Pó tornou-se poeta
Sep 4, 2018 · 2 min read

Morada na mente


Toc Toc Toc, o som da minha mão leve, porém firme na porta cercada de muros gigantescos, foi tão audível que não havia outra opção se não abrir. Pude entrar, e quando entrei, ela me contou que já fazia algum tempo que ninguém batia, com um sorriso envergonhado e ainda lutando contra si mesma para não permitir a restrição da entrada com o corpo, me deixou seguir o corredor para dentro de sua casa.

Ao entrar, também percebi a bagunça. Com cômodos irreconhecíveis, tudo aquilo que não estava quebrado, faltava muito pouco para estar. Aparentemente consequências de promessas não cumprida.

O que havia prometido? Prometeu que mataria a todos! Esquartejaria cada um deles e depois jogaria cada uma das partes a sete palmos debaixo da terra. Era para todos estarem mortos! Mas não estavam. Ela não os matou, não teve a coragem. Manipulou-se e convenceu-se de que eram necessários.

_Por que ainda estão vivos? — Em meio a soluços, respondeu-me:

_Sou apegada a eles, são como filhos.

Continuou a explicar que em vez de assassiná-los, tentou colocá-los para dormir, depois de alimentá-los com insegurança e medos não resolvidos. Entretanto, ainda estavam muito ativos, agitados. Coitada, acreditou ter força o suficiente para domá-los. Foi firme, estabeleceu: era hora de dormir! — Mas permitiu que brincassem um pouco mais com suas esperanças e convicções antes de colocá-los na cama, “eles vão dormir!” e com algumas músicas de ninar cantaroladas, foi dito e feito, me contou um pouco mais animada. Pegaram no sono. Essa era a parte favorita da história para ela, quando haviam dormido.

Funcionou por um tempo, é verdade. Durante esse tempo sentia-se mais viva! Dona de si! Porque ela não havia compreendido, eles sempre acordam pior do que antes estavam; mais ferozes e famintos. Contava com uma falsa esperança nos olhos, pois os dias em que permaneceram anestesiados de sono foram excelentes e calmos.

No entanto, com ou sem compreensão, eles acordaram superando suas habilidades anteriores, não satisfaziam-se com pouco, queriam frustrações, cada vez mais e maiores. E dessa vez não dormiam ou brincavam, apenas alimentavam-se, enquanto ela, na espera de algum cansaço da parte deles, balançava o berço, na esperança de estimulá-los ao sono. Os demônios haviam crescido tanto que berravam na espera de mais uma refeição. Ela me disse que ia queimar tudo, já não aguentava mais, queria encontrar paz em meio as chamas.

Mas não há paz em meio a chamas.

Fizemos juntas um exercício de respiração, até que ficasse mais calma, lhe ofereci um copo d’água. Ela abriu os olhos.

_Antônia, a sua sessão acabou. Fico feliz que voltou, o que eu posso fazer por você? Ou melhor, o que eu posso dizer a você? Vou te passar algumas receitas, você pode começar com a medicação ainda hoje, de preferência.