Batman V Superman — Os pelos de Henry e os olhos de Melissa
Disclaimer: Esse artigo não é uma crítica, mas sim uma reflexão.
Kal-el é um Deus, com D maiúsculo, que sobrevoa o mundo salvando pessoas da melhor maneira que consegue. Em seus olhos calejados é possível ver suas dores; melancolia que se estende por toda a trama do filme. Esse Deus, de face ameaçadora, pode salvar sua vida ou, por praxe, como o próprio Batman concordaria, pode simplesmente esmagar o mundo da mesma maneira que uma criança pisa em um formigueiro: O seu pé afunda na areia fofa, o infante sacode a perna e continua andando.


Eu não quero ter medo do superman.
A lente da câmera pode mostrar todos os pelos do seu peito, expor o abdômen definido, esbanjar a virilidade e toda a força que o ser mais poderoso da terra possui. Mas, mesmo exalando níveis de testosterona que deixariam Apolo com inveja, jamais será isso que o fará um superman. Henry Cavill é um deus grego, que deve ser amado, mas os senhores do panteão não amam ninguém.
Ele ainda continua melancólico mesmo depois de dezoito meses do embate com o General Zod. O problema é que nesse período de tempo o superman não deixou de salvar uma única alma viva que clamou por sua ajuda, mas, sem maiores explicações, para o filme acontecer ele precisa esquecer a breve conversa que teve com um certo padre estarrecido em o Homem de Aço.


O Jesus nerd, humilde, criado no interior de uma cidade que tem pequeno no nome, não pode ser intocável (inalcançável). O “S” do seu peito, como é repetido incessantemente em quatro horas em dois longas diferentes, é a esperança que as pessoas possuem em seu salvador.
Porém, o todo poderoso Deus de Batman V Superman é intocável.
Quando as pessoas não conseguem alcançar a esperança, só lhes resta o desespero.
Em tempos de escuridão nós procuramos pontos de sustentação: Um ombro, alicerces ou simplesmente um ponto luminoso. Se você se aproximar desse ponto de luz será possível ver os olhos gentis de Melissa Benoist, Kara Kent, Kara Danvers ou, apenas, Supergirl.


A Supergirl, de orçamento moderado para suas condições, consegue mostrar para crianças que para ser boa só é necessário fazer o que é certo independentemente do fardo que isso possa lhe causar. A kriptonita vermelha a fez chorar, mas isso não a impediu de continuar voando, por maior que seja a sua angústia, a sua condição de super-humana, a melhor humana, a impede de ficar parada vendo as pessoas sofrerem.
O salvador, nascido em 1938, foi desenvolvido como um paralelo de Jesus: ele é divino e caminha entre os humildes, ele conhece os seus problemas, e caso venha a ser condenado como um criminoso, as consequências serão aceitas se isso for necessário para a salvação das pessoas que não tem capacidade de compreender os seus poderes.
Os poderes merecem uma atenção especial, porque são muito importantes para essa história. Não é a força, a audição apurada, as asas invisíveis ou os olhos flamejantes que fazem dele o primeiro super-herói da história.
Esse rapazinho de capa vermelha é o que existe de mais puro em um ser humano.
É isso que faz de Clark Kent um Super-Homem, não são os seus gominhos, são suas ações, é a sua bondade acima de qualquer coisa no mundo. Ele é o que existe de melhor nas pessoas.


A Supergirl consegue fazer isso, e olha que o roteiro infanto-juvenil derrapa bastante. Entretanto, como um jogador de futebol que chuta a bola com a canela, ela consegue fazer os gols, e isso é o suficiente.
Por falar em méritos, a Mulher-Maravilha, que não diz o próprio nome e sequer tem dez minutos de fala, consegue se impor melhor do que o Deus que tem o título no filme.
O Batman, um homem com mais de 20 anos de sangue suor e lagrimas, deve ter deixado o Frank Miller bem orgulhoso do seu carimbo de carne.
O superman, com ”S” minúsculo, o Deus poderoso, ainda precisa esperar o fim de The Sound of Silence, assim, com sorte, talvez o tema de John Williams comece a tocar novamente como o fio de esperança em uma lança afiada de um Super-Homem que abdica de tudo por um bem maior do que a própria vida. Então, desse modo, provavelmente Clark Kent dará o passo de fé que salvará a vida de milhões de pessoas.

