10 de fevereiro o Comitê para a Eliminação de Discriminação contra a Mulher (Committee on the Elimination of Discrimination against Women - CEDAW) publicou as informações preliminares de sua revisão das ações tomadas por diversos países em relação ao tema que nomeia a identidade. A discussão se iniciará no dia 16 e, no caso do Japão, poderá ter, entre outros pontos de discussão

  • Igualdade de oportunidades de emprego
  • Demissão ilegal de mulheres por razão de gravidez e concepção
  • Assédio no ambiente de trabalho
  • Reintegração em livros escolares do conteúdo sobre as “mulheres de alívio” (escravas sexuais feitas pelo exército japonês em incursões militares na Ásia)
  • Compensação para mulheres com necessidades especiais esterilizadas contra sua vontade
  • Os efeitos na mulher dos programas iniciados após o desastre de Fukushima
  • Diferenças entre pensões para homens e mulheres
  • Pobreza entre mulheres idosas.
  • O banimento da venda de vídeo games ou desenhos envolvendo violência sexual contra a mulher

O ponto que eu pus por último na lista é o primeiro na postagem oficial da ONU. Ele se destaca dos outros de várias formas: dos 9 pontos, 7 foram escritos dando a entender que são casos de análise e discussão, apenas 2 foram apresentados de forma imperativa: a reintegração de matéria sobre as “mulheres de alívio” e o banimento de games e desenhos com violência sexual contra a mulher. Ambas as matérias possuem natureza e abordagem completamente opostas: um busca trazer conhecimento sobre um assunto outrora oculto, e outro busca ocultar um assunto sem estudar seus impactos, mas eu chegarei nesse ponto mais tarde.

Na documentação relacionada, há designada uma lista de assuntos a serem abordados, bem como a resposta do governo japonês para cada item. O caso que nos interessa se encontra no item 7:

7.Please indicate the measures taken to ban the sale of video games or cartoons involving rape and sexual violence against girls and women and to raise awareness among the producers of such materials, in line with the Committee’s general recommendation No. 19 on violence against women. Please also indicate the measures taken to address the mass production, distribution and use of pornographic videos in which women are targets of sexual violence, as well as the portrayal of sexualized commercial images of women.

Ou seja, avaliando o questionamento o assunto se expande além de videogames e desenhos (eu creio que “cartoons” é usado no sentido amplo, e significa tanto animações quanto quadrinhos ou outras obras estáticas), temos agora vídeos pornográficos em que mulheres são alvos de violência sexual e comerciais com imagens sexualizadas de mulheres

A réplica nipônica diz, em linhas gerais, o seguinte:

  • Filmes e videogames possuem regulamentos auto impostos pela própria indústria, bem como órgãos reguladores independentes (CERO para Vídeo Games e Eirin para filmes), garantindo que jogos “eticamente inapropriados” não sejam distribuídos
  • Existe em 46 prefeituras uma “lista negra” de livros “detrimentais para a juventude” que possuem circulação restrita
  • O governo trabalha com os provedores de internet para a derrubada de sites com pornografia infantil (outro ponto levantado no relatório)
  • A polícia intensificou a investigação e prisão de responsáveis por pornografia infantil
  • Posse, distribuição e exibição pública de “desenhos obscenos” é passível de punição conforme o artigo 175 do código penal japonês (em nota paralela, esse artigo é “coringa” de legislador: não existe definição específica de “desenhos obscenos” na lei), a resposta enfatiza os esforços contra pornografia infantil.

Esses são os dados formais disponíveis sobre o caso, agora vejamos o que o cerca:

ONU: Entre a incompetência e as boas intenções

Assim que a notícia foi divulgada pela nichegamer, ela logo ganhou tração em alguns outros sites, cada um com sua cobertura e trazendo pequenos fatos tentando elucidar a razão, bem como a validade do caso.

Um trazido tanto pelo site TechRaptor quanto pelo One Angry Gamer seria a suposta falta de base moral da ONU para tentar ditar algo sobre violência sexual quando seus próprios funcionários foram pegos compartilhando pornografia infantil.

Eu particularmente acho que eles possuem um ponto a ser estudado, mas trouxeram o exemplo errado: a ONU possui sérios problemas em agir com neutralidade, celeridade e transparência em um mundo moderno e conectado digital. E não estou falando da crítica batida de ter a Arábia Saudita em seu Conselho para Direitos Humanos.

Em uma tentativa de sensibilizar o público mais jovem e menos politizado, tivemos Emma Watson encabeçando a campanha “He for She”, pedindo que homens lutassem pela defesa dos direitos das mulheres… e só. A campanha não teve muita notícia além do discurso da eterna Hermione. O site ainda existe, e mostra que a adesão é mais baixa em regiões com taxa de estupro mais alta, como África Central e Oriente Médio (O Japão é ponto fora da curva, com adesão baixa e uma das menores taxas de estupro do mundo). O próprio critério para “adesão” à campanha é questionável (responder uma pergunta e se inscrever em um newsletter basta para fazer de você um “defensor da igualdade”). Mais do que isso, a premissa simplista da campanha deu abertura fácil para crítica.

Recentemente, tivemos a publicação do relatório “Cyber Violence Against Women And Girls: A Global Wake-up Call” (link da versão reeditada. Para a versão original, clique aqui), um documento supostamente analisando as formas de assédio que mulheres recebem e como lidar com a situação. Contando com figuras notórias como Anita Sarkeesian (criadora da série Feminist Frequency)e Chelsea “Zoe Quinn” Van Valkenburg (criadora do jogo Depression Quest), o relatório seria o Norte para a criação de uma internet segura para meninas e mulheres em todo o mundo

O resultado, contudo, foi recebido com um misto de discordância e escárnio: excessiva subjetividade na definição de assédio e problemas sérios de referências fizeram do documento uma piada mundial.

