A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell — Uma análise sociológica e cinematográfica.

Imagem de divulgação de A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell.
Disclaimer: Usarei A Vigilante do Amanhã quando for falar do filme norte-americano e Ghost in The Shell em referência a obra original. Já falei bastante sobre whitewashing e sobre o mercado de trabalho restrito dos asiáticos (dentre outras etnias) nos EUA. Por causa disso o foco desse texto, mesmo abordando um pouco dessa temática, será majoritariamente a respeito da adaptação cinematográfica — artigo com spoilers.

O Japão, ao longo da sua história, foi um país muito fechado; socialmente e literalmente restrito a outras nações. O país começou a mudar após os acontecimentos da segunda guerra mundial, através da invasão norte-americana e das novas políticas governamentais. A terra do sol-nascente adotou uma filosofia pacifista que demorou para ser enraizada na população por uma série de fatores diferentes.

Enquanto o Japão ainda não se tornava o que é hoje, a sua economia sofria com a defasagem decorrente da segunda guerra mundial e seus jovens habitantes se desgarravam das tradições formando gangues. A yakuza parecia ser uma das autoridades que mais se importava em preservar essas mesmas tradições.

Existe algo muito errado no seu país quando o crime organizado é uma das principais referências culturais.

Em meados dos anos 80, através de políticas internas e externas por parte dos EUA, o Japão sofreu o chamado “milagre econômico”. O crescimento da economia ajudou a mudar a imagem do país, demonstrando os sinais de recuperação e esperança que a nação necessitava para se reerguer como potência. Nesse período o Japão se apegou bastante a tecnologia, tornando-se o berço mundial de importação de novos avanços tecnológicos, construindo dessa forma a identidade futurista dentro de uma nação conhecida por suas tradições.

Uma parcela importante do novo eixo econômico do Japão estava atrelada a imigração de estrangeiros. Esses estrangeiros eram descendentes de grupos de imigrantes japoneses que foram para outros países no fim do século 19 e antes da segunda guerra mundial. Essas pessoas eram bem-vindas aos olhos do governo, mesmo não possuindo uma política específica para o trabalho de imigrantes, porque elas representavam uma mão de obra barata em um país em crescimento que precisava aumentar e consolidar sua produção de um modo geral — passando pela agricultura até as grandes fábricas.

Em condições de trabalho análoga a escravatura, muitos indivíduos fugiam dessas empresas por não aquentarem mais o excesso de trabalho e a falta de respeito por parte de seus empregadores. As empresas, por sua vez, reclamavam que os trabalhadores fugitivos estavam em dívida, pois as fábricas pagaram suas passagens e moradias, o trabalho era necessário para compensar isso. Porém, essas pessoas, onde muitas não falavam japonês, não tinham consciência de diversos detalhes do seu contrato. Falado de modo figurado: o trabalhador pertencia a empresa até o contratante se der por satisfeito.

Os problemas não eram limitados as fábricas, muitas pessoas tinham dificuldades para se adaptar devido a discriminações constantes sofridas no decorrer do seu dia a dia. No Brasil o descendente era chamado de japonês, mas no Japão diziam que ele era brasileiro. E isso era um problema, porque muitas coisas no Japão eram destinadas ao verdadeiro japonês.

Para compreender melhor essa situação, veja alguns minutos do primeiro episódio do documentário O Outro Lado do Mundo, produzido pela Alternativa Online. Os participantes do documentário comentam sobre suas condições de vida no Japão no minuto 9:08 seguindo até o minuto 17:08:

Outro ponto importante dessa história, já mencionado em parágrafos passados, são as gangues formadas nesse período. Elas representavam uma parcela da contracultura japonesa de meados dos anos 70 e 80. Os Bōsōzoku, as Sukeban e os Yanki são as três tribos mais famosas dessa época. Em suma maioria eram formadas por filhos de trabalhadores, daqueles que viviam e morriam nas fábricas. Todos desfrutavam de motocicletas e roupas enfeitadas que os distinguiam entre os demais, mas a de mais destaque é a Sukeban, que enaltecia o empoeiramento feminino através da violência análoga à yakuza: violência dentro de um código de honra.

Essas gangues, que atualmente se pouco têm registros de suas existências, vadiavam nas ruas, humilhavam adolescentes considerados inferiores nas escolas e também conviviam com o que era considerado a escória japonesa na época: viciados, prostituas, mendigos e os desgarrados dos proletariados que se embrenhavam nas suas frias das grandes cidades. O fotógrafo Masatoshi Naito chegou a fazer o registro dessas pessoas entre 1970 e 1985, publicando seu projeto no livro Tokyo: A Vision of Its Other Side.

Foto de Masatoshi Naito, publicana em Tokyo: A Vision of Its Other.

