Pokemon Go

1.

A primeira vez que eu joguei pokemon go eu tinha 9 ou 10 anos. Nem existia o jogo, e eu saía de casa com uma secretária eletrônica estragada na mão, capturando vários pokemons. Quem conhece Brasília, sabe que entre as casas no plano piloto sempre tem muita área verde. Inclusive eu ia num clube que tinha perto de casa, passava horas jogando. Eu ia sozinho, e eu tinha vergonha de brincar com mais drama e teatro, afinal, até eu explicar praquela tia ou vizinha o que era pokemon, não valia a pena.

2.

Assim que eu fiquei sabendo que tinha lançado o jogo, eu baixei no celular. Já tinha ouvido falar do jogo mas nunca imaginei que eles lançariam no Brasil. Quando fiquei sabendo até baixei um aplicativo que dizia se já tinha lançado ou não. E lançou. E eu baixei imediatamente.
Já era noite em Brasília, então me resumi a andar em volta de casa, entre as ruas, num caminho que eu achava seguro pra aprender a jogar um jogo com o celular na mão o tempo todo e eu distraído com quela tela. Escolhi Bulbassauro, que sempre foi o meu preferido, mas que no jogo antigo não era bom de começar o jogo. Pokemon Blue, meu primeiro. 
E aí começou um problema: eu não achava nada. Rodei várias vezes, conheci algumas pokestops (algum lugar especial marcado no jogo, onde você coleta itens). Mas não achei nenhum pokemon. E aí apareceu um pidgey. Eu fiquei tão feliz. Já tava andando em círculos a algum tempo e era a primeira interação que eu fazia de verdade com o jogo. Gastei algumas pokebolas mas consegui pegar no jeito.
Ai fiquei feliz mas já tava cansado e faminto, resolvi voltar pra casa e tentar aprender mais sobre o jogo. Aí entrei em tudo quanto é site, revirei o youtube vendo vídeos sobre o jogo. Tudo acontecendo fora do Brasil há algum tempo e já era comoção. Aprendi tudo o que tinha pra aprender:
Como rodar a bola antes de jogar ela, desviando pro lado pra ela pegar efeito e te dar mais pontos e te ajudar a pegar de forma mais fácil os pokemons; Como evoluir os pokemons pra ganhar mais experiência; E principalmente, que o jogo vai evoluindo de acordo com o que você joga.
Não adianta chegar tentando ser esperto e chegar lá em cima sem andar muito por aí. Você vai capturar muito pidgey, muito rattata, no máximo um caterpie. Mas aí você vai ganhando nível, e aí você vai achando coisas diferentes, e ai você vai curtindo mais o jogo e interagindo com aquilo de outra forma. E aquilo vai te realizando de uma forma, que você até quer sair de casa e andar por aí. E quanto mais você sai, mais você descobre coisas.

3.

Parque da cidade. Tinha anos que eu não ia no parque da cidade. Até tinha ido ali a algum tempo mas só por fora, num estacionamento mais vazio. Ir de verdade, lá no meio daquela área imensa de nadas e, ás vezes, tudos, nunca mais tinha ido. E aí eu descobri que no meio do parque da cidade, havia um ponto de jogo muito bom pra jogar. Tanto na lógica do jogo, que seleciona espaços públicos muito frequentados pra incluir pontos de interação; quanto da lógica da história onde você encontraria os pokemons em parques e bosques. 
Quando eu era pequeno, meus pais me levavam sempre no parque da cidade. Parque Ana Lídia foi o primeiro parque de diversões que eu fui na vida. E nem tinha montanha russa nem nada. No máximo um foguete. Saímos, eu e meus primos, tão sujos, que voltamos a pé pra casa. Era supostamente perto de casa.
Nicolândia foi meu segundo parque de diversões. Esse já tinha as coisas que giram, que te dão susto, todos muito altos pra eu, que morro de medo de altura. Mas a gente também ia, e de galera. Depois Eu fui na minha adolescência. Um dia até pra fumar narguilê de madrugada perto do lago. Aquele lugar, que era perigoso, nunca me fez mal, por um acaso. 
Voltei ali, entre tudo aquilo, agora com celular em mãos, ouvindo música num fim de tarde. Vamos caçar pokemons. Agora, com todo mundo olhando, um pouco tímido, mas tinha começado minha jornada. Levei até garrafinha na bolsa com água pra não passar sede. E segui em frente, e comecei a perceber outra pessoa fazendo o mesmo. E agora um casal, e um grupo de amigos. Continha a risada interna de ver tanta gente vivendo quase a mesma experiência que eu, na mesma hora, mas de perspectivas completamente diferentes. Saía um sorriso. E ai fui andando e jogando muito. Dessa vez, achava pokemons o tempo todo, a jogabilidade era incrível. E quanto mais eu jogava, mais o jogo me deixava jogar. E eu ficava animado. E jogava agora com muito menos vergonha, as vezes aquele sorriso até era respondido por um transeunte, “você também, né?”. 
E uma das pokestops começou a piscar em rosa. Eu tinha ouvido falar daquilo. Lure Module. Ou uma forma de um ponto específico no jogo beneficiar a todos os jogadores igualmente, distribuindo pokemons de todos os tipos, inclusive alguns novos. E juntou uma roda em volta da placa com o mapa de brasília, todos com celular a postos. Todos juntos. O mesmo objetivo: capturar aquele pidgey de novo.

