5 textos para repensar a cultura do Vale do Silício

Por Gustavo “Mini” Bittencourt

A cultura de empreendedorismo do Vale do Silício é o rock and roll do século 21: nasceu com a marca da rebeldia, fermentou em seu próprio nicho, inspirou o sonho de milhares de jovens pela disrupção da ordem e influenciou o pensamento contemporâneo ao redor de todo mundo. Nascida de uma combinação curiosa de capitalismo libertário, ideais hippies e cultura hacker, ela mantém ainda hoje um certo ar de rebeldia, de desafio ao status quo e de certeza de que suas soluções vão, de uma forma ou de outra, fazer do mundo um lugar melhor. Mas, se em algum ponto pudemos dizer que houve hippies e punks de fato no Vale do Silício, hoje a situação parece estar mais para aquele período do hard rock farofa dos anos 80 — um clima caricatural de excesso, autoindulgência e desconexão com as ruas que certamente vai nos constranger daqui alguns anos.

Em um artigo de 2013 na The New Yorker, o jornalista George Packer escreveu que, no Vale do Silício, “a expressão ‘mude o mundo’ é usada em conversas e planos de negócio de forma tão casual quanto “early-stage investing” e “beta tests.” Mas essa casualidade não é naturalidade com o tema e sim outra coisa:

“Quando especuladores dizem que estão fazendo o trabalho de Deus ao oferecer crédito barato ou empresários do petróleo se declaram patriotas porque estão tornando o país energeticamente independente, ninguém os leva a sério — é dado como certo que a motivação deles é o lucro. Mas quando empreendedores de tecnologia descrevem seus objetivos elevados, não aparece ninguém para piscar ou sorrir ironicamente. (…) Eles realmente acham que o Facebook vai ser a panaceia para a maior parte dos problemas do mundo. Isso não é cinismo. É arrogância e ignorância.”
Evgene Morozov (Wikicommons)

Arrogância e ignorância são especialmente perigosas quando acompanhadas de falta de espírito crítico. Em uma entrevista para o The Guardian, o escritor de tecnologia Egvene Morozov faz eco ao artigo de Packer lembrando que olhamos para as empresas do Vale do Silício de forma diferente das empresas “comuns”:

“Não as tratamos com o nível de criticismo e escrutínio que elas merecem. Nós assumimos que elas estão no negócio da informação, o qual é um negócio benigno, e que elas são parte de um projeto iluminista. Nós tendemos a pensar que elas não tem acionistas, objetivos comerciais e esquecemos que são dirigidas por pessoas que não tem uma apreciação muito profunda pela condição humana e pelo mundo ao nosso redor.”

De fato, quando você lê o perfil de Marc Andreessen, figura histórica da rede, co-criador do browser Mosaic, da rede social Ning e um dos mais bem sucedidos investidores do Vale do Silício atualmente, fica difícil coordenar sua imagem com os vídeos tutoriais fofinhos que praticamente todas as empresas de tecnologia fazem quando lançam seus produtos e que ainda remetem ao tal ideário hippie que está no DNA do lugar.

“Não estamos financiando a Madre Teresa” diz Andreessen. “Estamos financiando pessoas imperiais, com força de vontade, que querem esmagar seus competidores. Empresas só podem ter um grande impacto no mundo quando elas se tornam grandes.”

Douglas Rushkoff (montagem: jornalggn.com.br)

Para o escritor de tecnologia e professor da The City University of New York, Douglas Rushkoff, a cultura do empreendedorismo do Vale do Silício criou uma visão viciada que coloca o crescimento exponencial de todo e qualquer negócio como a barra mínima de sucesso. Recentemente, Rushkoff publicou um artigo no qual critica a ideia de que o Twitter, cujas ações vem caindo vertiginosamente em Wall Street, é um fracasso:

“Só na lógica distorcida da economia de startups uma empresa que fatura meio bilhão de dólares por trimestre pode ser considerada um fracasso. É meio bilhão de dólares por um pequeno aplicativo que simplesmente permite às pessoas enviarem mensagens de 140 caracteres umas às outras. A atividade econômica que ele gera é nada menos do que miraculosa.”

O empreendedor social Ross Baird diz que o Vale do Silício se tornou “uma monocultura onde os empreendedores são altamente educados, tem acesso livre a capital e suas necessidades básicas resolvidas. A maioria dos recursos hoje está sendo direcionada a empreendedores cuja experiência de vida é toda em cidades abastadas e com boas conexões.”

Com isso, “os empreendedores acabam resolvendo problemas incrivelmente frívolos” porque “são os problemas que eles conseguem entender.”

Não é por acaso que as grandes revoluções tecnológicas dos últimos anos aconteceram com mensagens instantâneas, caronas, streaming de seriados e acomodações de férias: são essa as necessidades de garotos brancos de 20 anos com muita educação, talento, capital e tempo numa boa cidade americana.

Foto: Pexels

Enquanto isso, o mito narrativo fundador do Vale do Silício (minha tecnologia veio para salvar o mundo) persiste, à revelia de evidências da prepotência e do desrespeito de muitos de seus empreendedores a questões humanas básicas. É possível que isso aconteça justamente pela necessidade de maquiar a agressividade de seus negócios e separá-los de outras categorias como a indústria do petróleo ou Wall Street, como colocou Morozov. Até aí tudo bem, cada um usa o quanto quiser de laquê pra se fantasiar. Mas alguém precisa avisar que isso está começando a ficar ridículo e que nem todo mundo está a fim de dançar essa música.