Com tudo isso acontecendo entre os anos 70 e 80 não é muito difícil imaginar um mundo diatópico onde todos esses problemas são maximizados e se tornam essenciais dentro de uma cidade. A moda do cinema Pinky Violence, por exemplo, surgiu através da influência de contracultura de violência promovida pelas Sukeban. Ademais, mais importante do que isso, foi dessa forma que nasceram Ghost in The Shell, de Masamune Shirow, e Akira, de Katsuhiro Otomo. Duas obras que representam a visão de futuro através da união da contracultura e da tecnologia futurista do Japão.

Introdução ao quadrinho de Masamune Shirow (trecho do artigo Ghost in The Shell: Muito asiático para ser japonês):

Ghost in The Shell é um mangá (história em quadrinhos japonesa) escrito e ilustrado por Masamune Shirow. A obra foi originalmente publicada em 1989 na revista japonesa de antologias em quadrinhos Young Magazine e ganhou sua primeira adaptação em animação para os cinemas seis anos depois, em 1995.
No Brasil a animação foi lançada com o nome de O Fantasma do Futuro. A história de Ghost in The Shell acontece em um Japão cyberpunk, onde a protagonista, a Major Motoko Kusanagi, é a líder de uma equipe de agentes especiais responsáveis por solucionar crimes em meio a um ambiente distópico de uma megalópole em seu ápice tecnológico.
Ghost In The Shell, capa nacional / Divulgação, JBC.

Em A Vigilante do Amanhã parte da sinopse do mangá é mantida na adaptação norte-americana do quadrinho japonês. No entanto, além de usar do mangá como referência, o longa metragem acaba desfrutando mais do filme animado dos anos 90 misturando parte do enredo com características das suas séries animadas para TV, intituladas de Stand Alone Complex e Arise. Todavia, o roteiro do filme também se dá a liberdade de trabalhar a história de uma maneira diferente, criando também contrapontos que só existem na obra norte-americana.

O filme de Rupert Sanders, protagonizado pela Scarlett Johansson, é uma espécie de frankenstein de histórias, com diversos detalhes autorais e outros pontos diretamente relacionados as produções animadas anteriores. Esse tipo de adaptação é muito comum em filmes de super-heróis, especificamente da Marvel, onde uma história tem sua essência preservada e só o título de uma série, como em Guerra-Civil, é mantido com influência direta no roteiro.

Falando em essência de conceitos, A Vigilante do Amanhã se distancia bastante da proposta de Ghost in The Shell. A Major é bastante diferente das suas encarnações anteriores. Isso não é necessariamente um problema, pois a personagem da animação clássica também é bastante diferente da sua encarnação original no quadrinho. Entretanto, a Major em todas as suas histórias anteriores é sempre o epicentro de essência do enredo e da ambientação de mundo a sua volta. Ela passa o clima, por assim dizer. No caso do filme americano o clima é confuso e mal desenvolvido como sua personagem protagonista. A história de A Vigilante do Amanhã é culturalmente mais americana do que japonesa, e isso afeta consideravelmente a sua narrativa.

O Japão e os EUA são nações bem distantes e diferentes. Na terra nipônica existe um ditado que diz que “você deve se adaptar ao ambiente em que vive”. Ou seja: a sociedade ao seu redor é mais importante do que seu ego. Primeiro você trabalha para o grupo e posteriormente, caso ocorra o mérito, você terá seu destaque individual. Na américa é levado mais em conta aquele que se destaca no grupo, a figura do salvador que vai resolver o problema dos outros. União e individualismo, respectivamente.

Essa situação oposta se destaca nos produtos culturais de cada país. É por isso que em muitas histórias norte-americanas o herói salva o dia sozinho, sendo o oposto dos mangás, onde o grupo de amigos é fundamental para a trama do protagonista. As diferenças entre um grupo que pensa em sociedade para aqueles que pensam no indivíduo servem para ilustrar o principal contraste entre A Vigilante do Amanhã e Ghost in The Shell.

Poster americano de Ghost In The Shell, 1995 / Divulgação.

Nas versões japonesas há a discussão sobre quem é você na sociedade. Como fazer parte de um grupo e ainda ter uma identidade própria. Se seu corpo é mais de 90% máquina, o tornando mais útil para a sociedade ao qual vive, onde fica sua identidade individual quando você está virando mais uma engrenagem dentro de uma máquina social? É nesse ponto que vem a discussão de identidade da personagem principal de Ghost In The Shell, onde está sua “alma” se você é uma “máquina”?

