Por que o brasileiro não lê e um pouco mais além disso.

Fotografia por Angel Hernandez (Anher/Pixabay).

Por que o brasileiro não lê? Se o assunto é literatura no Brasil, essa será a pergunta predominante:

Estadão: 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro, aponta pesquisa Retratos da Leitura.

Homo Literatus: Por que o brasileiro lê tão pouco?

Papo de Homem: Por que o brasileiro não lê?

Superinteressante: Por que o brasileiro lê pouco?

A escrita foi um dos passos mais importantes para a evolução da humanidade e a leitura se tornou o principal meio de absorção de conhecimento no mundo. Além disso, a literatura de ficção acabou virando um símbolo cultural e de crescimento pessoal para os leitores. Obviamente outros meios de entretenimento oferecem benefícios similares, mas a necessidade de concentração durante a leitura faz com que o receptor absorva melhor tais informações, deixando os livros na frente de outras mídias nesse ponto em específico.

Sabendo de todos os valores intrínsecos no hábito de ler, é triste ter a realização de que o costume do brasileiro é focar suas horas vagas para se distrair com outros tipos de coisas, deixando a leitura em segundo, terceiro ou quarto plano.

Dentre os benefícios da leitura, o mais ressaltado é o da melhoria da capacitação e instrução das pessoas que o fazem. Em tese, uma pessoa que lê mais tem melhor desenvolvimento em níveis de caráter profissional e pessoal.

De acordo com os dados da quarta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizado pelo IBOPE e encomendada pelo Instituto Pró-Livro, o número de leitores na classe alta brasileira, que ganham de 5 a 10 salários mínimos, é maior do que os das classes mais baixas. Quanto menor a renda, quanto menor suas condições sociais, maior o número de não leitores.

Instituto Pró-Livro: 4ª edição da Pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” — 2016.

A pesquisa considera como Leitor o indivíduo que “leu, inteiro ou em partes, pelo menos 1 livro nos últimos 3 meses”; o Não Leitor “é aquele que declarou não ter lido nenhum livro nos últimos 3 meses, mesmo que tenha lido nos últimos 12 meses”.

Nessa situação nós temos mais duas perguntas: a condição de vida dessas pessoas é melhor por que elas têm o hábito de ler? Ou elas têm o hábito de ler por que possuem uma condição de vida melhor?

É importante lembrar que essa associação de riqueza cultural com a leitura não está necessariamente conectada a riqueza econômica. Algumas das maiores economias do mundo não são as que possuem o maior número de leitores. Segundo o World Culture Score Index (Índice de Cultura Mundial), com dados colhidos em 2011, a Índia é o país com a maior média de leitura do mundo, estipulando 10h42min de leitura por semana. O Brasil tem metade desse percentual, com 5h12min de leitura semanais; 30min a menos do que os EUA e 1h06min a mais do que o Japão.

Biblioteca Parque Villa-Lobos: Quais são os países mais leitores do mundo?

Gráfico para Russia Beyond The Headlines baseado nos dados da World Culture Score Index.

Ou seja: não é possível simplesmente julgar o valor cultural e econômico de um país através das pessoas que possuem ou não o hábito de ler. A economia dos EUA é muito melhor que a brasileira e o valor que o Japão dá para sua cultura, incluindo a qualidade da educação nas escolas, é muito superior à do Brasil. Outro fator importante é que a vida nesses países é consideravelmente distinta da brasileira em diversos âmbitos.

Se confrontarmos esses dados com os apresentados no terceiro Retratos da Leitura no Brasil, também de 2011, que, segundo o PublishNews, apresentou na época outro documento com a média de livros lidos em outros países, vemos que os espanhóis leram 10,3 livros por ano enquanto os argentinos têm uma média de 4,6 livros e o Brasil 4,0. No entanto, o World Culture Score Index fala que os espanhóis têm 5h48min de tempo de leitura semanal, enquanto os argentinos dispõem 5h54min da sua semana para ler. O espanhol lê mais livros, mas os argentinos ficam mais tempo lendo. Isso não faz muito sentido, a não ser se considerarmos que as duas pesquisas foram feitas com foco e fontes diferentes.

Instituto Pró-Livro: 3ª Edição Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil — 2011;

PublishNews: A leitura no Brasil e em outros países.

O que isso significa? Isso significa que os dados de pesquisas internacionais, nesse tipo de comparação, podem não servir para uma análise mais sinuosa em relação ao Brasil. Porém, é possível utilizá-los para exemplificar que o comportamento do leitor é variado de acordo com a cultura e economia dos estados brasileiros do mesmo modo que é diferente na comparação entre países.

Na quarta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil é apresentado os dados nacionais e regionais do percentual de leitores no país:

Gráfico da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil — 4ª Edição.
Gráfico da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil — 4ª Edição.
Gráfico da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil — 4ª Edição.

Atualmente, com dados de 2015, existem 104 milhões de leitores no Brasil, sendo que 48,3 milhões pertencem a região sudeste, justamente a área de maior estabilidade econômica. Portanto, podemos dizer que fatores econômicos e sociais afetam o interesse ou o acesso aos livros pelo brasileiro. E, mais importante do que isso, é que em todas as regiões a média de livros lidos está aumentando paulatinamente. No entanto, não há um estudo específico que apresente métricas que indiquem melhorias na condição de vida das pessoas que passaram a ler mais.

O aumento da média de livros lidos anualmente pelo brasileiro é um fator muito relevante na era da internet, principal concorrente da maioria das atividades de entretenimento da atualidade. Ademais, o livro mais querido pelos brasileiros é a Bíblia, seguido por outros de cunho religioso e de autoajuda. Dentre os outros livros citados durante a pesquisa estão Cinquenta Tons de Cinza, A Culpa é das Estrelas e O Monge e o Executivo. Quando a leitura é por prazer o brasileiro costuma se focar no que está em voga no momento, fora isso os padrões permanecem direcionados aos estudos, conteúdo de autoajuda e questões religiosas.

A média de leitura do brasileiro apresentada pelo Retratos da Leitura no Brasil é de 4,96, quase cinco livros por ano. Essa média vai de contra o que o então Ministro da Cultura, Juca Ferreira (Janeiro de 2015 até Maio de 2016) havia dito em 2015, afirmando que o brasileiro lia apenas 1,7 livros anualmente, um número duas vezes menor do que a pesquisa realizada pelo IBOPE: “O país ainda não conseguiu firmar a leitura como uma porta para o deleite estético e o crescimento intelectual. É preciso reconstruir desde os primórdios, 1,7 per capita ano é muito baixo para que a gente não fique preocupado”, afirmou Ferreira durante a abertura do seminário internacional que discutia no Senado a proposta de preço fixo dos livros, que impediria promoções e descontos durante o período de lançamento das obras.

Estadão: “É uma vergonha o índice de 1,7 livro por ano”, diz ministro da Cultura.

O projeto em questão, que na época era apoiado pelo Governo Federal, foi idealizado pela senadora Fátima Bezerra (PT-RN). O objetivo, segundo Bezerra, era impedir um monopólio das grandes livrarias que tinham poder maior de barganha sobre o valor do livro. O argumento de suporte vem da Europa, especialmente da França, onde há uma lei similar imposta nos anos 80 em benefício das livrarias do interior. Depois da aplicação da lei, o acesso ao livro pelos franceses ficou muito mais fácil. Porém, isso aconteceu antes das lojas digitais, o que deixa o Brasil em um espectro bem diferente da França, um dos países com um dos maiores números de consumidores de literatura tradicional e histórias em quadrinhos do mundo. A discrepância das duas nações aumenta se levarmos em conta que o poder de aquisição dos franceses é maior do que o do brasileiro.

Atualmente a tramitação da chamada Lei do Preço Fixo está estagnada no Senado, visto que a base do Governo Federal não é mais a mesma e o PT, partido da sua idealizadora, perdeu a força política de outrora. A última vez em que o projeto fora discutido no Senado foi em fevereiro de 2016. A última notícia a respeito da proposta, dada pelo PublishNews em março desse ano, foi de que o projeto perdeu o seu relator com a saída do Lindbergh Farias da CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania).

