A posse de bola e o futebol direto
Análises sobre futebol são cheias de frases feitas e ideias prontas, “um bom time deve ter a posse de bola” é uma delas. Posse de bola se tornou uma obsessão no meio futebolístico, um mantra que todo mundo repete, uma máxima que não deve ser questionada, o pilar do jogo bonito.
Existem vários erros nessa abordagem, o mais gritante é que existe um modelo único de futebol bem jogado. Dizer que o único futebol bonito é apenas aquele jogado de determinada forma não é diferente de dizer que as únicas pessoas bonitas são apenas aquelas de determinada cor de pele, ou que os únicos carros bonitos são apenas aqueles de cor laranja. Mas isso é um outro assunto, e não irei abordar hoje, nesse texto.
O que irei falar hoje é da tendência clara do abandono da posse de bola e a adoção de um futebol mais direto, agudo e ofensivo. Menos jogadores para pensar o jogo, mais jogadores para avançar com a redonda. A competição que trouxe a questão á tona foi a Eurocopa, mas é possível observar essa tendência faz tempo. Enrique já mostrava isso no Barcelona, usando pontas e, o “horror dos horrores”, fazendo um maior uso das ligações diretas, o já mitológico chutão.

54,1% das vitórias na Eurocopa vieram de times com menos posse de bola, se considerar apenas o mata-mata, o número pula para 66%. Conte conseguiu ir longe com uma Itália com THIAGO MOTTA vestindo a camisa 10 montando um time vertical. Leicester dominou a melhor liga de clubes no mundo ignorando a bola. França passou pela Alemanha com míseros 32% de posse. Muita gente torce o nariz, mas não dá mais pra dizer que futebol direto é futebol de time pequeno. Não é coisa de time sem repertório, é um estilo de jogo, um modelo, uma proposta. Alias a própria ideia de que posse de bola é somente aplicada por times com proposta de alto nível é falsa, isso é muito bem explicitado por aquela máxima:
“Enquanto nós temos a bola, eles não fazem gol.”
Jogadores mais fortes, rápidos e habilidosos
Não é de hoje que a capacidade física dos jogadores está cada vez melhor, isso deriva de vários fatores. Desde os próprios clubes dando cada vez mais atenção a esse aspecto, como também cada vez mais estudos girando em torno da melhora do aspecto físico de um atleta. Como consequência, temos jogadores mais velozes e resistentes como nunca.
Um motivo interessante a ser ressaltado, porque ele deriva da antítese do futebol direto, é que o futebol hoje exige que o jogador se movimente por 90 minutos. Essa exigência cresceu de forma exponencial graças ao Guardiola, na época que ainda ensaiava o jogo de posição, jogadores lentos ou sem resistência física não sobrevivem no futebol de alto nível, não importa o que saibam fazer com a bola nos pés.
Pense em 5 bons jogadores, não é surpresa se 2 ou 3 deles jogarem como pontas, ou terem velocidade aliado ao drible como maior característica. Cristiano Ronaldo, Neymar, Douglas Costa, Hazard, Alexis Sánchez, Gareth Bale, todos velozes, todos dribladores.


Se a fornada de bons jogadores nessa geração tende a atletas velozes, nada mais natural que o futebol se adapte a isso. Essa adaptação era visível desde a maior adoção de esquemas táticos com pontas e alas, que hoje domina o futebol. Os pontas são amplamente usados, muitas vezes tendo a geração de amplitude como foco secundário, tendo principalmente a tarefa de cortar a bola para dentro e ultrapassar a zaga no mano a mano. Douglas Costa é um exemplo disso, Guardiola falava abertamente que o jogador tinha carta branca para utilizar sua habilidade no um contra um. Isso é especialmente impressionante porque o futebol europeu sempre foi relutante ao drible, sendo esta uma característica típica do futebol sul-americano.
Essa formação de jogadores mais agudos e que são especialistas em saírem da marcação sozinhos também não é acaso. Como dito antes, os jogadores precisam se movimentar cada vez mais, por consequência, ocupam maiores faixas do campo, logo, há cada vez menos espaço para jogar. Menos espaço significa menos tempo para pensar e mais perigo de perder a bola na troca de passes. Mesmo passes curtos, mesmo as triangulações pequenas na lateral. Nada mais natural que jogadores que sabem grudar a bola em seus pés acabem se destacando.

Não somente o drible, mas o passe rápido no contra-ataque é outra forma de abrir espaços contra um time bem posicionado. Principalmente num time que usa a marcação homem-a-homem, passes objetivos para jogadores que se movem bastante possuem boas chances de desmontar uma defesa.
O futebol direto se disseminou, o que é bom para quebrar o estigma de que só o futebol de posse é o correto. Obviamente ele não é absoluto, não é o melhor jeito de jogar ou vai substituir o futebol de posse por completo, é uma alternativa, uma outra forma de ver o jogo, que se encaixa muito bem com um determinado estilo de jogador. O modelo de jogo deriva diretamente das características do elenco, e é assim que deve ser visto. São estratégias, e não dogmas.
Boas leituras relacionadas
Euro 2016 escâncara grande tendência no futebol mundial: é tão importante assim ter a bola?
E se os times passassem a atuar com 10 jogadores? É o que propõe La Volpe