Exortação ao suicídio.

E se eu pusesse já hoje um fim a tudo?

Ao ranço dos dias que se pega aos lábios, ao mofo das horas que nos esverdeia os sovacos, à pálida luz que nos pesa nas pálpebras? E se eu pusesse um fim a tudo e não mais sentisse mais aquela languidez entre a dor crónica e familiar e a coceira de alma.
Entregar-me ao nada, oco, repleto de vazio, para me acolher e apaziguar como um ventre materno. Onde mesmo despida não tivesse frio.
A vida é demasiado longa. Uma longa metragem enfadonha e quase interminável.
Mas e se acabasse amanhã? Na próxima semana? Antes do próximo ano? Ah se eu apenas tivesse sete dias de vida e soubesse, cuspiria o amargo que carrego na boca, rebolaria nas flores, rebentaria ao sol de tanto rir. Encher-me-ia de outros corpos e vinho.

Morro em cada dia em que não me mato nem vivo. Exortar ao suicídio é encurtar a longa metragem, colher o agora, rebolar como Baco entre copos e vinho.

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