PublishNews: ‘Lei do Preço Fixo’ fica órfã no Senado.

“(…) a lei do preço fixo pode ajudar a proteger sim a pequena livraria, mas de um modo geral isso só será possível se o brasileiro ler mais. Não adianta nada a pequena livraria ter o livro ao mesmo preço das grandes varejistas se o leitor não existe. Acho que a lei do preço fixo é importante sim, mas que seja implementada como forma de aumentar os pequenos livreiros, não apenas proteger grandes redes umas das outras, que é no final onde está o maior problema”, disse Erick Santos Cardoso, vulgo Erick Sama, autor, ilustrador e editor da Editora Draco e Panini. Por e-mail, ele também falou que o brasileiro não percebe o valor do livro como entretenimento, citando esse como um comportamento marcado pela classe média; “(…) que é quem pode gastar com entretenimento”, acrescentou.

O Erick Sama também ressaltou a importância de novos leitores: “(…) a nova onda de jovens e adultos que se interessam pelos livros de papel, constroem blogs e vlogs para falar desses conteúdos, é interessante porque mostra o grande interesse dessas pessoas por um meio supostamente em declínio. O sucesso de editoras que investem em livros de luxo com capa dura e projetos gráficos sofisticados também mostra que o livro pode ser apreciado se bem produzido”.

Nos últimos tempos um dos principais projetos de destaque no que tange literatura em âmbito nacional é a distribuição de livros gratuitas feita pelo Governo Federal em parceria com as Prefeituras. Entretanto, como muitas das escolas não têm bibliotecas e não existe uma política de ensino baseada no consumo de literatura, muitos desses livros ficam trancafiados em salas sem ao menos chegar nas mãos dos estudantes das escolas públicas.

Outro ponto negativo dentro dessa proposta de distribuição gratuita de livros, como bem informou a Folha de S. Paulo em abril de 2015, foi que naquele ano ocorreram diversos atrasos de negociações e de pagamento com as editoras, atrapalhando o desenvolvimento dos principais projetos do Ministério da Educação, o PBLD e PNBE; respectivamente para livros didáticos e literatura de ficção. Diversas cidades do país deixaram de receber material devido ao cancelamento das compras pelas prefeituras.

Folha de S. Paulo: Atrasos de compras de livros pelo Governo ampliam crise no setor.

Recentemente foi aprovada no senado a Lei Castilho, também de autoria da Fátima Bezerra, que institui a “Política Nacional de Leitura e Escrita como estratégia permanente para promover o livro, a leitura, a escrita, a literatura e as bibliotecas de acesso público no Brasil”. Após a aprovação na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE), o projeto seguirá para avaliação na Câmara.

PublishNews: Senado aprova “Lei Castilho”; você pode ser o texto completo da lei clicando em “Ler Texto completo” nesse LINK.

O quinto item do Art. 3 da lei é bem interessante, com ideias similares a proposta apresentada no subtítulo seguinte, estipulando que um dos objetivos da lei é “promover a literatura e as humanidades e o fomento aos processos de criação, formação, pesquisa, difusão e intercâmbio literário e acadêmico em território nacional e no exterior, para autores e escritores, por meio de prêmios, intercâmbios e bolsas, dentre outros mecanismos”. Todavia, a lei, que trata a leitura como um direito democrático, tem o grande potencial de ser arbitrária como o direito à moradia, educação e trabalho: essas legislações existem, mas você conseguir usufruir delas já é outra história.

Na minha época de escola o acesso à cultura foi diminuindo com o passar dos anos. No ensino fundamental nossas aulas na biblioteca do colégio foram diminuindo até desaparecerem, porque o foco da grade curricular requeria o aprendizado prático para se acertar questões de múltipla escolha nas provas — não estou sendo irônico, isso é apenas um fato. No ensino médio não havia nenhuma aula relacionada a biblioteca, no terceiro ano as aulas de artes foram cortadas do currículo escolar.

É sabido que os pais têm grande influência no hábito de ler dos filhos, mas os professores também dispõem de igual importância nessa equação. Se o Governo, independente da ideologia política, não se esforçar para que os educadores tenham os recursos necessários para poder trabalhar com os alunos em sala de aula, será muito difícil aumentar a média de leitura anual do brasileiro se for depender apenas dos filmes de Hollywood como fonte de incentivo.

Qual é a melhor maneira de incentivar a leitura?

Algo que particularmente me incomoda nessa discussão é que é fácil apontar o dedo para identificar problemas, mas aparentemente é muito difícil alguém propor soluções. Recentemente tive uma ideia para incentivo à leitura nas escolas através de um concurso de contos. Acredito que é fundamental incentivar a escrita com a mesma ênfase do incentivo à leitura, ambos fatores estão interligados. Pela própria pesquisa do Retratos da Leitura do Brasil é notória a realidade de que as pessoas que leem mais também são justamente aquelas que costumam escrever com maior frequência.

Gráfico da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil — 4ª Edição.

O conceito da minha proposta do concurso de contos é simplório:

O projeto tem como objetivo fomentar o interesse dos alunos da rede pública do município de São Paulo, os incentivando a criarem literatura de ficção, que por ventura elevaria o fascínio dos estudantes em consumirem o tipo de arte ao qual estão produzindo (…)
O mercado literário nacional está em seu melhor momento em anos, mas ainda sofre com muitos problemas, principalmente no efetivo de produção de literatura de ficção, que é justamente o que proporciona o aumento de leitores. A arte existe sem público, mas o público não existe sem o artista. Pensando dessa forma, oferecer dentro do sistema educacional um projeto que aumente a produção de textos de ficção elevaria o percentual de leitoras paulatinamente com o passar dos anos.

Em conversa por e-mail com a escritora Carolina Munhoz, autora de Feérica e O reino das vozes que não se calam, ela me disse o seguinte: “no primeiro colegial me inscrevi em algo parecido. Era um concurso do DETRAN em diversas escolas para criar uma paródia de uma música tendo como tema a conscientização do trânsito e o primeiro lugar ganharia uma câmera fotográfica. O bacana é que ganhei o concurso, mas infelizmente a câmera nunca foi entregue. Mas só o fato de me fazerem escrever e de saber que ganhei fez toda diferença”.

Ela também me alertou que já havia visto tentativas similares de projetos que foram apresentados ao Governo sem sucesso, mas mesmo assim me incentivou a entrar em contato com a prefeitura para fazer tal proposta. Depois de ser encorajado, entrei em contato, via e-mail, com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, com dois vereadores e também com um deputado federal. Até o instante momento apenas a acessória de uma vereadora me respondeu dizendo que a ideia seria avaliada, mas posteriormente não ocorreu mais nenhum contato por parte da equipe da vereadora.

Aumentar o percentual de produção nacional é uma boa maneira de incentivar a leitura. É muito comum pensar no incentivo ao consumo de livros apenas pela leitura, mas a escrita é igualmente fundamental.

Você já parou para pensar nessa pergunta: por que o brasileiro gosta de futebol? Obviamente não é simplesmente pelo fato dos pais assistirem as partidas na TV. Em tempos onde não se havia muita opção de entretenimento, quando a televisão era o centro da casa, isso era até um incomodo, pois as crianças não poderiam assistir os desenhos da tarde enquanto os pais estivessem vendo uma partida ou programa esportivo.

Crianças jogando futebol na Tailândia; fotografia por Sasin Tipchai — Pixabay.

O brasileiro gosta de futebol porque os seus pais e as escolas incentivam as crianças a chutarem uma bola. É só isso mesmo. Por fazer parte da cultura nacional, o ensino do esporte e o incentivo pela prática acabam formando pessoas que gostam de futebol. Não são todas que vão virar profissionais, jogarem no final de semana, irem nos estádios ou até mesmo gostarem do esporte. Mas só o fato de participar de um jogo, apreciando o momento mesmo que um pouco, já serve para fazer com que a criança tenha afinidade com o esporte.