Essa discussão acontece de maneira literal e filosófica, porque a Major Motoko Kusanagi tem um corpo artificial e é considerada humana e, principalmente, se considera humana dentro daquele corpo. Ela tem total consciência de quem ela é, como é mostrado em seu passado em Stand Alone Complex 2. A figura do Mestre dos Fantoches, vilão do filme de 1995, existe para a fazer questionar sua existência; questionar sua identidade como ser humano ou máquina — uma analogia ao cidadão japonês na década de 70 e 80. Esses argumentos também são utilizados para debater sobre a identidade da nação, identidade de gênero, identidade ideológica, dentro outros parâmetros semelhantes.

Já em A Vigilante do Amanhã, os questionamentos são deturpados para o estilo de vida norte-americano. O indivíduo é posto à frente da sociedade. No Japão as pessoas são engrenagem dentro de uma máquina. Nos EUA todo mundo quer ser uma máquina protagonista da sua própria história. E é disso que o filme acaba falando, a Major é considerada a primeira da sua “espécie” e por isso ela é especial, a escolhida.

No original a Motoko é humana indiferente do seu corpo robótico.

No filme americano ela se mostra robótica mesmo que a Dra. Ouelet (Juliette Binoche) a chame de humana.

O roteiro, fechadinho dentro do enredo proposto, deixa de construir bons personagens em prol das referências visuais e ignora pontos importantes da própria trama proposta na adaptação. Mesmo aceitando essa Major diferente, lembrando que isso não é um problema porque as animações são diferentes do mangá, a sua trajetória é a mais genérica possível dentro daquilo que o Avi Arad (Produtor), aqui representado pela Arad Productions, vem fazendo nos últimos tempos. A Major lembra bastante o Peter Park de o Espetacular Homem-Aranha: você tem que ser especial porque o roteiro está dizendo que você é.

Poster de A Vigilante do Amanhã: Ghost in The Shell / Divulgação.

Essa característica afeta bastante a ambientação da história. É muito difícil fazer uma conexão com a cidade, pois o foco da trama é apenas na história sonolenta da Major. Isso acontece porque A Vigilante do Amanhã é um filme de baixo orçamento para uma proposta arrogante e grandiosidade. 100 milhões é muito dinheiro, mas dentro do objetivo almejado o filme precisaria ser orçado em mais ou menos uns 150 milhões para fazer sua história ocorrer em locações mais abrangentes do que dentro de cenários construídos em estúdios como se fosse uma série de TV. Praticamente não há pessoas vivendo na cidade fora dos ambientes fechados.

O texto do roteiro também procura uma explicação para justificar a alteração da etnia da Major Motoko Kusangi para caucasiana. Por ter um corpo artificial, ela pode ter qualquer etnia ou não ter nenhuma. Há a possibilidade, mas isso não significa que a história deveria ter sido feita assim. Entretanto, já que existe a possibilidade e a produção disse não ter considerado isso um problema desde o seu início, por que foi cogitado usar efeitos digitais para deixar os atores com aparência asiática? E, é claro, por que desenvolver um argumento de roteiro para justificar exatamente aquilo que foi dito não ser um problema?

E, o mais importante dessa história toda, é que em nenhum momento é levantado o questionamento racial através dos olhos de uma pessoa que teve sua etnia trocada sem seu consentimento. Essa é uma reviravolta bem aleatória e irrelevante para a trama. Se não é importante ela ser asiática, não é preciso colocar que ela é japonesa dentro de um corpo caucasiano. Os dilemas da personagem lembram histórias de descobertas durante a adolescência, o que me faz pensar que nessa versão da história a Major nada mais é do que um robô na puberdade.

Ainda no preconceito do roteiro, os únicos personagens que têm um real destaque na trama são os caucasianos, a salva exceção é o Aramaki interpretado pelo excelente Takeshi Kitano.

Encerrando esse ponto, é bom lembrar que ao longo de toda a produção foi ressaltado mais de uma vez que a major não precisava ser asiática; até mesmo disseram que ela não era asiática, nem nas animações e nem no quadrinho. Mas no fim do filme é revelado que sua identidade verdadeira é Motoko Kusanagi.

Até mesmo para a produção ela é japonesa, eles só não queriam colocar isso em um pôster.

A construção narrativa da história, unindo roteiro, fotografia e direção, é um grande exemplo de mediocridade artística. Kuze, uma mistura do personagem homônimo com o Mestre dos Fantoches, não consegue ser nenhum dos dois e se apresenta como algo novo através do conceito de consciência coletiva. Conceito que é completamente esquecido no decorrer da trama. As cenas de ação, que imitam diversos detalhes do que fora feito na animação da década de noventa, não possuem impacto real, geralmente acontecendo com uma câmera lenta anticlímax dentro de um ambiente único. Não há continuidade de ação que proporcione adrenalina ou qualquer tipo de emoção.

Geisha: exemplo de efeitos práticos / Divulgação.

