A Morte e o Retorno do Superman

Como o hype e a relevância do personagem tornaram uma história apenas média um marco das HQs

A capa é até hoje icônica e pode ser vista em camisetas

Lembram quando o Superman morreu? Eu lembro bem, foi em um longínquo 1993. Eu ainda não sabia ler (tinha 4 anos), coube ao meu pai a tarefa de ler os balõezinhos para mim.

Depois disso, não lembro de ter me preocupado com essa história. Lembro que a coloquei naquele saco de “coisas que não prestaram nos anos 90”, década que sofre muito preconceito (por mim inclusive) por seu conteúdo no mínimo duvido de caras bombados com passados misteriosos usando armas gigantes para enfrentar monstros gigantes e bombados. E minas com peitos anatomicamente impossíveis de tão grandes.

Uma conversa entre amigos me fez perceber que eu não lembrava de praticamente nada da história. Superman e Apocalipse se socaram até a morte, era o que eu sabia. Mas seria só isso a história?

Por que Superman precisava morrer?

Superman clássico por Curt Swan

Para você entender a morte, primeiro precisamos contextualizar um pouco o personagem, que não era aquele que conhecíamos dos desenhos dos Superamigos e dos filmes do Christopher Reeve.

Depois da maxissaga “Crise nas Infinitas Terras” zerar o universo DC que conhecíamos, o Superman original — cujas histórias remontavam até a Action Comics nº1 de 1938 — teve sua história encerrada de maneira brilhante em “O que aconteceu com o Homem de Aço”, escrita por Alan Moore, que dispensa comentários, e desenhada por Curt Swan, principal desenhista do personagem desde o final da década de 1940.

Uma das melhores histórias de origem do personagem

A criação do novo Superman foi entregue ao escritor e desenhista John Byrne, grande sensação dos quadrinhos dos anos 80, que participou de, entre outras coisas, a melhor fase dos X-Men (junto com Chris Claremont). Byrne escreveu e desenhou uma nova origem para o personagem na minissérie “O Homem de Aço”, reformulando o personagem e eliminando elementos mais fantásticos das décadas anteriores e diminuindo os poderes do Azulão.

Devido a conflitos editorias, Byrne se demitiu e o personagem foi assumido por uma equipe de escritores, entre eles: Roger Stern, que teve uma fase de muito sucesso escrevendo o Homem-Aranha e os Vingadores no início dos anos 80; e Louise Simonson, responsável pela melhor fase do X-Factor (grupo que reunia os X-Men originais).

“Eu fui enganada por um par de óculos esse tempo todo?”

Uma das mudanças realizadas por Byrne foi a alteração do clássico triângulo amoroso — Clark Kent ama Lois Lane que ama o Superman — durante a reformulação, com o tímido repórter se tornando um homem corajoso, ex-atleta universitário e escritor de sucesso. Lois começa a se interessar cada vez mais pelo seu colega, eles começam um caso e Clark faz o famigerado pedido de casamento, pouco depois inclusive revelando sua identidade secreta, após mais de 50 anos de mistério.

Superman iria casar.

Se você tem mais de 25, você lembra

Nessa mesma época começou a produção da série Lois & Clark — As novas aventuras do Superman. A direção da DC decidiu então segurar o casamento para coincidir com a série, se a mesma fosse tão longe. Era preciso fazer algo para preencher o espaço desse arco. Não a mais brilhante das ideias, mas enfim, DC Comics.

Nas reuniões que o grupo editorial fazia para decidir em conjunto as novas histórias do personagem, uma piada recorrente era alguém dizer “vamos matá-lo”.

Dessa vez não pareceu uma ideia tão ruim.

Quem pode matar uma lenda?

Todos que estão familiarizados com quadrinhos sabem que o Superman é basicamente indestrutível. Derrubá-lo não é fácil, mesmo para os personagens mais poderosos da DC.

Senhoras e senhores, o assassino!

Os editores da DC então resolveram bolar algo novo. Criar um vilão específico para vencer o Superman. Seu nome? Apocalipse (Doomsday).

Aqui começa minha crítica com a história. Ao invés de fazer o herói ser vencido por um velho oponente, alguém que os leitores se importem, invocar um personagem do nada para uma luta contra Clark parece uma solução um pouco fácil e preguiçosa. Cadê Darkseid, Brainiac, o Lobo… até uma armadilha mortal criada por Lex Luthor? Um bom exemplo é ver o que Moore fez em sua “morte do Superman”.

Facepalm

Na última página das revistas do herói, acompanhamos uma mão verde batendo em uma placa de ferro. No decorrer das edições vemos que a mão na realidade é cinza, com ossos saindo das juntas, e o verde é apenas uma roupa. Isso é chamado como “Apocalipse está chegando”. Na última edição ele destrói essa placa de ferro, que parecia ser uma espécie de capsula onde estava preso e começa seu rastro de destruição.