O lado oposto é visto no futebol feminino. Como as garotas não têm o incentivo natural, sendo impedidas de jogarem por pessoas que falam que o esporte é “coisa de menino”, não é de se assustar que a modalidade feminina do esporte não tenha a mesma força que a masculina. Se houvesse a liberdade de prática igualitária, os dois lados do esporte poderiam desfrutar de resultados semelhantes, algo que ocorre com o vôlei. O segundo esporte mais praticado no Brasil sempre consegue formar equipes diversificadas, pois é dado aos dois lados, masculino e feminino, a mesma liberdade para poder jogar.

A relação de leitor e escrita funciona basicamente dessa forma. Seria mais fácil para as crianças e adolescentes simpatizarem com a leitura se houvesse o incentivo natural pela escrita de ficção. E isso também seria benéfico para o aprendizado de língua portuguesa, visto que é mais fácil compreender através da prática do que da teoria. Crianças e adolescentes se sentiriam mais confortáveis em criar histórias e naturalmente trabalhar a gramática dos seus textos através da escrita criativa do que simplesmente sendo obrigadas a preencher lacunas de questões técnicas ou assinalando a resposta certa em uma pergunta. Óbvio que a teoria gramatical é importante, mas esse estilo mecânico de estudo não precisa ser o único método de aprendizado. Estamos falando de pessoas, não de máquinas.

A memória, dentro de uma explicação simplista, é classificada como explícita e implícita; a primeira é marcada por aquilo que a gente lembra e consegue recordar; a segunda é o procedimento automático, como uma memória motora que nos faz recordar como andar de bicicleta mesmo que deixemos de praticar a atividade física. O funcionamento da memória no cérebro é realizado através de conexões entre um neurônio e outro. As conexões ditam o nosso aprendizado, o que mantemos conosco e o que é esquecido. Se a matemática não é aplicada diariamente, nós esquecemos de suas equações mais complexas.

Às vezes os ensinos linguísticos são tratados dessa forma: preenchendo lacunas e fazendo conexões. Quando o aluno para de preencher essa lacuna, essa memória será descartada. Porém, se o uso não for limitado a um modelo, oferecendo possibilidades de ensino e utilização da gramática dentro de outro espectro de opção, essas conexões no cérebro serão reforçadas de forma marcante. E como isso se tornaria parte de um hábito de escrita e leitura, o estudante se tornaria mais suscetível a compreender os livros como meio de entretenimento e ainda poderia desfrutar de um melhor ciclo de alfabetização.

Assista a esse vídeo, Nerdologia 37: Memória, para melhor compreensão sobre o funcionamento das ligações feitas pelo nosso cérebro no estabelecimento da memória:

Resumindo: um método interessante para aumentar o índice de leitura no Brasil é ter o ensino de escrita criativa enraizado em todos os anos letivo dos estudantes. Não seria necessário reestruturar a grade curricular, só seria preciso orientar os professores de língua portuguesa a ensinarem seus alunos através das histórias criadas pelos estudantes. Desse modo não só aumentaríamos o número de leitores e escritores, mas também poderíamos usufruir de um sistema de ensino linguístico melhor por oferecer um método diferente de aprendizado não limitando ao estilo mecânico mencionado anteriormente.

Sobre o uso da escrita criativa como veículo de alfabetização, o Sidney Gusman, editor responsável pelo planejamento editorial da Maurício de Sousa Produções, disse que “(…) os quadrinhos, por exemplo, são ferramentas espetaculares para serem utilizadas na educação. Só que, mais do que preparar os alunos, nós temos que preparar os professores. Tem muito professor que ainda torce o nariz, não sabe utilizar os quadrinhos em sala de aula, e que não conseguem entender que mesmo um quadrinho de linha, originalmente, pode ser usado para ser utilizado para ensinar alguns conceitos, para ser trabalhado em sala de aula em relação texto e imagem, análise de texto”.

Entretanto, diferentemente do concurso de contos, essa mudança de perspectiva no ensino de língua portuguesa seria um projeto de longo prazo. Plantar hoje para colher no futuro. Foi por isso que enviei o e-mail focando sobre o concurso de contos. Com o concurso seria possível conquistar alguns leitores e ainda apresentar para a sociedade jovens autores. O concurso de contos é mais fácil de ser aplicado, por isso o conteúdo do e-mail era focado nisso. Se o projeto souber se vender de forma similar ao ENEM, os resultados podem ser gratificantes em um período de curto prazo.

Foto por Pexels — Pixabay.

Fazendo um último adendo, não se pode ignorar o efeito negativo da economia na vida dos jovens estudantes. Respondendo novamente as perguntas iniciais: as pessoas que leem mais o fazem por disporem de uma condição de vida melhor. Nesse caso, só será possível melhorar esse índice após estabelecer o básico da condição de vida que um ser humano necessita, algo que não é oferecido pelo Governo. De acordo com o artigo publicado na JAMA Pediatrics, julho de 2015, a pobreza está atrelada ao déficit cognitivo das crianças, afetando diretamente o desempenho mental e acadêmico delas.

Explicando de forma simples: você não terá maçãs em um pomar onde a maioria das árvores estão morrendo por causa do solo infértil. O brasileiro não lê porque a base escolar é defasada e porque a nossa economia é limitada, dificultando o acesso ao livro e a compreensão de que a leitura é um meio de entretenimento agradável.

Para mais detalhes sobre a relação da economia com o desenvolvimento cognitivo das crianças, acesse a matéria traduzida da Scientific American — Español no Universo Racionalista. Os interessados em informações de abrangência mais acadêmica podem ler o artigo em inglês do Eurekalert sobre o mesmo assunto — o texto em português é derivado do espanhol que por ventura é derivado do inglês.

Universo Racionalista: A pobreza afeta o desenvolvimento mental e o desempenho acadêmico das crianças.

Scientific American — Español: La pobreza afecta el desarrollo mental y el desempeño académico de los niños.

Eurekalert: Differences in brain structure development may explain test score gap for poor children.

As figuras do mercado literário nacional e onde habitam.

Falarei novamente sobre o papel do Governo dentro do mercado literário nacional, mas antes de prosseguir com as angustia administrativas da terrinha, nós nos focaremos nos outros elementos do ecossistema literário. Cada um desses grupos, autores, editoras e afins, têm sua própria parcela de contribuição na formação de novos leitores e na estabilidade do mercado pelo simples fato de exercerem suas funções trabalhistas: autores escrevendo e editoras publicando, e assim por diante.

Observação: essa parte do artigo é mais opinativa, não apenas informativa.

Os autores:

Isso já foi mencionado, mas é bom ressaltar o ponto de que não existem leitores se não existirem autores. É como desejar vida na terra sem água. O escritor é essencial para esse ecossistema, no entanto o seu trabalho não se limita a contar história. Para construir uma carreira ainda é necessário saber negociar com as editoras, entrar em contato com o seu público e se autopromover. É claro que não serão todos eloquentes como a Thalita Rebouças, porque o dinamismo dos autores com o público depende muito da sua personalidade. E, dentro da sua personalidade, cada escritor ou escritora precisa encontrar sua própria maneira de se impor.

Thalita Rebouças na Bienal do Livro de São Paulo, 2016; foto de Marcos Ribas/Brazil News.

Manter-se focado em suas competências é importante para o mercado, porque autores arrogantes, ou inconvenientes de algum modo, afastam leitores e prejudicam a imagem das editoras. Ninguém quer conviver com esse tipo de pessoa. O objetivo é fomentar o hábito de leitura, não afastar ainda mais os leitores em potencial.

O Raphael Draccon, autor mais conhecido por sua série literária Dragões de Éter, costuma dizer que uma das responsabilidades dos autores é a formação de novos leitores. É mais fácil para os escritores continuarem trabalhando e aumentando ainda mais o interesse do brasileiro pela literatura se o mercado estiver abastecido com novos consumidores. Através de cada novo escritor, de cada novo livro publicado, nasce um novo leitor. Quanto mais leitores, maior o alcance de público dos livros. Nesse ponto não existe concorrência, apenas um trabalho mutuo entre criativos.

Os autores não se limitam apenas em contar suas histórias, alguns chegam a oferecer meios de ensinar e passar conhecimento para novas gerações. Não estou falando de professores e palestrantes, mais sim de indivíduos que pertencem realmente ao mercado, escritores que passaram pelo processo de escrita e publicação, e, desse modo, usam da sua experiência na formação de novos escritores.

