Dançar a Humanidade

By Margarida Quinteiro

Outubro de 2017 abriu-se com um convite de beleza: cruzar um pouco de Atlântico para levar a dança e o sentir à ilha Terceira, no verde dos Açores.

Durante três dias encontrei-me com um grupo de gente que vinha de mãos abertas e espírito curioso, descalços sobre um chão de madeira e despedidos do quotidiano. Ali deixaram de ser professores, estudantes, esteticistas, atores, médicos, e passaram a ser corpos, movimento e sentir.

Durante três dias coordenei as mais de 25 pessoas que por lá passaram, embalando-as em música e exploração. Convidámo-nos mutuamente à conquista do espaço, à presença do corpo, ao movimento improvisado, à calma e ao agito, à criatividade dos braços e pernas, à ausência da cabeça pesada das coisas dos dias.

Fomos grupo, fomos individualmente coletivos no que se ia criando, confiança a confiança, pedaço a pedaço, sem pressas, naquela sala de serviço Educativo de museu da cidade.

Havia gente de dentro e de fora da ilha, de dentro e de fora de Portugal. Gente que vinha movido pelo aprender e pelo aproximar. Havia bailarinas de alma e curiosos com sorrisos abertos. Pessoas, juntas e unidas devagar, como o tempo do corpo pede.

Começaram - sentimo-lo bem - com os olhares inquietos. Incertos do que ali se faria e criaria, de como se viajaria pelo corpo que se toca e se aproxima. E começámos devagar a pisar chão, a deitar o corpo em abandono relaxado, a caminhar com os olhos atentos. Pouco a pouco o movimento. Pouco a pouco a liberdade (porque liberdade sem criatividade pode ser uma jaula onde tudo se fecha mais). Pouco a pouco a doçura dos sorrisos que se cruzavam. Pouco a pouco a confiança que se entranhava na pele.

Muito a muito a proximidade. Já não só de ancas e costas, não só de pesos e leveza, mas a proximidade de ser. De ser humano. Nas coisas que aproximam, perto do que importa.

Na roda final, único espaço de falar e dizer, as palavras eram de conexão. Falavam de amor, de surpresa, de liberdade de fluir, de confiar. Não eram poetas, aqueles dançarinos. Eram gente dos dias, gente que dá aulas e trata doenças e coordena grupos e vai a aulas e treina desportos e dá explicações. Gente dos dias. Mas naqueles dias bailou-se, sem dúvida, a mais poética humanidade. Aquela que é feita de proximidade que não julga com as ideias mas com o calor das peles e a energia do riso, com o pousar da cabeça num ombro que (ainda) não se conhece.

Naqueles dias de Outubro cruzei um pedaço de Atlântico para testemunhar a viagem de gente que foi mais de si com um pedaço de música por trás, um chão de madeira sobre os pés e o corpo livre para ser, sentir e contactar.

Por dentro, a palavra gratidão inteira. Não só ao grupo que convidou, a quem tão bem recebeu, ou aos donos daqueles braços, pernas e sensibilidades que acompanharam, mas à fé reforçada no Humano. Uma fé à prova de diferenças que se vê quando se fecha os olhos. Uma fé que me diz, a cada grupo que acompanho neste viajar pela proximidade cheia de respeito e suavidade, que somos mais perto do que longe, e mais cheios de luz do que o que os dias às vezes fazem parecer.

Há dois anos que pouso a cabeça sobre outras, em sessões que trazem gente de todo o lado para dançar uma espécie de Contacto Improvisação ao sabor da Psicologia Positiva. Começou no Porto, a casa deste projeto que dura e dura e dura…, passou por França, e por umas quantas sessões em Barcelona. Agora foi a vez dos Açores. E de cada lugar, de cada encontro, com cada cultura e cada partilha eu trago a certeza de que há muito por onde pousar, confiada e amorosamente, a cabeça humana. E dança-la.

Acreditando profundamente no que o Wilfried van Poppel repetia no projeto 5 Days to Dance: “If people can dance together, people can live together.” (Se podemos dançar juntos, podemos viver juntos).

Pousa-se a cabeça numa ode à dança, esta que celebra a Humanidade.

Todas as imagens por Margarida Quinteiro, a quem a gratidão se estende, pela sensibilidade posta no doce observar através da lente.