Lugares de descansar para sempre

Cemitério de Montjuic. Barcelona

Sempre gostei de visitar os lugares que se associam com o descanso para sempre. Sempre os procurei nas viagens, sempre me perdi pelos terrenos físicos que os guardam e pelo todo que os integra; os jardins com ou sem bancos, os relvados ou o cimento estendido, os socalcos ou o verde a perder de vista, as estátuas ou a sua ausência…

Que paisagens escolhemos os seres viventes para guardar simbolicamente os pedaços de corpo em despedida, para lhes prestar homenagens palpáveis quando todo o resto deixa de o ser?

Como se organizam as “últimas moradas”, que espaços se criam para as visitas imaginárias, para os rituais feitos em terra comum?

De quantos corredores são feitos estes lugares, quantos andares podem caber num bloco de seres que já não são corpo, o que decora estas residências do invisível?

E que paisagens se estendem pelos olhos em despedida? Onde se pode pousar o olhar depois de chorar perdas, revisitar memórias ou caminhar a curiosidade por estes lugares de (in)existências físicas?

Às vezes o mar estende-se em frente, lembrando horizontes feitos ou por viver, deixando voar memórias ou criando amplitudes; noutras são gaivotas as que se estendem, em forma de asa, por céus vistos de cima. Às vezes são esquilos os que passam entre árvore e árvore (da vida?), ou que sobem desde a terra que guarda o que lá desceu.

Em alguns há roseirais de seres que foram, noutros há canteiros de ervas aromáticas. E conforme as possibilidades lá nos transformamos em pó, em rosa branca ou em rosmaninho. Pedaços de terra, estranhos em terra estranha, estendidos por ruas infinitas de lugares definitivos.

Flor, erva ou areia fina, tudo voa em lugares diferentes, tão distintos quantos os mundos que lá se guardam, vistos para lá do vento na cara.

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