Erradicado em Los Angeles, Fábio M. Barreto é um jornalista de extensa carreira com passagens pelo O Estado de S. Paulo e Revista Rolling Stone. Ele teve seu primeiro e único romance publicado pelo inerte, praticamente em coma terminal, selo Fantasy da Leya/Casa da Palavra. A obra teve uma boa repercussão, reimpressão, e recebeu o Prêmio Argos de Literatura Fantástica em 2013 na categoria de melhor romance. Sem publicar novos livros desde seu primogênito, o autor prosseguiu escrevendo de forma independente com contos disponíveis em formato e-book na Amazon. Barreto é um dos autores que foi além da sua função de produtor de conteúdo e passou a atuar como colaborador para formação de novos escritores.

Há aproximadamente dois anos o autor criou o C.O.N.T.E, um curso online sobre técnicas de escrita para escritores. Com a promessa de auxiliar novos autores a escreverem seu primeiro romance em quatro meses, promessa ao qual é cumprida com excito por seus participantes, o método pode não vir a criar novos escritores, mas auxilia aqueles que já possuem interesse nessa área artista. De longe, se não houver esforço para enxergar a real situação, essa iniciativa pode não representar grandes resultados para o mercado, porém, é justamente o oposto que acontece.

Cada novo autor ou autora, seja ou não um futuro famoso, que sair do curso com um livro pronto estará formando novos leitores pelo simples fato de oferecer seu trabalho ao público. É o velho ciclo de produção e consumo mencionado algumas vezes nessa matéria. O Barreto, através da internet, faz um trabalho muito importante para a saúde de um mercado em crescimento que ainda sofre com uma série de problemas.

Mais conhecido do público, o Maurício de Sousa, que dispensa apresentações, tem o seu próprio projeto de pré-alfabetização e alfabetização, de modo paradidático, onde utiliza sua maior criação, a Turma da Mônica, como objeto de estudo e aprendizado. Em 2012, durante entrevista ao Jacaré Banguela, o Mauricio comentou sobre o projeto e falou que chegou a oferecer algo similar ao Governo brasileiro, mas sem sucesso. Segundo o quadrinista, as histórias da Turma da Mônica, na época, já eram usadas na China para alfabetização de 180 milhões de crianças.

Hoje, em 2017, o Maurício continua mantendo seu projeto paradidático e a Maurício de Sousa Produções está sempre em contato com o Governo. Além disso, o Sidney Gusman me contou que o impacto dos produtos da empresa nesse quesito não se limita a esse projeto, que tem um grupo de pessoas específicas dentro da MSP responsáveis por tal demanda. “(…) a gente tem uma penetração cada vez maior com os nossos livros, com as nossas revistas em programas governamentais de forma não oficial… de forma não didática, eu diria, como paradidáticos”, comentou por mensagem de voz via Facebook. “Então é sempre um processo de aprendizado constante que a gente tem, porque se você pegar uma marca e usar em um projeto de alfabetização, é, realmente, muito mais complicado do que parece”, concluiu.

Esse último comentário é bem pertinente, porque o Governo não pode simplesmente priorizar uma única marca para criar todo um projeto educacional, ou seja: é possível apoio e participações pontuais, mas não se pode aplicar diretamente na grade curricular de forma exclusiva os produtos de apenas uma marca. Nesse caso o ideal seria usar esse modelo, de quadrinhos dentro de um regime de alfabetização, de forma que atraia diversos tipos de gibis, sem priorizar ninguém em especial. Todavia, como foi dito, é tudo muito mais complicado do que parece.

– Voltei a entrar em contato com a Carolina Munhoz e com o Raphael Draccon, mas por questões de saúde e trabalho os dois não tiveram tempo hábil para responder. Também entrei em contato com outros autores, porém não obtive retorno até o fechamento dessa matéria.

As editoras e os seus editores:

O papel da editora no mercado literário é fornecer material. A editora, como empresa, precisa ter um bom planejamento para poder fazer seus investimentos e obter retorno sobre o mesmo. O livro é um produto artístico, não tem como fugir disso. Se as editoras não ganharem dinheiro, não obtiverem lucro, elas vão fechar.

Dentro desse processo a editora funciona igual a qualquer empresa comum. No entanto, se atribuirmos sua importância como veículo cultural, a empresa também deve assumir o comprometimento, não necessariamente uma responsabilidade, de oferecer acesso ao seu material. A editora tem que chegar até o leitor e tem que promover novos autores, nacionais e internacionais, para que o mercado mantenha seu fluxo de estabilidade e crescimento. Através desse trabalho a cultura literária é propagada e todos os envolvidos, em tese, ficam felizes.

As editoras não podem se limitar em colocar seus livros em livrarias e lojas onlines, também é necessário participar de feiras para poder se tornar conhecida e, principalmente, angariar novos leitores (clientes). A JBC, por exemplo, costuma participar de diversos eventos, grandes e pequenos, para poder divulgar seus mangás (histórias em quadrinhos japonesas). Por atuar em um mercado de nicho, quanto maior o número de leitores conquistados pelos títulos publicados, melhor e maior será esse mercado.

Nesse ponto, levando em consideração as outras editoras que publicam o mesmo tipo de quadrinho e que também participam desses eventos, todos ganham com o aumento do número de leitores de mangás no Brasil.

O Erick Sama, falando pela Draco, disse que a editora “(…) participa de feiras com incentivos de prefeituras locais de cidades como Belo Horizonte, Osasco e Guarulhos, vendendo os livros com desconto para crianças da rede pública. Nós temos também uma linha de quadrinhos com preço acessível e conteúdo ligado para jovens leitores, o selo Contraversão. Também temos uma coleção de e-books gratuitos para que o leitor conheça os nossos autores e os seus estilos de escrita”. Ele também ressaltou que as compras feitas pelas crianças nas feiras ocorrem através de recursos das prefeituras, como vale livros e mecanismos semelhantes.

Não se limitando apenas em apresentar seu material para leitores em potencial, uma editora, através de seus editores, tem a tarefa de lançar novos autores no mercado. Não estamos falando de novos títulos internacionais, mas nacionais. Nos últimos tempos houve um período de maior acessibilidade a esse tipo de material, porém, aparentemente a crise econômica brasileira empacou esse processo. São poucas as editoras que realmente investem em autores nacionais. A maioria foca naqueles que já são famosos ou que possuem algum tipo de destaque. Quanto menor o risco, melhor para a empresa.

Os editores, como é de conhecimento geral, investiram bastante em youtubers. Me refiro aos editores, e não editoras (empresa), porque são essas pessoas que trabalham para que esse tipo de publicação ocorra. Já falei sobre isso em outra postagem, Título alarmista sobre livros de youtubers, e compreendo a necessidade desse tipo de título no mercado. Ter um bom índice de vendas em uma rede de comércios afetada por uma crise econômica é fundamental para manter as contas em dia. O livro do youtuber, daqueles que vendem bem, auxilia a editora a arriscar em títulos e autores desconhecidos. No entanto, é inegável a limitação desse processo. Como expliquei no outro artigo, o livro de youtuber enaltece o youtube, não o mercado literário. Se os editores pensassem um pouco mais fora do coeficiente financeiro, seria fácil chegar à conclusão de que essas pessoas são mais rentáveis escrevendo ficção do que diários ou curiosidades sobre o trabalho na plataforma de vídeos.

É na ficção que você capta novos leitores. Muitos dos fãs dos youtubers terão o primeiro contato com a literatura através desse tipo de livro. E esse tipo de livro está focado no youtube, não na literatura. Por causa disso fica difícil criar novos leitores através de um material que leva a pessoa a desenvolver uma afinidade maior com uma mídia diferente ao qual ele está consumindo naquele momento. Por outro lado, se o foco fosse na ficção, esse novo leitor se conectaria com o livro por ser um livro, não por ser de um youtuber. É só uma questão de lógica. Não condeno os editores, só gostaria de os ver pensando além do curto prazo.

