Deus Ama, o Homem Mata (ou como um gibi tem muito mais a nos dizer do que um Malafaia)

Eu sempre evito escrever sobre polêmicas. Não por me manter alheio ou indiferente a todas essas questões, mas por achar que tem gente que faz isso muito melhor e com muito mais propriedade do que eu. Só que, dessa vez, decidi fazer diferente.

Não é de hoje que uma assustadora onda de intolerância vem ganhando força no país e redes sociais como Facebook e Twitter serviram apenas para fazer com que isso se tornasse ainda mais evidente. Basta ver o recente episódio envolvendo a propaganda do Boticário ou, se puxarmos um pouco mais da memória, das várias declarações relacionadas aos direitos dos homossexuais durante as eleições do ano passado para termos uma bela noção de como estão as coisas.

E isso tudo me fez lembrar de uma história antiga dos X-Men. O grupo sempre foi conhecido por tratar questões envolvendo o preconceito, mas é em “Deus Ama, o Homem Mata” que isso ganha uma forma muito mais impactante. A revista, publicada originalmente em 1982, continua tão atual que as situações, os argumentos e a problemática parecem ter sido feitos em pleno Brasil de 2015. E isso é aterrorizante.

Na trama, os heróis precisam encarar uma ameaça diferente de vilões como Magneto ou o Apocalipse. Em vez de um perigo físico, o roteiro de Chris Claremont coloca os personagens contra os ideais extremistas de um pastor que tenta acabar com os mutantes por considerá-los uma intervenção do demônio na criação divina e, em seu delírio de limpar o mundo desse mal, dá início a uma cruzada para eliminar qualquer um que ele considera diferente ou que simpatize com a causa.

Para isso, o reverendo William Stryker convoca uma horda de fiéis para algo que ele vê como uma Guerra Santa. Com discursos animados e repletos de citações bíblicas cuidadosamente selecionadas para fundamentar sua visão de mundo, ele usa a fé tanto para atacar aqueles que odeia quanto para manter as demais pessoas reféns de seu ponto de vista. Afinal, serei um pecador se discordar?

Familiar, não é mesmo? Apesar de todo o exagero típico dos quadrinhos, todos esses elementos de “Deus Ama, o Homem Mata” são facilmente identificáveis hoje no Brasil. A cruzada de Stryker contra os mutantes não difere em nada do que Silas Malafaia vem fazendo contra os homossexuais todos os dias. As mensagens acaloradas em veículos de comunicação, a tentativa de diminuir a fé daqueles que não concordam com suas declarações e até mesmo o uso da liberdade religiosa como escudo para esquivar dos ataques e continuar com seu discurso são exatamente os mesmos.

E o que mais assusta nisso tudo é que, seja com o personagem da história ou com Malafaia, o fanatismo ganha corpo ao encontrar pessoas dispostas a dar ouvido àquilo. Embora muitos ainda se oponham aos absurdos proferidos, eles ambos têm um poder de engajar indivíduos de uma forma poderosa — e, dependendo do que é dito, perigosa. A própria revista deixa isso claro ao mostrar as pessoas dizendo que, apesar de as palavras do reverendo serem assustadoras, a forma eloquente com a qual ele diz tudo isso convence.

Podia ser o discurso de um vilão louco de gibi, mas é uma propaganda real. (Reprodução/Vila Mulher)

A principal defesa de Stryker é que mutantes não são humanos e, portanto, não têm os mesmos direitos que as “pessoas normais”. Isso é algo tão delicado que os próprios X-Men se mostram preocupados com os desdobramentos que esse tipo de pensamento pode ter. Ao cercear a lei para um determinado grupo, ele deixa de existir perante a Justiça. “Nem direitos e nem proteção também”, pondera Wolverine. “A gente pode ser exterminado como ratos, legalmente dizimados”.

Ainda que o gibi faça vários paralelos aproximando a questão com o que os judeus passaram na Alemanha nazista, não é preciso ir tão longe para encontrar esses abusos imaginados no início dos anos 80. Basta ver Malafaia dizendo que a homossexualidade não é algo natural e que a comunidade LGBT não merece direitos básicos, como o de construir uma família. Seja na ficção ou na realidade, o discurso é o mesmo e as consequências também.

E é aí que mora o verdadeiro perigo de toda a discussão. Em “Deus Ama, o Homem Mata”, as palavras de Stryker reverberam em uma parcela mais extremista da sociedade que não se contenta apenas em concordar com o que o pastor diz, mas em partir em sua própria batalha para limpar o mundo. Tanto que, ao longo da revista, vemos pessoas comuns atacando mutantes e qualquer um que os defenda como apoio ao discurso de ódio do reverendo. Eles são impuros, diz o personagem segurando uma Bíblia e selecionando versos soltos que reforcem os absurdos que ele diz.

