Sororidade não empática

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Existem vários tipos de sororidade: uma mais ou menos radical, uma mais fundamentada e outra menos. Hoje quero falar de uma sororidade que é muito teórica mas que falha na hora da empatia com relação à situação de uma outra mulher. Vou chamá-la de “sororidade não empática”.

Para ilustrar, vamos dizer que Maria é sua amiga e sempre te contou sobre seu chefe, que tem um tipo de comportamento abusivo. Você sempre foi uma boa ouvinte, sempre achou um absurdo as peripécias do fulano, até que um dia é convidada para um happy hour da empresa em que Maria trabalha, e conhece o tal chefe. A sororidade não empática então acontece em uma destas formas:

Quisera meu chefe fosse assim!

É quando invalidamos a experiência da Maria com base na nossa própria.

O fato de o seu chefe ser pior do que o de Maria ou de você ganhar menos naquela posição não invalida a dor dela. Talvez você sofra tanto quanto ela mas fale menos sobre isso. Talvez você encontrou mecanismos para se defender do seu chefe.

Não importa como você lida com a sua dor, o fato é que o sujeito, para Maria, continua sendo um problema.

Até que ele era legal

É quando invalidamos a experiência da Maria com base na nossa própria experiência com o chefe dela.

O sujeito te pagou alguns drinks, perguntou sobre sua vida, te deu atenção e agora você acha que ele não é tão mal assim. Ainda que ele continue dizendo para Maria o quanto ela se veste mal na frente dos outros funcionários, ou que um dia tenha batido na cabeça dela com uma pilha de papéis.

Mas você também não é flor que se cheire!

Quando invalidamos a experiência da Maria com base na nossa própria experiência com ela.

A Maria, como todo mundo, tem defeitos. Isso continua não dando direito ao chefe dela de ser agressivo. E a dor dela com relação àquela situação continua sendo a mesma, independente de você agora achar que ela merece o que recebe.

Poderia ser pior

Quando invalidamos a experiência da outra com base em comparações com a situação de outras pessoas.

Não dá pra comparar sofrimento. Se o chefe da Júlia além de humilhá-la na frente dos outros e dar com os papéis na cabeça dela ainda paga mal, você pode se sentir mal pela Júlia, mas você não pode dizer para Maria que a coisa não é tão ruim assim.

A dor da Maria é a soma de todos os traumas que ela teve e de suas necessidades atuais. Você nunca vai, realmente, saber como ela se sente dentro daquela situação, ainda que pra você pudesse ser pior.

Resumindo

Empatia. Reconhecer a dor do outro como legítima. Parar de competir por sofrimento. Sororidade. Respeito.

(Artigo originalmente postado na minha coluna do site Eu Sem Fronteiras)