No quesito investimento em autores nacionais, sou obrigado a destacar a Editora Draco. A Draco é uma editora que atua exclusivamente com material nacional. Todos os livros e quadrinhos publicados por eles são de autores brasileiros. Suas antologias são uma ótima oportunidade para novos autores, roteiristas e desenhistas exporem seus trabalhos no mercado pela primeira vez. Minha primeira publicação impressa, na antologia em quadrinhos Dracomics Shonen Vol.1, foi através da seleção deles. A Editora Jambo, Gutenberg, Sesi, Avec, Mino, Novo Conceito, Verus, Rocco e Balão Editorial também fazem um trabalho interessante publicando nacionais — elas não são as únicas, o que é muito bom para o mercado.

– Entrei em contato com quatro editoras, mas apenas a Draco, através do Erick Sama, respondeu até o fechamento dessa matéria.

Os agentes literários:

Sim, existe agenciamento para autores. São poucos os agentes e agências literárias atuantes no Brasil. E, principalmente, são poucos desses poucos que são realmente bons e que fazem um trabalho descente. Geralmente o foco desses profissionais é se relacionar a algum indivíduo que já tenha algum tipo de destaque, fechando suas portas para aqueles que estão no começo de carreira sem nenhum material publicado. Nesse meio ainda existem os agentes e agências que trabalham para tirar dinheiro dos autores sem garantias de retorno.

Como é perceptível, são poucos os bons profissionais nesse seguimento do mercado literário brasileiro. Desse modo é difícil mensurar sua importância na carreira de um autor e, principalmente, na formação de leitores. Acredito que esses profissionais só passarão a proliferar quando existir um mercado mais abrangente onde a presença dos seus serviços seja realmente necessária para os autores.

Um autor não precisa de um agente para trabalhar no Brasil, isso é um fato. Todavia, se o escritor ou escritora se associar com um desses bons profissionais, agente ou agência, ele conseguirá se comunicar melhor com editoras de médio e grande porte. O escritor terá melhor relevância em eventos e contará com a leitura crítica de seus agentes para seus futuros trabalhos antes mesmo do envio do manuscrito para as editoras. Isso, convenhamos, é algo bem agradável.

– Entrei em contato com duas agências literárias para o esclarecimento dos questionamentos levantados nesse artigo, mas não obtive resposta até o fechamento dessa matéria.

As livrarias:

A situação das livrarias é um dos pontos mais delicados de toda a equação do mercado literário brasileiro. Existem três vertentes da mesma área de vendas: grandes livrarias; pequenas livrarias; e comercio digital. O comércio digital geralmente atua com os dois tipos de livrarias, mas também funciona sozinho, sendo a Amazon seu maior representante. Por outro lado, algumas das pequenas livrarias, principalmente aquelas do interior dos estados, não contam com relevância na internet. Esse é justamente o oposto das grandes livrarias, como a Saraiva e a Livraria Cultura, que são estáveis nas lojas físicas e digitais.

Foto por Pexels — Pixabay.

A concorrência entre os comércios acaba afetando autores e consumidores. Se as grandes livrarias ocupam o espaço do pequeno comerciante, as livrarias de bairro não conseguem alcançar novos consumidores. Toda loja que não vende chega a um momento em que ela eventualmente quebra. Se a loja quebra, o consumidor perde acesso ao seu produto. Se as pessoas não têm acesso aos livros, obviamente, a leitura não será um meio viável de entretenimento.

As grandes redes comerciais, que antes não tinham concorrência, podem encarar a Amazon como uma grande ameaça. Não pense que a ameaça são os e-books, o problema, para esses lojistas, está nos descontos. A pouco tempo atrás um bom desconto variava entre 10% e 20%. Alguns chegavam em 30% e a queima de estoque poderia oferecer 80% de desconto, mas em quantidades limitadas de livros, que rapidamente saiam de catálogo após algumas compras. Esse era o padrão dos grandes comércios, que encontraram na Amazon descontos constantes de 20%, 40% e até 80% sem ser queima de estoque.

Alguns indivíduos acusavam a Amazon de concorrência desleal, as pequenas livrarias se uniram a isso, uma senadora criou um projeto de preço fixo para os livros, o projeto não foi para frente e a situação continuou a mesma, mas agora com as grandes livrarias oferecendo descontos semelhantes aos da Amazon.

A concorrência desleal, segundo o Sidney Gusman, é algo complicado de se falar, porque a concorrência é algo que ele acha que faz bem para todo mundo. “Só que existe, sim, empresas de diferentes tamanhos em todos os ramos de atuação. E aí não tem muito o que se fazer (…)”, comentou. “(…) há realmente um poderio concentrado na mão de grandes editoras (…). Só que isso é assim em todas as áreas do mercado, não tem muito o que fazer”, concluiu quando perguntei sobre a lei do preço fixo.

Para uma matéria do Estadão, publicada em março de 2017 e que relata o déficit de vendas recente dos lojistas, a Livraria Novel, Livraria da Vila, Livraria Cultura e Livraria Travessa afirmaram que a Amazon, no momento, não é um motivo de preocupação. O que vai de contra ao mito da guerra ideológica e financeira entre os concorrentes do mercado literário nacional.

Estadão: Livrarias sentem crise e ‘efeito Amazon’.

Para os leitores, que como bons consumidores gostam de bons descontos, a existência da Amazon e das promoções das livrarias tradicionais são sempre bem-vindas. Porém, se essa pessoa morar no interior ou fora do eixo sul-sudeste, ela terá que arcar com um frete alto que pode fazer o desconto desaparecer. E como as livrarias de bairro estão quebrando, igualmente as bancas de revista, ela não terá acesso aos livros.

Para os autores, principalmente os que pertencem as pequenas editoras ou que são 100% independentes, essa situação fica cada vez mais desgastante. Por mais que os lojistas reclamem do lucro sobre o livro, é válido lembrar que eles ficam, no mínimo, com 30% do valor de capa. Alguns chegam a reter uma porcentagem maior do valor do produto. A editora tem que diluir os 70% de renda restante desse dinheiro com a distribuidora e com o custo de produção, incluso gráfica e funcionários — e tradução, se houver. Do que sobra é retirado o lucro da editora, que é uma parcela de dinheiro maior do que o autor recebe. A distribuidora geralmente retira sua porcentagem antes da livraria, pois são eles que levam os livros até os lojistas.

Se o autor tiver um contrato excelente, que lhe garante 10% do preço de capa do seu livro de R$ 40,00, ele vai receber R$ 4,00 por unidade da sua tiragem de 500 ou 1000 cópias; rendimento variado entre R$ 2000,00 e R$ 4000,00 — desconsiderando impostos. Caso ocorra o esgotamento dessa tiragem em um período curto de tempo, mais ou menos em dois anos após o lançamento, e se estipularmos a média do valor gerado, R$ 3000,00, o autor terá ganho o equivalente a R$ 125,00 por mês em dois anos.

Entretanto, o pagamento costuma ser feito uma vez ao ano após atingir uma média financeira e poderá ser variável de acordo com o desconto oferecido pela livraria — geralmente a porcentagem de pagamento vem do preço de capa, em casos específicos o pagamento sofre alterações mediante os descontos ofertados na venda. Outro ponto importante é que os grandes lojistas, em suma maioria, não pagam pelos livros. Eles só disponibilizam sem precisar se preocupar com distribuição e logística — esse conceito é chamado de venda consignada, onde o lojista não precisa arcar com os produtos não vendidos, podendo os devolver ao fabricante sem custos. O oposto ocorre com a Amazon, que compra os livros das editoras para manter um estoque próprio.

Para melhor compreensão do funcionamento do mercado, com informações detalhadas e embasadas, leia essa matéria no PublishNews: Preço fixo, agenciamento e direitos autorais. E as livrarias no meio. Outro artigo relevante, focado exclusivamente nos valores do mercado, foi publicado no Grifo Negro: Como funciona o mercado editorial no Brasil; mas para esse texto deixo o aviso de que não são todos os autores que recebem adiantamento e que existe sim editoras que cobram para publicação de autores, um serviço conhecido como publicação sobe demanda.

