A beleza da permanência

Aprendo com o tempo e aos poucos, pela mão de quem ensina sem querer, falando sobre a necessidade e beleza de nos incrustarmos nas coisas, que permanecer tem valor.

Aprendo, caminhando, o prazer do silêncio dos passos, a potência contida nas viagens que não se fazem, das aventuras longe que não se têm, da continuidade num só lugar.

Permanecer para apreender dos lugares o que eles possuem de escondido, o que só chega pela pele que sente sem pressa. Aprender por estar continuamente, ao invés de aprender pelo salto ininterrupto e constante.

Descubro que a permanência permite fechar os olhos e saber com certezas onde se está; permite conhecer de cor os detalhes dos relevos, dos contornos, das expressões dos que se fazem habituais.

A permanência. Este ficar que diz “Fico aqui” e fica mesmo. Este não-desejo de mundo todo deglutido ao mesmo tempo; aquele que, mesmo reconhecendo que existe terreno infinito por sentir e saber, sossega o desassossego na apreciação de um fim de tarde visto de um lugar de sempre.

Permanecer traz mundo novo ao mundo do costume; traz profundidade, detalhe sentido com vontade de perceber o ínfimo, densidade crescente nos matizes invisíveis.

Caminhar é aprender malabarismos entre o de fora e o dentro; entre o infinito mundo todo de fora e o mundo inteiro contido num riso só.

Talvez nunca chegue a cheirar Savanas onde corram soltos leões de jubas fortes e hienas que se riem das insatisfações que carregamos. Talvez nunca sinta o ar em falta ao passear por Cusco; talvez nunca sinta o que é ser pintada com Henna num ritual indiano nem saiba a que cheiram os glaciares mais a norte nem chegue perto do transiberiano nem assista a uma aurora boreal. Faltará sempre mundo por ver, estará sempre tudo por sentir.

Mas talvez a permanência das coisas traga aventuras que não cabem em fotografias nem em histórias que se narrem com ação.

Talvez o cheiro repetido da chuva a cair no trajeto de sempre traga ao sentir um deslumbramento que ultrapasse o fogo da coisa nova. E talvez da permanência que nos permite incrustrar surjam maravilhas que não se contem entre as 7 mais famosas.

O mundo pode, aprendo aos poucos, criar-se com o infinitamente pequeno dos dias, que passa alheio ao tanto grande que se agita a chamar-nos.

Como me escreveu um dia o Maurizzio, um velho italiano com quem cruzei passos por alguma parte da Europa: “Il tramonto sul mare e un spetaculo quotidiano sempre nuovo” (O por do sol sobre o mar é um espetáculo quotidiano sempre novo).

Por isso aprendo, sem pressa, a dizer :“Shhhh… Agora não posso ir ao mundo. Esta luz de fim de tarde, que vem todos os dias, está a mostrar-se única pela infinita vez e precisa que eu a veja.”

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