Retroativamente sua origem — como um ser criado na Kripton pré-histórica como a Arma Perfeita — foi desenvolvida, mas quando enfrentou Superman na “Morte…” nada disso existia. Era só um monstro grande (e bota grande nisso), feio, cinza e que grunhia. Não havia razão ou motivação em suas atitudes. Ele apenas destruía tudo.

Porrada!!!

Provando que QUALQUER UM pode ser membro da Liga

Quem luta primeiro contra o vilão é a Liga da Justiça Internacional, composta por Gladiador Dourado, Besouro Azul, Guy Gardner — que na época havia sido expulso dos Lanternas Verdes, e usava um anel amarelo que conseguiu com o Lobo (???) — Fogo, Gelo, Máxima e Bloodwind. Poucos tem condições de até mesmo resistir Apocalipse por alguns instantes em combate, e a Liga é facilmente desmantelada, com seus membros entre estados que vão desde muito machucado e incapaz de lutar até praticamente morto.

Superman (na época um membro da liga, que não estava na ação devido a sua participação em um talkshow) chega nessa luta um pouco depois, e esse é um dos momentos que sua importância no universo DC é melhor exemplificada.

O pau comendo FORTE

De total desespero, os membros da liga se tranquilizam, sabendo que se alguém pode vencer o monstro é o Azulão. Mesmo eles, membros do mais poderoso supergrupo da Terra, não se comparam ao podre bruto e credibilidade que Homem de Aço inspira.

A partir dai a história é bem rápida. Superman e Apocalipse lutam e em seu caminho destroem muitas coisas, até a batalha chegar em Metropolis. Alguns personagens tentam ajudar, mas não são capazes de interferir. Acontece uma contagem regressiva no último mês, com quatro quatros por página faltando quatro edições, três, dois na penúltima e a última edição é composta apenas por painéis de página inteira, onde eles se socam sem muitas interrupções até que depois de um grande soco onde os dois se acertam ao mesmo tempo e caem. Clark pergunta se Apocalipse caiu, Lois diz que sim, e ele morre.

Rocky III

Apesar de seus momentos de grandeza, como a cidade tranquila com a batalha, ciente que seu herói não iria falhar (mesmo Luthor não acha a situação perigosa até bem no final), assistir o maior herói de todos morrer numa disputa de socos com um monstro que nem mesmo fala ou tem algum objetivo é bem decepcionante.

A história consegue criar uma atmosfera de tensão, repetindo que o Super é o maior de todos, o único com condições de parar a fera, mas tudo se resolve muito rápido. Não existe aquela virada surpreendente ou um sacrifício do herói. Os personagens só se socam até a morte, como se fossem dois bonequinhos numa brincadeira de criança.

Indiscutivelmente um dos momentos mais clássicos dos quadrinhos

Enrolação para um amigo

Depois da morte, começou uma saga chamada “Funeral para um amigo”. Talvez o maior filler de todos os tempos. O Superman morreu, mas as revistas precisavam continuar. A equipe decidiu então escrever as repercussões de um mundo sem seu maior herói. A cena do funeral então foi tocante, com todos os heróis atendendo e o presidente Clinton (sério, ele mesmo) fazendo discurso.

Um furo no roteiro é o fato daqueles que sabiam da identidade secreta do herói (os Kent, Lois, Lana Lang e a Supergirl) resolveram manter segredo mesmo após a morte do mesmo, e nem inventaram uma desculpa para o sumiço de Clark. Isso facilitou quando ele voltou, pois estava apenas perdido nos destroços, mas né?

Outro furo enorme é o fato do seu corpo regenerar mesmo depois de morto. O que é inclusive comentado por um dos personagens: “Mas gente, vocês tem certeza que ele morreu? As feridas todas cicatrizaram!” “Não dê atenção a isso”.

Uma leitura bem divertida

Nos Estados Unidos foi publicada também uma edição da Newstime (a Time de Metrópolis) imitando uma revista de verdade, com matéria sobre a morte, o fim da Liga da Justiça e uma longa lista de famosos (tanto reais quanto fictícios) falando sobre o Homem de Aço. Inclusive com anúncios das empresas clássicas como Wayne Tech, Ferris Aicraft, LexOil e outras.

Jonathan Kent tem uma experiência de quase morte, e ajuda seu filho a expulsar demônios que queriam tomar seu corpo, o que pode ser considerado mais uma preparação para o que virá.

“Oh não, Superman sumiu da tumba de novo!”

“Funeral…” porém pode ser resumido no enterro, pessoas roubando o corpo de Super (acontece duas vezes) e alguns novos super-heróis surgindo para tentar preencher o vácuo deixado pelo Azulão.