E, prosseguindo, no meio dessa loucura toda o autor tem que se manter motivado para continuar trabalhando, porque sua profissão é essencial para aumentar o número de leitores. E além disso, as pessoas distantes dos centros comerciais necessitam de um incentivo muito maior do que um desconto para poder manter o interesse pela leitura em um mundo moderno onde existem tipos diferentes de entretenimento para serem desfrutados.

– Toda essa situação gera uma série de questionamentos sobre o posicionamento das livrarias dentro desse mercado, principalmente o papel dos grandes lojistas, incluindo a Amazon, em todo esse processo. Enviei e-mails, para livrarias grandes e uma de pequeno porte, para esclarecer esses pontos, mas não obtive resposta até o fechamento dessa matéria.

Os professores:

Os professores muitas vezes são mais importantes no incentivo à leitura do que os próprios pais dos estudantes, por isso que a autonomia dos educadores nesse sentido é fundamental para que eles possam trabalhar com maior liberdade e conforto. Será possível aumentar o coeficiente de leitores no Brasil se o professor de língua portuguesa não limitar seus métodos de ensino por causa da grade escolar. Isso é um processo de longo prazo e depende muito de que toda a comunidade educadora entre em consenso conjunto, o que deixa professores e alunos reféns do Governo por mais uma vez.

Ao pensar dessa forma nós colocamos os professores em uma situação complicada, algo que aparenta ser o padrão do mercado literário nacional. Faz parte integral das suas responsabilidades seguir as normas impostas pelo MEC (Ministério da Educação) no ensino em sala de aula. Por causa disso esses profissionais são naturalmente limitados nesse sentido, mas isso não significa que eles não possam pensar além das suas obrigações para aumentar o interesse dos seus alunos pela literatura.

Quando eu estava no segundo ano e, posteriormente, no terceiro ano do ensino médio, a minha professora de língua portuguesa apresentou um sistema de ensino através da leitura de livros de ficção. Sempre que ela ensinava sobre um novo movimento literário os alunos teriam que ler um livro correspondente ao movimento para apresentar um seminário e trabalho escrito. O livro era de escolha do aluno (divididos em grupos), permitindo que cada estudante ficasse com aquele que o agradasse mais.

Esse processo era interessante, pois ela conseguia motivar um pouco mais o hábito de ler ao mesmo tempo que avaliava nossas tarefas. O que considero mais importante é que o livro do último bimestre era de livre escolha, não ficando preso a nenhum movimento literário. Quem tivesse interesse por Harry Potter lia Harry Potter e assim por diante. Essa liberdade de escolha motivava bem os alunos; muitos pegaram o costume de ler através disso. Por mais que fosse um trabalho escolar, a liberdade de escolha nos deixava mais confortáveis, passando a sensação essencial de prazer com a leitura.

O professor tem como função educar, no sentido de alfabetizar, ao mesmo tempo em que apresenta a mídia literária como uma forma de entretenimento. Se pensarmos em uma filosofia ideal dentro da sala de aula, essa seria a melhor abordagem possível a ser trabalhada com os livros. Entretanto, os dois lados dessa equação são, por muitas vezes, defasados na educação brasileira.

Os blogs literários e os booktubers:

Os autores sempre encontraram dificuldades para divulgar seus trabalhos em mídias tradicionais e os leitores nunca se sentiram representados pela crítica. Na era da internet a mídia e a crítica, dentro de veículos tradicionais, perderam poder e a voz de comunidades ganhou força. Foi assim que nasceram os blogs literários, primeira vertente de pessoas interessadas por livros que falavam sobre essa temática na internet sem maiores comprometimentos. Chamados de blogueiros literários, eles propagam cultura e ajudam na divulgação dos livros fortalecendo o mercado ao qual fazem parte.

Nos agradecimentos de Ozob: Protocolo Molotov, o escritor Leonel Caldela agradece justamente a esses criadores de conteúdo: “Hoje em dia, são essas pessoas que incorporam o espírito punk de faça você mesmo. São estas pessoas que não aceitam tudo que vem pronto da mídia e criam seu próprio conteúdo. Isso transforma o mundo, e nós não estaríamos aqui sem vocês”, escreveu o autor. Se não fossem pelos blogs e, mais recentemente, os booktubers, o mercado literário brasileiro estaria caminhando ao obsoleto.

Me usando como exemplo, já entrei em contato com diversos blogs e booktubers para fazer a divulgação dos meus produtos (contos e uma história em quadrinhos). A maioria não respondeu, outros responderam, mas também não divulgaram; porém, aqueles que chegam a fazer até mesmo uma simples menção no twitter, como a Paola Aleksandra do Livros e Fuxicos, exercem toda a diferença na construção da minha carreira e no fortalecimento desse mercado.

Tenho o costume, não necessariamente religioso, de acompanhar blogs literários e booktubers. Na minha vida isso é inevitável, pois sou autor e consumidor. Nesses meus dois lados, de cliente e fornecedor, percebo o padrão onde não qualifico os blogs literários e booktubers como portais sobre literatura, mas sim canais sobre seus autores (blogueiro ou booktuber). Os donos desses sites ou canais no youtube não têm como foco a literatura, o foco são os seus gostos particulares, que nesse caso em específicos são os livros.

Falar sobre gostos pessoais não é falar sobre literatura, mas apenas ter livros como forma de deleite. Isso é natural, não um problema. Porém, seria mais interessante que esses blogueiros e youtubers fossem mais simpáticos em relação aos novos autores.

Isso não é necessariamente uma crítica, mas uma constatação. Esses blogs e canais são, por muitas vezes, organizados por uma única pessoa que só consegue tempo para falar sobre aquilo de que gosta. Até sites maiores, como o portal Garotas Geeks, passam por esse tipo de situação. Por e-mail o editorial do Garotas Geeks me falou sobre a curadoria de conteúdo, em relação à literatura nacional, e o tipo de postagens publicadas por suas redatoras: “Todas as integrantes do site têm outros trabalhos, por conta disso, o tempo dedicado ao Garotas Geeks é muito mais limitado do que gostaríamos. Fazer um texto sobre um livro é bem mais complicado do que sobre um filme ou uma HQ, então não escrevemos sobre livros tanto quanto gostaríamos pela falta de tempo mesmo. Já sobre HQs e mangás conseguimos falar mais”.

O autor independente precisa divulgar suas histórias e às vezes não consegue esse espaço nos blogs literários porque o foco dos produtores de conteúdo são os seus gostos pessoais. A função dos dois lados, dentro desse contexto, é encontrar uma abertura nessa relação que possa prover resultados positivos para ambos. O problema real é o conflito de egos, onde o produtor de conteúdo se considera superior aos artistas e quando os artistas desprezam os blogs por falta de divulgação do seu trabalho. Nesse caso a questão não é “estou revoltado porque vocês não divulgam nacionais”, o sentimento está mais para “estou revoltado porque vocês não divulgam o meu trabalho”.

É óbvio que o papel dessas pessoas nesse ecossistema é fundamental. Por muitas vezes os blogs conseguiram reunir grupos de fãs para tardes de autógrafos, aproximando leitores dos escritores. E por serem uma mídia de divulgação, é comum que eles cobrem por seus serviços, como um anúncio publicitário. Todavia, para isso funcionar corretamente é substancial que haja uma métrica mínima de retorno de investimento para os autores. A triste verdade é que esse retorno, de um blog solitário, não existe. Os blogs literários e os booktubers não são fortes meios de propaganda sozinhos.

O alcance do anúncio em uma postagem ou de uma resenha crítica vai variar de indivíduo para indivíduo. Em um momento uma divulgação paga pode funcionar, mas é muito provável que isso não aconteça se o blog ou canal no youtube não tiver relevância e poder de engajamento com seu público. Essa situação é mais delicada para os autores independentes, que teriam que pagar de blog em blog para ter seu trabalho divulgado. Por outro lado, os autores abraçados por um selo editorial têm a vantagem de contar com o sistema de parceria das editoras para ter seu trabalho divulgado nos blogs. Essa parceria possui seus atritos, pois algumas editoras, de grande porte, não pagam patrocínio para os blogs e canais de destaque que realmente possuem relevância no mercado.

