Não fique de boca aberta, Zé!
Ai, ai, Zé Maria. Tu que é chamada pelo apelido, tá longe de ser uma via calma. Zé tem que tomar cuidado, Zé!
Tem Casa Amarela, mas antes da casa rosada, um fino uma fechada e no sinaln uma parada. Chego lá, olho para trás, o gesto e os lábios ditavam:
“Tem que ir para o cantinho”
Num breve lampejo de sanidade, Zé aponta para mim o trânsito na frente ao qual eu colidiria, desvio e continuo no meio. Ao lado de Lígia, longe das portas dos carros e ocupando a faixa, o sorriso acaba quando Zé!!! Tem que tomar cuidado, Zé!!! Mas Zé passa ao meu lado, fungando cangote, 5 cm do guidom, propositais, de birrinha. Zé, ia parar no sinal…
Preparei o “ariete valenciano” (em breve nesse canal), o sinal abriu e lancei de catapulta. A bicicleta subiu um metro e alcançou dois. Não alcançou o carro, mas o motorista desceu. As calças folgadas me davam calafrio de que teria uma arma na bunda. Mas eram só murros que queria desferir. Eu dei ré enquanto avançava com a voz, contraditório para enganar predador.
A filha do Zé conversava com Lígia lá na frente, ele desistiu e voltei filmando. E aí começou um truelo (duelo a três) da modernidade. Cada um com seu celular, filmando e contando a história que quisesse para a câmera, cada um na sua perspectiva, cada um que ameaçasse xingar muito no Twitter.
“Vão pra casa!” — um transeunte acertadamente lançou.
Saquei um canhão: já está ao vivo no Facebook. Recolheram e correram para dentro do veículo, antes da fuga, tomei a frente, no meio da via, filmando para trás, motorista super paciente, diferente do que veio antes. Ué. Finalmente tomando cuidado, Zé!
Nos livramos. Livramos? Não muito… Enquanto seguíamos caminho, uma voz suave surge atrás:
“Vocês aceitam conversar um pouquinho?”
Claro, como não? A filha conversa com Lígia e ele conversa comigo, casal paulista que chama? Ele vem dizer mais uma vez que tem câmera, que a gente é gente de bem, que vamos deixar pra lá.
“Você quase me derruba”
“Mas eu não lhe acertei”
Ah, miserável! Quer que eu acalme com isso? Falei que era ativista e que até vídeo tirando sarro com essa afirmação já havia feito.
Troca de casais. Veio a filha conversar comigo:
“Os dois estavam errados, nosso país cada vez mais violento, governo fascista, etc”
“Estamos juntos nisso, mas o que seu pai fez foi violento em desigualdade, enquanto eu tirei no máximo um segundo de vocês, ele quase tira minha vida. O carro é uma arma.”
Ela estava ao meu lado. Já Lígia escutava de a Zé:
“Eu poderia alegar que não vi vocês, que estão sem luz”
“Não, não pode, primeiro que estamos de refletivo, depois que você olhou nos meus olhos e disse pra onde eu deveria ir e passou perto porque eu não obedeci”
Ele mostrava a câmera que filma atrás do carro, pedi que me enviasse o vídeo que eu publicaria como troféu. Ninguém riu. Eu ri.
O papo meio que acabou. Parabenizei a filha, fomos embora. Estou calmo. Acho que tudo acalmou. Mas o clã das bicicletas voadoras está chegando.
Entrou pela frente
Saiu por detrás
Puxou por um lado
Mexeu e lá-vái
José não tem medo
Nem do satanás
Não fique de boca aberta Zé
Em cidade que for chegando
Terra alheira, pisa no chão devagar