No final da saga, surgem quatro personagens que podem ser o herói retornando.

O Retorno do Superman

Os quatro sucessores

Esses quatro são os pretensos Supermen: o Superciborgue, que alega ser o Superman, só que sem memória e com várias modificações cibernéticas e capaz de controlar máquinas e computadores; o Último Filho de Kripton, que alega ser o Superman (apesar de eu nunca ter achado o personagem parecido com Clark, mas isso pode ser coisa do desenhista), só que frio e implacável, matando criminosos sem piedade; Superboy, um clone adolescente do herói, que apesar de bem intencionado é facilmente distraído por fama, dinheiro e mulheres bonitas; e o Homem de Aço, que não alega ser o Superman, mas é apenas um superatleta e gênio engenheiro cuja vida foi salva pelo herói e montou uma super armadura de sucatas — quadrinhos, né! Cada um deles estrela uma das revistas mensais, respectivamente Superman, Action Comics, Adventures of Superman e Superman — Man of Steel.

Hoje uma capa assim seria impensável

Ciborgue primeiro ataca a sede do CADMUS e envia o corpo de Apocalipse para o espaço (no final vemos que o monstro ainda está vivo, o que já prepara o caminho para Revanche), depois salva a Casa Branca de um atentado terrorista, se encontrando com o presidente Clinton. Seu arco não chega a lugar nenhum, ele só está lá.

O Último Filho de Kripton é uma espécie de representação dos heróis do início dos anos 90. Ele desce o sarrafo, mata e não dá importância a nada, exceto uma missão de justiça que ele cumpre mais como um dever que como algo que realmente se importe. O personagem vai se humanizando e repensando suas ações aos poucos, principalmente depois de uma luta com Gardner.

Superman adolescente dominado pela balaca

O Superboy começa a realizar atos de heroísmo, mas também não perde tempo em dar em cima das mulheres que encontra e tentar se aparecer. Logo faz um acordo com uma rede de TV que começa a acompanhar seus atos. Ele conhece a Supergirl, e essa da em cima dele para que ele aceite um contrato com a LexCorp.

O Homem de Aço é um herói das ruas, cuja origem e arco não são muito interessantes. Mesmo assim ele conseguiu ser um herói com revista própria e moderado sucesso, inclusive com ele se tornando membro da Liga da Justiça. No Retorno é dito que ele é o que mais parecido em comportamento com o Superman, mesmo ele não alegando ser o mesmo.

Ciborgue pegando o Último FIlho por trás

A história começa a andar quando descobrimos uma nave enorme chegando em direção a Terra. Ela aterriza em Coast City (cidade de Hal Jordan) e o Último Filho de Kripton está na região. Ele encontra o Superciborgue, que o ataca sorrateiramente e o “mata”, revelando-se um super-vilão.

Superboy então é chamado e depois de uma rápida luta, também é derrotado. Só que ao invés de matar, Ciborgue só o prende e conta alguns dos seus planos, num acesso de vilão de James Bond. O “Garoto de Metrópolis” escapa pouco depois. Nesse meio tempo “alguém” foge da Fortaleza da Solidão.

Erradicador em sua primeira forma humanoide

Esse “alguém” é na verdade o verdadeiro Superman. Aqueles demônios tentando levar a alma do Homem de Aço na realidade eram o Erradicador, seu antigo inimigo tentando possuir o corpo do herói. Devido a possessão, ele começou a achar que era o próprio Homem de Aço. Ficamos sabendo da existência do “coma de recuperação” dos kriptonianos, que é igual a morte (olha o golpe que os roteiristas deram). A possessão não deu certo, mas o Erradicador então criou um corpo idêntico ao do Super, acreditando ser o mesmo — explicando então o Último Filho de Kripton. Como ele não conseguia absorver a luz solar, usava o corpo do Superman original para bombear a mesma.

Os anos 90 chegam para o Superman

O Superman acorda e foge, usando um robô de proteção, uma roupa preta e… mullets. Os heróis se encontram em Metropolis e decidem atacar Coast City, agora chamada de Cidade Mecânica.

Começa a luta final contra Ciborgue e seu servo, Mongul. Durante a luta vemos um Superman vestindo preto, com um símbolo prateado e usando cartucheiras e armas (não se esqueçam dos mullets, por favor). Os anos 90 tiveram um orgasmo, tenho certeza. Faltou só o braço mecânico, mas o Ciborgue compensou isso.

Descobrimos que Superciborgue é na verdade Hank Henshaw, uma espécie de paródia de Reed Richards. Com origem igual ao do Quarteto Fantástico, sua esposa fica invisível — na realidade, começa a mudar para outra dimensão — enquanto o corpo dele começa a se desfazer. Ele a salva com ajuda do Superman, e morre. Na realidade, ele se transfere para outro lugar e constrói um corpo robótico. Quando reencontra sua esposa, ela se apavora e se mata. Então ele rouba a nave que o Super chegou a Terra, que estava de posse da LexCorp, e foge para o espaço.