4.

Um amigo me convidou pra casa dele e eu o convidei pra uma jornada pokemon. Hoje, depois de um papo e uma brisa olímpica, iríamos nos meus lugares preferidos pra se ir de madrugada na cidade. Praça dos Cristais, no setor militar urbano, com um lago no meio e alguma vegetação em volta, que nos renderia no mínimo algum pokemon novo. Um dos lugares mais quietos de madrugada, e muito segura, por ser uma área militar, com vários guardas andando, inclusive por ser regido por lei militar, então nem bebida era permitido. Não teve muita coisa, mas rendeu alguns pontos e umas pokebolas. Deveríamos seguir em frente.
Naquele mesmo caminho, uma igreja onde tinha aparecido um rattata no celular do copiloto. Depois funarte, onde havia a ocupação, então era seguro. Achamos nosso primeiro desconhecido da noite que também jogava. Alguns pokemons e pokestops, de volta pro carro. Próxima parada: Praça dos Três poderes.
Quem é brasiliense sabe que, além de muito segura de noite, é ponto de encontro da madrugada brasiliense. Atrás do congresso nacional, com vista privilegiada do H. Não importa a hora, você sempre vai encontrar um casal de mãos seguradas, ou um grupo meio bêbado que veio de uma festa, ou alguma pessoa andando a esmo. No mínimo, você vai estar vendo um guardinha ao fundo, perto do supremo. 
Descemos do carro, e já dava pra ver um grupo com celulares em mãos. Comentamos entre nós. Fomos andando, tentando passar perto de todas as pokestops. Algumas outras pessoas fazendo o mesmo. Todos rindo e falando alto em grupos, ou alguns sozinhos mais timidos. Porém todos no mesmo ritmo, andando por ali, num monumento tão histórico e tão símbolo de Brasília.
E aí a pira da pátria, famosa tocha, começou a brilhar no mapa com pétalas rosa. Corremos, tentando capturar o que saíria dalí. Nos rendeu muita coisa, agradecíamos mentalmente a quem quer que houvesse ativado aquele Lure Module. E aí, o panteão da pátria começou a brilhar. E aí o mastro da bandeira do Brasil começou a brilhar. O busto de Tiradentes também. Até os banquinhos. De uma vez. A comoção era geral, ouvíamos os gritos de vitória quando cada um de nós capturava um pokemon novo e bem difícil de achar. E cada vez o grupo parecia maior e maior, e mais gente com celulares a postos apareciam. De todos os lados você via grupos de pessoas comemorando juntas sem se conhecer, Você via papos começando entre desconhecidos. Teve até um cara que disse que tava cansado de ficar em casa vendo série e arriscou ir ali. As 2h da manhã de uma sexta feira. Eu particularmente nunca tinha visto aquele lugar tão cheio. Menos ainda, cheio de gente engajada no mesmo objetivo. Todas fora de casa, todas no meio de Brasília, jogando juntos, conhecendo gente nova num lugar tão improvável. Mas ao mesmo tempo fazia todo o sentido.
Tive que repetir a jornada no outro dia. Agora, um pouco mais experiente, voltei ao parque, mas andei por um lado diferente e me deparei com pétalas rosa. Várias, ao mesmo tempo. Corri naquela direção, sem nem saber exatamente pra onde estava indo. O mapa daquele jogo te engana bem com proporções e as vezes o perto não é tão perto. E dei de cara com o parque Ana Lídia. Havia ido ali pela ultima vez quando moleque. E apesar de perto, não havia entrado ali. E eram sete pontos, todos brilhando em pétalas rosa. Dei voltas achando que não precisaria entrar, quando vi correria. Muita.
Correria pra quem joga pokemon go significa coisa boa. Me distraí com aquela movimentação que só crescia, um círculo de pessoas que só aumentava. Um Drone pairava ali, provavelmente observando aquilo sem entender, como eu, como alguém que passava ali. Dois garotos me perguntaram o que era aquilo. Disse que não sabia, mas que muita gente tava jogando aquele jogo novo daquela série que fez sucesso tanto tempo atrás. Eles ríram. Tinham certeza de que era.
Fiquei ali observando, muito entretido com aquilo quando dispersou. Rápido, alguns iam prum lado, outros pra outro. Muita conversa. Um blastoise apareceu. No meio daquele parque. Alguns tinham visto, uns conseguiram capturar, outros tristes por ter visto ele fugir. E aí deu pra perceber quanta gente era. Aquele parque estava lotado. Vi mães e pais com os filhos jogando. Vi adolescentes de todo tipo jogando. Vi gente que supostamente não pertencia ao parque. Tanto com roupa do escritório, tanto com seus muitos anos. Juro, nunca tinha visto tanto tipo de gente misturado. Conversando entre si ou não. Dando informações do jogo pro colega ou não. Ensinando como jogar ou não. Interagindo com aquilo, ou não. Tinha até gente que não tava jogando.
E ninguém nem sabia quem tinha ativado aqueles pontos. Aqueles heróis que a gente não sabe o nome, mas respeita. Aquele momento aconteceu por causa deles. Tanta gente junta se divertindo junta, jogando junta, fora de casa, ocupando Brasília. É, e esse momento aconteceu por causa desse jogo.