NCT U e a sincronização dos sonhos

Parte 1 — O Pequeno Príncipe

Com o debut de uma das units da nova boyband da SM Entertainment, NCT U (ou Neo Culture Technology U), decidi fazer uma análise mais profunda dos conceitos que percebi nos teasers e nos clipes já lançados. Você encontra as partes seguintes aqui: parte 2, parte 3

Como a SM curte fazer esses teasers elaborados e deixar os fãs acreditando que eles se preocupam em estimular nossa inteligência, mas no final lançam um álbum onde todo o conceito é substituído por algo previsível e/ou nada a ver, nem me comprometo em achar que qualquer teoria elaborada aqui vai ser posta em prática, é mais um exercício de interpretação e criatividade, além de mostrar quantas camadas profundas algo que, à primeira vista, parece superficial pode ter :)

Os três globos da ampulheta mostram que a história se passa em um local que não segue o tempo terrestre. Um menino aparece solitário em um deserto, ecoando a história do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry.

Semelhanças

A bandeira vermelha marca sua chegada nesse local estranho e o início de sua jornada. No livro, o Príncipe também nutre uma paixão pela única rosa que habita seu asteroide, e podemos ver ele carregando essa bandeira como carrega as memórias de seu amor por ela nesse teaser. Enquanto caminha pela areia, ele prontamente encontra material para modificar/criar seu novo mundo: pedaços de carvão e uma folha de papel. O menino, porém, desenha três montanhas (os três vulcões de seu asteroide?), observa sua obra e se lembra, entre flashes, de sua casa, um local onde o mar molha seus pés e ele respira o ar fresco das plantas.

Ao acordar, o menino vê um rebanho de gado passando enquanto um filhote fica para trás, uma alusão a ele próprio se distanciando de seu planeta/sua antiga vida e se separando do instinto de seguir os demais, como acontece em um rebanho.

Separação

No fim dos flashes, o menino continua observando seu desenho, quando repentinamente uma figura feminina vestida de preto surge e dá um beijo em sua cabeça.

No livro, o Príncipe se sente frustrado por não se achar bom o suficiente, já que seu asteroide possui apenas três vulcões e uma rosa — que ele descobre não ser única no mundo. Enquanto chora, uma raposa o encontra e são dela as frases mais conhecidas do livro:

Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.

E também:

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.

A figura feminina pode ser interpretada como essa raposa, cativando o menino e sendo cativada por ele. Carregando as memórias da rosa como ela carrega a bandeira vermelha do menino a partir de então. Ela é importante não só como figura materna ou criadora, mas também como força guardiã que o orienta nessa caminhada pelo mundo dos sonhos.

Caminhando

Mas de onde vem esse mundo dos sonhos? A areia é um material comumente associado aos sonhos. Sandman, uma figura do folclore europeu muito presente em histórias infantis (e também na homônima graphic novel do Neil Gaiman que eu amo demais ❤), joga areia nos olhos das pessoas para fazê-las dormir e trazer os sonhos. A mulher, se formos analisar como uma intérprete do Sandman, caminha com o menino e oferece materiais que o ajudam a desenvolver seu sonho— representados pelos lápis de cera coloridos, enquanto ele só desenhava com carvão. O menino escolhe o lápis azul e desenha um oceano, relembrando mais uma vez seu lar. Análogo a isso, a água muitas vezes representa estar em contato com suas emoções. O menino, por estar no deserto, certamente sente sede — e não só física, mas emocional também.

Continuando o caminho, o menino transforma a folha de seu desenho em um aviãozinho de papel e o lança pelos ares, numa simbologia bastante literal sobre dar asas aos sonhos, viajar sozinho, deixando o conforto do lar. Avião também foi o meio de transporte pelo qual o narrador do livro foi parar no deserto onde se encontrava o Pequeno Príncipe. Consequentemente, é nesse momento em que o menino tropeça, e percebe que a raposa e ele não podem continuar lado a lado se ele quiser seguir seus sonhos. É preciso se aventurar sozinho. Em uma tempestade de areia, ela se dissolve e o menino desmaia no chão.

Então aparece a cobra amarela. No livro, a cobra amarela tem o poder de levar o Príncipe de volta para casa com sua picada. No teaser, é exatamente isso o que entendemos das cenas seguintes: o menino é picado, na esperança de retornar para seu lar, onde o mar molha seus pés, onde sua rosa o espera, onde ele reencontra a raposa, mas ele abre os olhos e se vê no mesmo lugar.

Em outra série de flashes começa a sincronização dos sonhos, que analisarei nas próximas partes. O passado se funde com mais de um presente em mais de uma dimensão. O menino se vê mais velho como os supostos membros centrais das units chinesa e coreana do grupo NCT.

Taeyong

Ele é Taeyong acordando em seu quarto e no cenário abandonado do Teaser #2, e simultaneamente é WinWin trabalhando e praticando artes marciais no Teaser #3.

WinWin

E então o menino percebe: seus sonhos já começaram.

“Gosto muito de pôr do sol. Vamos ver um…”, diz o Príncipe no capítulo 6 do livro

Como na história bíblica de Ismael, onde Deus ouve o desespero de Hagar, sua mãe, e faz a água surgir no meio do deserto para que mãe e filho não morram de sede, embaixo dos pés do menino surge um oceano como o de sua casa. Dizem que o Sétimo Sentido (The 7th Sense — faixa título da unit NCT U e nome do Teaser #3), é utilizar o poder do Universo para aprimorar sua vida — pedir, e por isso receber. Dessa forma, podemos dizer que o menino se conectou com o Universo e seus sonhos caminham para a realidade. Ele está em casa. E com o pôr do sol, inicia-se um novo dia.

Fontes:

Comentários do Youtube e bastante tempo no Tumblr :)