Orkutização como meio.

A (des)importância da ascensão da primeira e expressiva rede social em terrinhas brasucas.



Tive contato com a Orkut em 2004 e custo a me lembrar através de quem ou o que me levou a ingressar nessa “rede social”, palavra que naquela época era muito pouco usual. Já era familiarizado com a internet (discada, óbvio!) e frequentador de chats e fóruns, mas minha assimilação com a internet era sempre a de um sujeito anônimo nas quais as relações nunca eram evidenciadas além é claro de alguns encontros reais que se tornavam (no meu caso) experiências frustrantes. O Orkut apresentava-se como um forma diferente de se relacionar na internet, a sensação de anonimato ainda que presente era camuflada pelo rastro superficial que sentíamos ao personalizar os nossos perfis. Logo surgiram similaridades com outros usuários o que propiciava novas amizades e a sensação de pertencimento ao grupo (mesmo que esse grupo fosse de pessoas que compartilhassem o estranho desejo de soltar hadouken aos sábados, por exemplo).

O Brasil passava por mudanças em sua estrutura econômica (ainda confusas, nesse exato momento…) e indissociavelmente o número de pessoas com acesso aos meios digitais crescia, seja pelo aumento de renda das famílias ou o barateamento dessas tecnologias, vimos (e participamos) do chamado processo de inclusão ou democratização digital. Nesse processo em que ainda estamos inseridos o Orkut desempenhou um papel de catalisador das tensões originadas entre um pequeno nicho de usuários pertencentes a uma classe social mais abastada e instruída (me refiro a formação educacional) e uma enorme parcela da sociedade que até então não tivera contato com esses meios (advindos do ensino público, muitos egressos do ensino fundamental). Isso não se deu apenas nas relações digitais, mas o meu recorte fica nesse contexto pois é nele que a “orkutização” tem origem.

Muito mais que um neologismo a orkutização é uma verbalização de um conjunto de normas e condutas organizados, propiciando a reprodução na internet dos mesmos cânones sociais nos quais os usuários estão inseridos, e neste ponto que apresenta-se o conflito, pois como sabemos a realidade dos usuários inseridos nessa plataforma são das mais variáveis.

Por isso orkutizar é tornar acessível e irrestrito, é absorver oque não se deseja é coexistir mais próximo do que se imaginava(…).

Hoje com uma realidade muito diferente de 10 anos atrás a internet assume papel importante no dia a dia de milhares de brasileiros. Já estamos mais familiarizados com essas interações e como elas podem ser benéficas (as vezes) mas ainda estamos criando nossa cultura digital e espero que menos conflitante, mais plural e extremamente pulsante, além disso acredito que seja necessário orkutizar outros meios aqui não citados e talvez o processo deva ser inverso, mas não sei.

P.s.: leio respondo e depois deleto.

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