O trabalho do Rupert Sanders deixa bastante a desejar por não correr risco ao fazer um filme de ação genérico que em nenhum momento se preocupa em se aprofundar nos principais pontos de ficção cientifica da trama. A fotografia, que acaba pesando pelo espetáculo visual, não tem nada que seja realmente interessante dentro das suas cores e angulações. O oposto ocorre com o figurino e os cenários práticos. Nesse ponto o filme é impecável. A computação gráfica, aliada e inimiga, às vezes tem pontos positivos dentro da ambientação, mas em outros momentos é muito emborrachada e limitante, impedindo qualquer coisa mais complexa devido à falta de recursos financeiros. A trilha sonora é igualmente limitada, covarde e ruim.

Nesse aspecto A Vigilante do Amanhã parece bastante com o filme do Lanterna Verde protagonizado pelo Ryan Reynolds: uma bela estética externa formando uma casca de núcleo vazio. Esse é um filme ruim e esquecível; afinal de contas, as cenas memoráveis de Ghost In The Shell continuarão sendo lembradas pela animação de 1995, não pelo filme de 2017.

Dentro de um longa-metragem raso que preserva mais o “Shell” do que o “Ghost”, não é estranho que a produção tenha priorizado a etnia predominante nos EUA, país onde aproximadamente 74% da sua população se considera caucasiana. O ego falou mais alto do que os conceitos de identidade dentro de uma sociedade mecânica; sociedade (o ser comum) que não é desenvolvida em nenhuma circunstância durante o filme.

A “americanização” da história nos leva a uma situação muito relevante para toda a indústria: o Avi Arad, responsável pela onda dos filmes de super-heróis, assinou A Vigilante do Amanhã através da Arad Productions, estúdio que aparentemente quer ser o responsável por uma possível nova onda de filmes, agora direcionadas para adaptações de propriedades intelectuais asiáticas em solo americano. No momento eles são os detentores dos direitos de adaptação de Metal Gear Solid e Naruto.

Essa situação não é apenas um resultado do lado visionário do produtor israelense, é também uma constante desse mercado que está vendo uma quantidade exorbitante de dinheiro rondando o universo cinematográfico chinês. A Vigilante do Amanhã tem investimentos provindos da China, por isso que parte do filme foi rodado em Hong-Kong. Em Quase 18 (The Edge os Seventeen), filme sobre adolescência estrelado pela Hailee Steinfeld, a presença de um ator descendente de chineses, Hayden Szeto, que interpreta um personagem livre de esteriótipos, pode ser resultante do fato do longa ser produzido por um estúdio chinês. Isso pode ser uma boa oportunidade para que atores asiáticos possam ao menos fazer teste de elenco, algo que raramente acontece fora de um estereótipo.

Em sua crítica sobre A Vigilante do Amanhã, a Lully (Luisa Clasen do canal Lully de Verdade), questionou o público perguntando se a presença de diversidade étnica nos filmes seja uma responsabilidade da indústria ou do consumidor: “Então eu jogo essa dúvida aí para vocês: se é papel do público, se é papel da indústria ou se é um papel dos dois”, disse no minuto 4:23.

A indústria é responsável por barrar esses atores e atrizes em qualquer tipo de projeto, independente se a história é americana ou baseada em material asiático. A alegação é que o público não iria ao cinema, tornando o consumidor responsável pelo preconceito dos produtores. A própria Scarllet disse que “Cabe ao público decidir se sou a atriz própria para o papel”.

Em suma: é uma responsabilidade mutua.

A indústria, por hora, parece não se importar com uma diversidade real do seu elenco.

Porém, é inteligente que Hollywood pense sobre isso o quanto antes, pois o público norte-americano já mostrou sua opinião: A Vigilante do Amanhã é oficialmente um fracasso financeiro no mercado interno!

Se a China não salvar, o prejuízo pode ser de até 60 milhões de dólares! De acordo com a Paramount, as acusações de whitewashing são o principal motivo disso acontecer. Não foi porque o filme é ruim — e é — a resposta de Kyle Davies, líder de distribuição da Paramount, é que as pessoas não concordaram com a Scarlett Johansson no papel principal — e ela, ironicamente, só foi escalada para poder atrair dinheiro.

A Vigilante do Manhã: Ghost in The Shell peca por ser um filme sobre identidade que tem vergonha de sua própria identidade. Por mais que algumas atuações sejam boas dentro da proposta, inclusive da própria Scarllet Johansson, o filme não deixa de ser um chocolate genérico revestido de parafina em uma linda embalagem. O filme vai fechar muitas portas e provavelmente o Robert Rodriguez mudará parte do roteiro de Battle Angel Alita e a Arad Productions deve pensar umas duas ou três vezes antes de fazer Naruto.