“Vous êtes gentille”

“Vous êtes gentille!”

Esta é a forma francesa de agradecer qualquer gesto amável ou pequena ajuda quotidana. O rosto gira, o sorriso desenha-se e chega, em forma de “Vous êtes gentille”, um agradecimento delicado.

De cada vez que a ouço sinto por dentro o verdadeiro efeito da gratidão por palavras alheias, mas também o impacto direto das palavras do outro. Este agradecimento não diz “Eu gostei do que ME fizeste ou disseste.”; não diz “Soube-ME bem.” nem “Deu-ME jeito.” Diz-me “TU és algo bom”. Gentil, neste caso. A tónica em quem recebe, o reconhecimento do ato de dar/oferecer/ajudar.

Num curso online sobre Psicologia Positiva, uma das figuras contemporâneas mais proeminentes da área, e das que mais investigação tem realizado sobre o tema do Florescimento humano e da relevância e utilidade das emoções positivas, Barbara L. Fredrickson, falava precisamento sobre isto. De que forma podemos agradecer um gesto criando e somando. Num exemplo simples perguntava como é que agradecíamos um presente ou um favor que nos faziam. E entre as opçõs principais estavam a tónica no EU: “Obrigada pela ajuda, facilitou-me mesmo a vida”, ou “Que bom esse presente, fiquei mesmo contente com ele!” e a tónica no TU: “Obrigada por teres usado o teu tempo, já tão curto, para me ajudares!” ou “Obrigada pelo presente, fico mesmo contente por perceber que te preocupaste em pensar em mim, que procuraste a coisa perfeita!”. Num dos casos o agradecimento era feito falando da emoção que provocada o gesto, e no outro a tónica ia para a delicadeza/gentileza/disponibilidade de quem o fazia. Na primeira opção a tónica estava no efeito sentido por quem recebia e no segundo nas boas características de quem oferecia.

Na altura de refletir sobre estes matizes da comunicação, lembro-me de uma discussão em grupo sobre a grande diferença que fazia a pequena mudança de formulação. Apesar de nem todos serem sensíveis à variação, era unânime entre quem o era, que preferia começar a explorar a oportunidade de agradecer para devolver ao outro a gentileza.

E aquele exemplo prático, vindo do mundo teórico de um curso online seguido indiretamente, ficou a pairar lentamente na parte de trás das informações guardadas em algum lugar.

Hoje, ao ouvir de novo a formulação francesa, “Vous êtes gentille, mademoiselle.”, como resposta a um gesto tão pequeno como deixar a porta aberta para alguém passar, percebi na primeira pessoa o efeito deste boomerangue. O meu gesto teve como efeito um bem estar no outro, que ele devolveu provocando o mesmo em mim.

Fiquei a pensar (sentir) que esta é realmente uma forma de somar. Somar bem-estar. Somar amabilidade. Somar delicadeza. Somar reconhecimento. Dizer, sem dizer: “Eu vejo o belo gesto que tens comigo. Faz-me sentir bem a mim e faz-me identificar-te a ti como uma bela (ou gentil) pessoa.” E o gesto bonito regressa a mim. E algo que fiz pelo outro, chega-me depois à própria pele, como uma bola de squash lançada contra uma parede e devolvida à mão que a lançou.

Hoje, ao deixar a porta aberta, ao apanhar um casaco esquecido do chão, ao deixar passar uma grávida, ao passar o saleiro da minha mesa, ganhei o sorriso do outro e ganhei, duplamente e sem querer, um cuidado comigo mesma.

“Vous êtes gentille”: Bonita formulação que os franceses arranjaram para devolver flores a quem as estende em primeiro lugar.

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