No entanto, a relação entre as partes é majoritariamente amistosa, como relata Erick Sama, falando pela editora Draco: “A Draco trabalha com blogs e booktubers que aceitam os nossos materiais sem a obrigação de fazer posts patrocinados. Então temos uma boa relação com criadores de conteúdo que se identificam com o nosso conteúdo e geram resenhas e opiniões pela sua apreciação ao nosso trabalho. Fica uma relação de respeito mútuo aos nossos trabalhos e propostas”.

– Entrei em contato com dois blogs, que ficaram de me responder após a primeira troca de mensagens, mas, no fim, não obtive uma resposta definitiva até o fechamento dessa matéria.

Os portais de entretenimento — sites Geeks e Nerds:

Os portais de entretenimento, diferentemente dos blogs literários e dos booktubers, possuem um perfil jornalístico, não particular. Por ser jornalístico, eles deveriam estar mais propensos a divulgar material nacional, mas não é exatamente isso que acontece. Pela necessidade de conseguir um bom fluxo de visualizações, os portais acabam focando seus esforços em notícias e materiais onde há a certeza de cliques e comentários.

Muitos dos redatores desses sites, geralmente voltados para conteúdo Nerd & Geek, são leitores e apreciadores de literatura. Mas os seus sites não refletem sobre isso, exceto em assuntos específicos onde a franquia literária se destaca mais do que o ato de ler. A maioria das editoras só conseguem divulgação dos seus livros através de patrocínio, o que é coerente se levar em consideração que esses sites são plataformas de comunicação; muitos deles começados igualmente aos blogs literários e booktubers. Entretanto, não podemos ignorar o fato de que isso não acontece com outras mídias. Mesmo que o investimento comercial ocorra eventualmente, notícias de cinema e séries de TV são publicadas sem patrocínio.

O Omelete, o maior portal de notícias de entretenimento do país, tem uma abertura para publicação de notícias relacionadas ao áudio visual nacional, especialmente para o cinema. Atualmente tem crescido o espaço para séries de TV. Porém, o mesmo não é válido para literatura como um todo, a única exceção são os quadrinhos. Os livros aparecem em destaque quando estão associados com outras mídias. Mas se o assunto é literatura nacional, o espaço no site diminui ainda mais. Se relevarmos os grandes nomes do mercado, a presença de notícias sobre literatura nacional é quase nula.

Há aproximados quatro anos o Omelete tinha um quadro em seu canal no youtube chamado de “Cantinho da Leitura”. Durante alguns minutos os redatores e editores do site falavam sobre livros e quadrinhos semanalmente. O quadro saiu do ar devido à baixa audiência e retornou um ano após o seu encerramento em edições especiais no facebook, mas sem o destaque de outrora. O quadro entrou no ostracismo novamente e a literatura no portal passou a ser citada apenas em conteúdo transmídia ou em anúncios patrocinados.

O Jovem Nerd segue um processo semelhante ao planejamento editorial do Omelete nas notícias. Em seu podcast, o Nerdcast, podemos destacar os episódios voltados para literatura, que funcionam de maneira semelhante aos blogs de literatura e dos booktubers: conteúdo baseado no gosto particular dos seus integrantes.

No NerdNews, setor do site voltado exclusivamente para notícias, a literatura, especificamente a nacional, não tem presença marcante, a salva exceção é para os títulos famosos e para os autores relacionados aos criadores do site. O Jovem Nerd tem o seu próprio selo editorial com um ótimo índice de vendas, porém, por ser uma empresa focada na própria produção de conteúdo, até agora eles não lançaram nenhum autor que não fosse desconhecido do mercado ou amigo dos criadores do site.

Artists Alley da Comic Con Experience 2015  Foto de Divulgação.

Antes de prosseguir, não podemos ignorar a importância do Grupo Omelete organizando a Comic Con Experience. O Artist Alley do maior evento de gênero da América Latina é uma porta grandiosa para diversos artistas, onde em suma maioria são criadores nacionais. Alguns deles são mencionados no site do Omelete, mas seria melhor se isso também ocorresse fora do período de evento.

Um dos portais grandes que mais se destacam na divulgação de literatura nacional é o Garotas Geeks. Desfrutando de diversas redatoras de perfis diferentes, o site formado apenas por mulheres sempre divulga material de autores iniciantes (seja gibi ou romance). Mesmo limitando o conteúdo ao gosto das colaboradoras, o Garotas Geeks consegue manter um fluxo de matérias em diversos seguimentos, passando por livros, quadrinhos, eventos que possuam alguma relação editorial com o site e até com material de RPG (Role-Playing Game). E, o mais importante, não há uma baixa na métrica do site em relação a postagens de conteúdo nacional ou internacional.

“E quanto ao baixo número de visualizações, pelo menos no GG isso não é verdade. Dicas de leitura costumam ter números bom, muitas vezes maior até do que de jogos”, respondeu o editorial do Garotas Geeks por e-mail. A explicação sobre o comportamento do público em relação à literatura, não limitando aos nacionais, prosseguiu: “(…) nós não escrevemos muito sobre livros pelo fator tempo. Entretanto, não vemos muita diferença nas métricas quando se trata de uma resenha de livro nacional e de livro internacional (claro, nos casos de franquias de extremo sucesso mundial, como Harry Potter e Senhor dos Anéis, os números são muito maiores). Já sobre HQ é muito relativo. Às vezes uma arte mais atraente e que chame a atenção dos olhos do potencial leitor pode atrair mais acessos do que o nome de uma franquia em si”.

Um portal, atualmente focado em vídeos para o youtube, que se destaca na divulgação de literatura nacional (quadrinhos), é o Pipoca e Nanquim. Existem outros canais no youtube com o mesmo perfil, mas nenhum tão abrangente como o Pipoca e Nanquim. O PN, que inaugurou sua própria editora recentemente, não foca seu conteúdo em quadrinhos específicos e também não se importa se o autor é ou não famoso, se um dos três apresentadores tiverem contato com o material, gostando ou não, eles provavelmente vão mencionar durantes seus programas.

Dentro do mercado literário o papel desses grupos, desses portais de notícias de entretenimento, é abrir espaço para mais conteúdo nacional. Não é necessário dedicar matérias gigantescas sobre o assunto, uma simples divulgação já seria de grande ajuda. Porém, nem isso acontece com frequência. Não estou falando de uma suposta responsabilidade social dos portais com os consumidores, estou falando da falta de flexibilidade para esse tipo de conteúdo.

É bem provável que todos esses questionamentos, possibilidades de divulgações e notícias sobre literatura nacional, seja de romances ou quadrinhos, passaram pela cabeça dos responsáveis pela curadoria dos portais. Não duvido que essa discussão tenha aparecido nas pautas das reuniões, mas isso não muda o fato de que muitas dessas ideias não chegaram a ver a luz do dia.

“Jornalismo não é escrever tudo o que você quer na hora que você quer”, como bem ressaltou a Bruna Penilhas, jornalista, redatora e repórter do IGN Brasil, em sua conta particular no twitter. Pode até haver o interesse em obras nacionais, mas se esses sites não tiverem retorno do público, é mais provável que a recorrência desse tipo de conteúdo não seja uma constante.

Foi dentro dessas brechas de conteúdo que os blogs/canais literários prosperaram. Os blogueiros e booktubers acabaram ocupando esse vácuo muito bem, pois ao invés de reclamarem da falta de um tipo de matéria ou notícia específica, eles simplesmente publicam seus próprios textos. É mais vantajoso escrever sobre literatura do que reclamar dos outros que não o fazem.

– Entrei em contato com o Omelete, Jovem Nerd, IGN Brasil e Garotas Geeks para esclarecimento dessas questões, mas apenas o último respondeu até o fechamento dessa matéria.

Os leitores e o papel do consumidor:

O bom e velho leitor é um dos motivos que fazem esse mercado existir. O primeiro motivo é a necessidade artística de cada autor, o segundo é o desejo de mostrar isso para os outros. Os outros são os leitores. Compras, participações em feiras, curtidas no facebook e comentários no twitter são algumas das atividades dessas pessoas que não são apenas clientes comprando uma maçã no mercadinho da esquina. Cada um tem seu papel, e o papel do leitor é ler e, se possível, fazer um pouco mais além disso.