Acidente no ônibus espacial faz os 4 ganharem super-poderes

Ele encontra e subjuga Mongul, e ambos vão para a Terra para torna-la um novo Mundo Bélico, uma espécie de planeta superfortaleza móvel. Coast City foi o local selecionado para abrigar o primeiro motor movido a kriptonita (o que me faz pensar no tamanho original de Kripton, não é possível que tenha tanto desse material espalhado pelo universo).

A luta é desparelha, com os heróis incapazes de resistir aos poderes dos vilões, que terminam sua aliança. Um enfurecido Hal Jordan e o Erradicador (restaurado) chegam para ajudar os heróis.

Chega a cavalaria (conste que o Erradicador não luta com essa aparência)

No final Hal derrota Mongul e o Erradicador vence Ciborgue na revanche entre ambos. Quando Ciborgue tenta matar Superman com um duto de kriptonita o Erradicador intercepta a rajada. A energia passa através de seu corpo e atinge o Super, fazendo com que ele recupere seus poderes originais — porque o Erradicador usa energia solar também, e seu corpo é feito no molde do Azulão… enfim, não é tão forçado assim.

Inclusive é uma cena foda

No final, o renovado Homem de Aço destrói Ciborgue e ganha seu uniforme original de volta. Após quase um ano o status quo retorna, e terminamos a história com o bom e velho Superman que conhecemos e amamos. Exceto os mullets, que ficaram mais um tempo.

Inclusive quando “encontraram” Clark, curiosamente ele usava os mesmos mullets. E seguiu usando por um bom tempo. Ninguém percebeu a similaridade no cabelo também, aparentemente porque Clark usava ele em um rabo de cavalo, e o Super solto.

(Acho que todos concordamos em não mencionar que logo depois ele virou o Superman Elétrico e depois se dividiu em dois seres diferentes, certo?)

O Homem de Aço voltou (com o penteado do Mel Gibson em Máquina Mortífera)

Consequências e repercussões

A morte do Superman virou notícia no mundo todo. Jornais dos mais variados lugares do mundo, inclusive Brasil, noticiaram. O grande público acreditou que seria o fim de uma lenda, enquanto os fãs ficaram reticentes, afinal ninguém morre nos quadrinhos.

A Editora Abril, responsável pela publicação das aventuras do herói no Brasil naquela época, resolver se aproveitar do hype e lançar a história antes do momento certo cronologicamente (sempre existiu um deficit entre as publicações nos EUA e aqui) em edições especiais.

“Aqui jaz o maior herói da Terra” era a capa da morte

Superman nº 75 embalada em um plástico negro com o símbolo do S feito de sangue. A capa era uma lápide. Ela vendeu 3,5 milhões de unidades, algo impensável nos dias de hoje. O subsequente retorno também faturou forte. Porém muitos fãs se sentiram traídos com o retorno, abandonando as histórias.

A grande transformação que a história trouxe, na realidade, foi o que muitos consideram “o fim da morte nos quadrinhos”. Depois disso, se tornou um evento quase banal.

Até então personagens podiam morrer e voltar, mas isso era um fenômeno raro. Jason Todd (Robin 2) morreu em “Morte em Família”, Barry Allen (Flash 2) e Supergirl morreram na “Crise nas Infinitas Terras”, Bucky morreu durante a Segunda Guerra Mundial e o Capitão Marvel em “A Morte do Capitão Marvel”, e era para eles permanecerem mortos.

Quando esse mala morreu, ninguém achou que ele fosse voltar

Todos eles retornaram nos anos 2000, alguns com mais de 20 anos de morte.

Isso sem contar eventos caça-níquel para alterar o status quo: a “Queda do Morcego”, onde o Batman é aleijado por um vilão até então desconhecido e é substituído por outro Batman; e “A Saga do Clone”, onde o Homem-Aranha descobre que é um clone de si mesmo, e o original retorna e cria uma nova identidade chamada Aranha Escarlate. Em ambos os casos, depois de alguns meses as coisas voltaram ao normal.

O Batman não deu tempo nem de esfriar e já tinha ressussitado

Acho que o único herói conhecido que morreu e ficou morto foi o Homem-Aranha do universo Ultimate da Marvel, o que também foi notícia, mesmo não sendo a linha principal.

Depois da “Morte do Superman”, ninguém mais se importou quando um herói morreu. Isso foi muito pior que a própria morte em si. Tudo bem que uma das principais característica dos quadrinhos é sua imutabilidade, mas hoje quando um herói morre geralmente a piada é “até quando?”.

E esse problema a gente pode botar na conta da DC Comics e do Homem de Aço.

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