Por mais que ele não se posicione abertamente a favor da perseguição violenta aos mutantes, o tom de seus sermões desperta esse ódio na população. Ele é apenas o fósforo que dá início ao incêndio da violência e que vai bater de frente com os X-Men ou mesmo resultar na morte de duas crianças mutantes logo nos primeiros quadros da história.

E o que há de diferente nisso em relação àquilo que Silas Malafaia e tanto outros pastores e defensores da família tradicional defendem e proclamam? Seja na ficção ou na realidade, ambos reforçam esse preconceito ao maquiar o ódio com passagens da Bíblia e instigar os fiéis a compartilharem desse sentimento. O amor ao próximo dá lugar à violência ao diferente e, consequentemente, ao medo.

Tanto que uma das passagens mais interessantes de “Deus Ama, o Homem Mata” é quando os X-Men finalmente confrontam Stryker durante um de seus sermões e destacam o quanto os mutantes precisam viver sob a sombra do medo por conta de homens como ele. E, em alguns casos, essas vidas acabam sendo abreviadas porque alguém decidiu que elas não deveriam ser diferentes.

A revista cria um vilão caricato para apresentar um problema real da sociedade americana dos anos 80 e, três décadas depois, essa figura exagerada aparece fora dos quadrinhos com o mesmo discurso de preconceito disfarçado de religião. É claro que não temos grupos de extermínio de gays como os Purificadores de Stryker, mas é bem assustador pensar que a cruzada louca de Malafaia não está muito longe disso.

O simples incômodo da comunidade evangélica e a tentativa de tirar do ar um comercial apenas porque este mostrava dois homens se abraçando mostra o quanto essas palavras de ódio conseguem mobilizar aqueles que estão dispostos a ouvi-las.

Mais do que isso, basta ver como o pastor e todos aqueles que concordam com ele se empenham em dizer que não existe homofobia no Brasil e que todos os crimes contra homossexuais nada mais são do que infelizes coincidência. Eles distorcem estatísticas para provar um ponto e justificar seus atos, diminuindo a luta dos demais.

Ou será que medo que um casal gay tem de sair na rua é completamente infundado? Ao contrário dos irmãos mutantes que morrem sem entender o que está acontecendo nos quadros que abrem a revista, centenas de homossexuais sabem muito bem o risco que correm ao demonstrarem afeto publicamente. Dados de novembro do ano passado da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República mostram que um gay é vítima de violência por hora no Brasil e é bem difícil achar que isso é apenas por acaso.

Como esquecer dessas palavras, não é mesmo?

E talvez essa seja a grande sacada de “Deus Ama, o Homem Mata”. Como o próprio título sugere, não se trata de um ataque à religião, mas daquilo que os homens fazem em seu nome. É sobre a intolerância que se disfarça de fé e de como as pessoas usam a Bíblia para justificar seus preconceitos.

O nome escolhido para a história é bem certeiro: o Deus que eu conheci ao longo dos vários anos em que estive na Igreja em nada se parece com a figura impiedosa que os evangélicos apresentam nas redes sociais e mesmo fora delas. Parece que muita coisa mudou desde que fui a um culto a ponto de eu não me reconhecer mais entre esses “cristãos”.

Essa ponderação é feita por um dos personagens da história e reflete também uma frase muito boa que a apresentadora Marília Gabriela disse ao próprio Malafaia durante uma entrevista em seu programa: “Que o meu Deus, que não sei se é o mesmo que o seu, te perdoe”.

A realidade não está tão diferente da ficção, não é mesmo (Reprodução/Info Botucatu)

E é exatamente essa a impressão que fica. O Deus que me foi apresentado quando criança é completamente diferente deste que as pessoas usam para atacar os outros. E não é o fato de citar uma ou outra citação da Bíblia que vai me fazer acreditar que estamos falando a mesma pessoa.

Por fim, naquele mesmo diálogo entre Ciclope e Stryker, o mutante questiona se os rótulos dados pelo pastor são mais importantes do que o modo como eles levam sua vida ou do que cada um realmente é. E esse é o tipo de levantamento que parece faltar aos Stryker da vida real. Aos Malafaias, aos Felicianos e a todos aqueles que abraçaram a cruzada sem sentido contra a liberdade dos outros.

Por sorte, ainda há esperanças (Reprodução/Jornal Opção)

Afinal, essa luta é realmente santa quando você deixa de lado tudo aquilo que a Bíblia apresenta para se concentrar apenas no ódio? Pois a história mostra bem que, na tentativa de se aproximar de uma missão divina, muitos se perdem e viram monstros sem ao menos se darem conta disso.

“Deus Ama, o Homem Mata” pode não ser nenhuma obra-prima, mas é um dos melhores exemplos de como os quadrinhos conseguem ser muito mais do que um entretenimento vazio e transmitir mensagens que muitas vezes outros meios simplesmente ignoram. Eles são a prova de que, às vezes, um bando de fantasiados pode ser mais sensato que um líder religioso.