E, falando em papel dentro do mercado, os leitores, queridos como são, não podem ser chatos. Isso é primordial! O leitor brasileiro tem o costume de ser muito apaixonado ou se sentir superior por ter o livro como modo de entretenimento. As pessoas muito apaixonadas costumam incomodar, sempre falando sobre o mesmo assunto relacionado a literatura. Se o não leitor se depara com isso, será justamente essa sensação de desconforto que ficará associada ao livro, fazendo com que o não leitor continue sendo o não leitor.

Perder arrogância sobre a literatura é outro fator importante. Você não é superior por ler um livro, você só é alfabetizado. Não são todos que têm esse privilégio. Se você só consegue associar a literatura como crescimento pessoal, passando esse ar de superioridade e intelecto através do livro, o não leitor vai se sentir inferiorizado. Se seu parâmetro é dizer que livros abrem a mente, fazem com que as pessoas pensem e fiquem inteligentes, você está automaticamente chamando o não leitor de burro. Como é possível convencer alguém a fazer alguma coisa por prazer na base da ofensa?

Tudo isso, toda essa paixão e ar de superioridade consistem em muita filosofia barata para chamar uma atividade divertida de… divertida!

Fotografia por Tania Dimas — Pixabay.

Voltemos ao exemplo esportivo: o futebol é um esporte que enaltece o trabalho coletivo sem desvalorizar as competências individuais. Os atletas, unidos dentro de campo, conseguem superar diversas barreiras e limites em prol da vitória. Esse tipo de ambiente ajuda a preparar as pessoas para as adversidades da vida, ensinando que o esforço individual é necessário, mas que você deverá atuar em equipe e sempre poderá contar com a pessoa que está ao seu lado, mesmo que suas funções sejam diferentes. Além disso, a prática do esporte é muito importante para a saúde.

Agora faço essa pergunta: o que pode motivar uma criança ou adolescente a jogar futebol?

A) Todo o contexto filosófico do parágrafo anterior.

B) Futebol é divertido, por isso as pessoas jogam.

Assinale a alternativa B e você ganhará um ponto na prova desse semestre.

Também seria interessante se os leitores participassem mais ativamente na vida dos autores. Não estou falando para seguir ciclano ou beltrano como um bom fã atua naturalmente, estou pedindo para comentar se você gostou ou não do trabalho do escritor. Uma nota no skoob ou um comentário no twitter, elogio ou crítica construtiva, faz total diferença na vida dessas pessoas. Os autores passam muito tempo sozinhos com umas histórias, eles não vão se sustentar com seus livros no início de carreira e será justamente o seu comentário, um simples “parabéns pelo seu trabalho”, que fará total diferença na continuidade dessas carreiras.

Observação: os leitores não possuem uma função técnica dentre do mercado literário, mas eles são igualmente importantes para que novos consumidores de livros apareçam, por isso esse subtítulo foi focado nesse contexto.

O Governo:

Sem querer promover muitas repetições, mas reafirmando o óbvio, é papel fundamental do Governo atuar para manter o mercado literário estável. Não importa se isso será ouvindo reclamações de lojistas ou melhorando a educação nas escolas, a responsabilidade é dos eleitos, sejam eles votados ou não por você. Sem isso, sem um trabalho voltado para o bem-estar da cultura brasileira, o Brasil não terá produtos artísticos e culturais funcionais além dos seus respectivos nichos.

O foco da nova república brasileira, e de todos os políticos que aqui passaram, não é alfabetizar, mas sistematizar o conhecimento através do rendimento social que o indivíduo representa: sabe ler e escrever, faz contas e, portanto, pode trabalhar e gerar dinheiro colhido nos impostos. Não adianta querer promover anos letivos com oito horas de aula diária dentro de vinte anos de ensino fundamental. Isso não é educação, é só memorização por repetição.

O sistema de ensino nacional é igualmente limitado aos responsáveis por o desenvolver. Fazer propostas de longo prazo, que atinjam os estudantes além de uma boa nota no vestibular, mostrando novos caminhos e oferecendo novos meios de aprendizado, é algo de inteira responsabilidade do Governo. Portanto, quando falamos das figuras do mercado literário nacional, o Governo se destaca por ser o indivíduo mais nocivo ao mesmo tempo em que é aquele que pode fazer a diferença para o incentivo à leitura dos brasileiros, fortalecendo o mercado e criando uma geração de leitores.

Considerações finais

Eu realmente acredito que uma política de ensino que desfrute da escrita criativa possa prover resultados positivos para a alfabetização de crianças e adolescentes ao mesmo tempo em que aumenta o índice de leitura entre os brasileiros. E também creio que isso será útil no amadurecimento de novos autores e artistas. O concurso de contos, minha primeira proposta majoritariamente ignorada, é uma iniciativa mais palatável se houver o medo de mexer no sistema de ensino da grade curricular dos estudantes. Mas não posso negar que a melhor ideia é do ensino de língua portuguesa através da escrita criativa.

Também espero ter conseguido explicar as complicações do mercado literário de modo não muito confuso. O correto seria finalizar pedindo sua colaboração para divulgação dessas ideias ou simplesmente solicitar sua opinião na área de comentários, mas, honestamente, já não tenho mais paciência para esse tipo de coisa.

E, ainda no ramo da esperança, espero que você tenha apreciado o artigo.

PS: As opiniões das pessoas e profissionais citados nesse artigo não representam necessariamente a opinião das empresas vinculadas aos mesmos.


Encerrar um artigo longo nunca será uma tarefa fácil. Eu tinha preparado uma piada ruim envolvendo uma alpaca dançando lambada em Machu Picchu, mas preferi manter o profissionalismo. Essa seção do texto, após as reticências, serve para esclarecer uns pontos e fazer uns agradecimentos marotos. Se você chegou aqui, isso significa que você leu mais de 10 mil palavras, então um pouco mais não vai fazer a diferença na sua vida.

Sobre as pessoas, físicas e jurídicas, ao qual entrei em contato:

Entrei em contato com vinte e quatro pessoas, entre físicas e jurídicas, para colher informações para o artigo. Fiz perguntas específicas a respeito da matéria e sobre o ramo de atuação individual de cada um. Recebi onze respostas positivas dos vinte e quatro contatos; cheguei a trocar e-mails com alguns e fiquei aguardando resposta de outros, mas, no fim, apenas três pessoas responderam às perguntas elaboradas para esse artigo.

Como o texto levanta alguns questionamentos, achei melhor avisar que procurei entrar em contato com os especialistas de cada área para poder desenvolver a matéria com melhor embasamento — autores, editores, editoras, livrarias, pesquisadores, blogs e portais. O aviso de contato sem resposta serve para isso, não escrevi para mostrar que o mercado está cheio de pessoas escrotas ou coisa parecida. Não tenho mágoas ou remorso com ninguém.

O meu plano era fazer uma postagem separada, no meu blog, com as respostas de todo mundo em um artigo separado. No entanto, como as perguntas são muito específicas, focadas nos meus desejos para esse artigo, as respostas podem não ser interessantes se lidas fora do contexto. E como só três pessoas responderam, não sei se vale a pena fazer uma “postagem spin-off” da matéria principal.

Porém, se as pessoas que responderam quiserem ver o texto de resposta delas publicado por inteiro, faço isso sem questionamentos no meu blog.

Sobre a divulgação dos meus contos e história em quadrinhos:

A Paola do Livros e Fuxicos não foi, obviamente, a única pessoa a divulgar o meu trabalho, muitos blogs também o fizeram, mas como essa não era uma postagem sobre a minha relação com os blogs literários e booktubers, resolvi não sair listando todo mundo que me ajudou. No entanto, costumo fazer isso no blog através de diversas postagens.

Agradecimentos:

Essa não será a primeira vez e nem a última que vou escrever sobre isso, mas tenho, de novo, que agradecer a Carolina Munhoz pelo apoio de sempre. Ademais, tenho que agradecer ao Erick Sama, Sidney Gusman e ao editorial do Garotas Geeks pela simpatia em responder algumas perguntas. E, é claro, agradecer as pessoas com quem cheguei a conversar anteriormente, mas que não tiveram tempo para responder as perguntas.