Trabalho remoto ou presencial? Autonomia e significação no ambiente profissional

Carlos Assis

E lá se foram onze anos de carreira, dos quais sete foram preenchidos com experiências em times multiculturais e remotos. Foram múltiplas oportunidades, em times completamente diversos: desde às tecnologias que são utilizadas (o “stack”); às nacionalidades dos membros; às ferramentas de gestão; às formas de aplicar as metodologias ágeis etc. Foram ótimas experiências, ainda que algumas bastante ruins também. Por vezes, o trabalho realizado por alguém do outro lado do Atlântico era confiado e delegado sem qualquer desconfiança e com o mínimo de ruído possível; ou, em outros contextos, o microgerenciamento e problemas de comunicação eram quase sempre presentes.

Ao longo destas vivências, eu sempre tentava traçar paralelos com cargos que assumi em empresas com trabalho presencial: o que há, de fato, de diferente — positiva e negativamente — nestas oportunidades em times remotos? Por que, depois de algum tempo, eu já não acreditava tanto no modelo tradicional e em seus dilemas?

Minha jornada como desenvolvedor remoto começou ao acaso, em 2012, após eu trabalhar num espaço de coworking e conhecer um colega que me faria a sugestão de substituí-lo em uma empresa baseada em Chicago. Após esse convite inicial, que foi finalizado com a conclusão do projeto, eu me vi em um dilema: continuar trabalhando remoto ou tentar uma nova vaga numa empresa local? De início, eu não sentia a confiança necessária para procurar vagas remotas: faltava conhecimento e malícia. No entanto, depois de algumas entrevistas traumáticas com recrutadores das empresas da minha cidade, eu acabei optando por continuar trabalhando remoto. E foi assim que eu conheci o StackOverflow Careers, o GitHub Jobs e, mais tarde, o WeWorkRemotely — os quais são os melhores meios para se aplicar para vagas remotas, ainda que existam outras alternativas.

Após quatro anos trabalhando remotamente, em 2016, eu acabei optando por voltar a trabalhar presencialmente, por sentir que talvez fosse necessário retomar minhas experiências de trabalho em grupo, fisicamente. Foi um excelente ano de trabalho, em termos de crescimento e aprendizado. Ainda assim, desde então, após outras oportunidades pontuais em São Paulo, eu passei a me questionar ainda mais: “o que de fato tem de diferente nestas experiências de trabalho remotas e presenciais?”.

Barry Schwartz, em seu excelente “Why we work”, disseca sobre a importância e os eventuais meios de se construir um ambiente de trabalho que seja motivador e significativo, além de discutir como gestores e gerenciados devem trabalhar em conjunto para construir este ambiente. Um dos principais meios mencionados por Schwartz é justamente o senso de controle e autonomia que eu gozava em oportunidades remotas.

Minha atividade profissional é essencialmente mental, a qual exige, naturalmente, foco e concentração. Minhas faculdades mentais só estão a pleno vapor após às 10hrs — já que sou um night owl! No entanto, ser forçado a estar presente em determinado local, num horário fixo, sem qualquer possibilidade de ter maior controle e autonomia sobre meu trabalho e suas atividades, diminuía minha aptidão e, consequentemente, culminava em uma experiência de trabalho que não era gratificante e significativa.

Após estes sete anos de trabalho remoto, intercalados com pontuais cargos presenciais, eu aprendi como é meu ambiente de trabalho ideal e como eu consigo ser mais produtivo, autônomo e motivado em relação às minhas atividades. A cultura organizacional, hoje, tem um impacto tão importante quanto a quantia que eu vou receber no final do mês ao decidir se irei aceitar uma oferta ou não. Ainda que a grande maioria dos profissionais sejam condicionados a pensar que devem trabalhar pelo “holerite” e nenhum questionamento a mais importa, acredito que seja indispensável analisar, respeitando seu contexto e realidade profissional, o quanto estamos entregando, o quanto nos está sendo entregue e como gestores e Recursos Humanos podem impactar na construção destes ambientes profissionais de sucesso ou fracasso.

Carlos Assis

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Computer Scientist, Software Engineer. Diversity & Inclusion advocate. Open Government & Data Rights advocate.

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