Cuspindo Palavras

A tela branca.

O som do teclado, que me irrita… e o pior é que escrevo muito.

Ligo o som nos fones de ouvido para abafar o som das palavras que cuspo ferozmente pelos dedos.

A tela já não está tão branca.

The Day That Never Comes explode dentro de meus ouvidos, abençoados fones!

A televisão, falando para ninguém. Ao meu lado, mais uma pessoa cuspindo letras em frente a outra tela.

Nossa.. são meia noite e três agora!

Tive um dia chato, arrastado, e continuo cuspindo palavras, bato freneticamente com meus dedos nas teclas pretas, esmagando as letras brancas, escrevendo como se o martelar dos dedos fosse capaz de tirar de dentro de mim tudo o que oprime, tudo o que cansa, tudo o que faz mal. Os aborrecimentos do dia exsudam pelos meus poros.

E na verdade é isso que acontece!

Minhas feições se contraem, escrevo ferozmente, aprisiono no editor de texto as palavras amargas e ferinas, e saio da frente do computador me sentindo mais leve. A brisa da noite entra pelo quarto, contemplo o céu estrelado e até consigo agradecer por mais um dia.

Amanhã.. o amanhã que a gente espera, às vezes demais. 
O amanhã… trazendo novas promessas, novos alentos. Um amanhã que nunca chega, porque muitas vezes ficamos cuspindo palavras amarguradas e deixando para viver e ser felizes depois.

E quem garante que somos nós, e não os dias, que são chatos e arrastados? Por que não passamos menos tempo cuspindo palavras amargas, e mais tempo de nossas vidas criando frases doces e gentis?

Tomo um banho, aquieto minhas ideias, o travesseiro me espera. E o amanhã também.

(texto escrito em 2013, resolvi desenterrar - é, eu estava estressada mesmo)

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