Jaime Bravo publicou no próprio medium.com uma análise de todas as fontes utilizadas no relatório (ignore a linguagem e se foque nos fatos) e chegou à conclusão exasperante que mais de 30% das fontes são links quebrados ou duplicados, 15% são referências circulares (ONU referenciando a própria ONU), notas de esclarecimento sem nenhuma fonte como referência, pontos de referência vazios (literalmente vazios), um artigo de uma autora que apoiava as ideias de Jack Thompson diz que jogos da Nintendo são “satânicos” e “treinam crianças para matar” e uma referência tendo como endereço o local do arquivo no HD de quem quer que tenha editado o documento!

Imagine isso em um artigo científico…

Mesmo o documento sendo retirado do ar e reeditado, o estrago já estava feito, e mais uma ação da ONU perdeu o foco e se tornou notícia por razões diferentes da esperada. (OBS: eu não vou falar sobre o conteúdo e recomendações feitas no documento pois além de ser um assunto demasiadamente controverso e espinhoso, nós já temos as mãos cheias com o relatório do Japão)

Então, nós temos uma organização com intenções positivas, mas com problemas sérios para articular ações e, até mesmo identificar problemas e soluções quando se trata de problemas da geração atual. Qualquer um pode ter boas intenções, mas competência e credibilidade para mobilizar ações exige mais do que frases de efeito e celebridades com discursos decorados.

E com isso em mente, vamos olhar os dados do Japão

Uma ação vazia contra um não-problema

Por questão de consistência, eu verifiquei os dados de violência sexual disponibilizados pela ONU: se é dito que desenhos e games aumentam a violência sexual, um dos países com a maior produção e influência histórica em jogos eletrônicos e animação teria um cenário assustador.

Conforme o relatório do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, a taxa de violência sexual em 2013 foi de 7,1 por 100 mil habitantes, e a taxa de estupro foi 1,1. Para efeito comparativo, essas taxas são, respectivamente 28,1 e 24,9 no Brasil. Os Estados Unidos não aparecem no ranking de violência sexual total, mas a taxa de estupro por 100 mil habitantes é de 24,9.

Analisando dados externos, o Japão não passa por uma onda de violência sexual, e sim de retração social. Fenômenos como o crescimento dos NEETs e Hikikomoris e, conforme o próprio relatório da ONU, declínio na taxa de natalidade e casamentos em idade mais avançada. Há também o caso da “geração herbívora”, que simplesmente não possui interesse em sexo ou romance com pessoas reais.

Se me permitem uma teoria sem nenhuma base, fonte ou pesquisa (e peço que não me citem nesse ponto em nada sério), é possível que o material extremo seja resposta ao desejo de escapismo de uma sociedade com alto nível de exigência tanto comportamental quanto profissional. E se os números representam a realidade, não é exagero dizer que os seres humanos japoneses conseguem dissociar ficção e realidade.

Uma imagem crua, mas bastante contundente em trazer o ponto em voga foi postada nos comentários do artigo na techraptor (pesquisa por imagem no google não me trouxe o nome do autor. Se alguém encontrar, favor me informe).

Por fim, a sugestão da CEDAW sobre vídeo games, pelo menos até agora, não trouxe nenhum embasamento que comprove a relação entre jogos e quadrinhos com conteúdo violento e violência sexual real.

Óleo em chamas na lagoa dos games

Você já viu um incêndio em um vazamento de óleo no mar? É um fenômeno um tanto curioso: apesar de queimar vivamente na superfície, a água abaixo é relativamente pouco afetada, pois o óleo não vai além da superfície. A reação sobre essa iniciativa da CEDAW é parecida: respostas inflamadas sobre uma ação que dificilmente terá resultado profundo.

A possibilidade de discussão sobre banimento de games com conteúdo questionável no Japão trouxe um certo desconforto a quem acompanha obras nipônicas aqui no ocidente: primeiro pelo termo “violência sexual” possuir alguma abertura para interpretação, e outro pela falta de informação.

Em época de censuras e controvérsias em obras japonesas, como Fire Emblem Fates e Dead or Alive Xtreme 3, e até em obras ocidentais inspiradas em estereótipos de Visual Novels orientais, houveram algumas discussões acaloradas em fóruns. Também pudera: com conteúdo não vindo para o ocidente ainda existe a chance de pegar “undubs” e “retraduções” na internet, mas e se o conteúdo começar a ser contado “na fonte”?

A verdade é que toda reação ao assunto, ao menos por agora é exagerada. Conforme a página sobre o trabalho da CEDAW sobre o assunto, só teremos informações conclusivas em 7 de março. Além disso, a ONU não possui poder legal sobre nações soberanas e influência bastante reduzida em países que não tenham nenhum conflito aberto ou vulnerabilidade economico-social. Eu sou otimista sobre o resultado e confio na previsão feita pela techraptor: a CEDAW fará mais recomendações e o Japão continuará confiando em seus órgãos de classificação.

Há, claro, a visão mais ampla de que existem esforços cada vez maiores do ocidente em tentar “adequar” a cultura japonesa e seus produtos ao padrão ocidental, o que gera interpretações errôneas e um perigoso ruído nas mensagens transmitidas pela mídia especializada.

Em todo caso, vale seguir a frase de efeito favorita dos autointitulados realistas: “Brace for the worst, hope for the best”