Precisamos falar sobre a Live de Python

Em maio dessa ano a live vai fazer 2 anos e o tempo que passou não me fez parar de acreditar que esse projeto é “tosco”. Não veja isso como um adjetivo ruim, o objetivo desse texto é explorar o “tosco”.

Já contei essa história milhares de vezes, mas isso nunca vai deixar de ser verdade. A live nasceu em um dia qualquer, uma quarta feira, como uma ideia de “codar” online e me distrair da “mundana vida capitalista”. O objetivo era esse, aliviar o estresse fazendo a coisa que mais gosto de fazer: Programar. Dois anos se passaram e vejo que toda a metamorfose que rola na minha cabeça sobre os ideais que me motivam a continuar investindo todos meus domingos nesse projeto. Esse, “codar”, talvez seja o único que tenha se mantido intacto, embora ele não seja nem de longe tão “glamouroso” quanto “os ideais do software livre”, a “democratização do conhecimento”, “tentar atingir quem talvez não tenha ‘estrutura’ para chegar nesse conteúdo”, “fazer conteúdo em português”, etc.., etc…, etc…

Uns dias atrás eu estava relembrando algumas conversas que tive com minha ex namorada. Eu pincelei a ideia de estar tocando esse projeto e ela me disse uma coisa [palavras não literais] “você sempre soube que faria isso, mesmo que agisse de maneira contraria. Como se ensinar fosse uma opção pra você. Nunca foi, você é isso” e hoje as coisas estão dando piruetas na minha cabeça por pensar nessas coisas. Toda essa parada de DIY (Faça você mesmo) tem uma raiz muito forte dentro de mim. Essa sensação de “Vai lá e faz, mesmo que fique tosco”. Quando eu era adolescente a gente tinha caixotes de feira e martelos e fazia “palquinhos” pra andar de skate. Hoje eu tenho internet e boa vontade e a gente faz “““Educação”””. E embora eu tenha um certo receio de pronunciar essa palavra: educação, Educação, EDUCAÇÃO. Tive que procurar no oráculo

No seu sentido mais amplo, educação significa o meio em que os hábitos, costumes e valores de uma comunidade são transferidos de uma geração para a geração seguinte.

Então nesse caso a gente pode usar essa palavra, embora eu ainda tenha um certo medo de toda “diplomacia” que essa palavra carrega. Isso é uma maneira de fazer repasse de informações para a “nova geração”. Essa coisa de não usar termos como “Aula” vai sempre continuar existindo dentro de mim. Foi então que hoje a tarde eu estava lembrando de um matemático um tanto quanto genial, Fermat. Ele ganhou o título de “Príncipe dos amadores”. Ele era bom, ele era incrível, mas não era profissional. Ele era o melhor amador, o príncipe deles. Tanto que todas as suas descobertas foram enviadas por carta, por anotações que ele mesmo fazia em seus livros. Nada é conclusivo, ele era um amador com estilo. Esse talvez seja o ponto chave de tudo que quero dizer com a palavra “tosco”. Voltamos ao oráculo

Tosco significa rude, desajeitado ou algo no seu estado bruto

Aceitaria usar a palavra que não deve ser dita, mas só se ela for dita com tosco junto. A live é uma forma “tosca de educação”. É uma didática tosca, uma aula tosca, um professor tosco. É uma maneira descompromissada, desajeitada, não profissional, sem recursos. Mas incrivelmente cheia de boas intenções. É um “vai lá e faz com o que você tem agora”.

Dito tudo isso, entendendo que não há vergonha alguma em ser amador, inclusive me sinto mais livre para pairar sobre os outros ideais. Essa não é filosofia por trás do software livre? Compartilhar o máximo possível, desburocratizar o conhecimento, deixar acessível. É essa coisa que me atraí. Um(a) jovem feliz porque entendeu como fazer algo, que viu uma possibilidade nova em algo não fazia parte do seu repertório. Uma galera que pode passar o pouco que “ensinei” para frente e que a galera que aprendeu passe pra frente em um ciclo infinito de iterações.

O objetivo é derrubar muros, deixar acessível, aberto. Quanto mais todos vocês aprenderem, mas vocês vão ensinar e um dia tudo isso volta e não só volta em formato de educação. Mas com amizades, empregos, estrutura, sorrisos e diversão.

Me sinto honrado em fazer parte disso.