Quilombo de Serraria

Gabrielle Idealli/Flickr

Não há sinfonia mais bonita do que o cricrilar e o coaxar. Com o improviso de um tetéu de quando em vez e o assovio dos timbus para silenciar todos por um momento.

Êta vida aperreada essa, Homero. Sente falta da cidade não?

De jeito nenhum. O melhor negócio da minha vida foi vir morar aqui.

Todo anoitecer é desse jeito?

É… quando chove enche de mosquito, não dá pra ficar na varanda, tem que entrar cedo e fechar tudo. Mas até o respingado da chuva no teto é mais bonito de ouvir aqui. Depois é melhor ainda, tudo se enche de vida.

Dá para passar uns dias, mas prefiro São Paulo mesmo. Desde que peguei o gosto pela agitação não largo mais. Essa é a primeira vez que tiro férias e já quero voltar.

Minha velha também só queria saber de cidade, passear em shopping. Mas isso aqui sou eu agora, eu nasci para sentir o cheiro de mato.

Vida boa sossegada.

É o terceiro cigarro, Homero. Pensei que tinha parado até de fumar. Deu saudade de Amélia? Faz um tempinho que ela faleceu…

Sempre tenho, mas não é isso.

Pare de olhar para o pé e arrancar as unhas e diga o problema… só não invente de passar mal, que eu não sou médico e pra chegar num hospital tem que enfrentar muito chão e buraco.

O avô de Chituca, o caseiro que vivia aqui, foi escravo nessa mesma fazenda. O neto me contou a história algumas semanas antes de morrer, tinha uns 89 anos. Ali ficava o tronco, teve preto que morreu de chibatada depois de tentar fugir. Aqui em Serraria tem muita mata pra se esconder, mas os cachorros encontravam ligeiro. Enfim, ele contou que quando um escravo morria, não podia ter enterro católico. Então era deixado no mesmo lugar até que os outros pretos carregassem o corpo e enterrassem em qualquer canto. Às vezes a vida tava por um fio, mas sem médico demorava uma eternidade pra morrer… o melhor que podia esperar era um tiro de misericórdia, mas bala sai caro para escravo moribundo. Um dia teve uma rebelião, os negros mataram o feitor e correram para o alto da serra, fizeram um quilombo por lá. Tinha algum esperto no meio, porque o lugar era tão vantajoso estrategicamente que durante meses ninguém chegou perto. Já pensou, uma centena de escravos fortes, putos e dispostos…? A safra de cana veio e passou e cadê os braços pra cortar? O dono começou a ter prejuízo, penhorar bens e alugar outros escravos junto com feitores para manter o controle. Ficou mais violento e desconfiado. Apelou para todos os políticos e formou uma milícia… subiu a serra só com o poder de fogo achando que ia ter vida fácil. Pá, pá, pá, e tome gastar bala. Antes de chegar no quilombo, perdeu metade dos homens em conflitos com grupos pequenos e armadilhas. Os escravos só tinham as armas da natureza, lança de madeira, urtiga, veneno de cobra. Todo mundo queria recuar porque tava anoitecendo, mas o sujeito tava possesso, dobrou a recompensa por cabeça, aí quem ia recusar? Quando os escravos baixaram as armas, não tinha sobrado quase ninguém nem de um lado nem de outro.

Poxa, que história! O caseiro sabia disso tudo?

Sabia. Mas pra mim ele revelou um detalhe interessante: entre os negros, alguns sabiam ler e escrever em idiomas africanos. O avô dele era um meninote na época, mas sempre achou que isso determinou o sucesso temporário do levante. Os traficantes contrabandeavam negros sem saber de onde vinham, só podia dar merda… se brincar alguns eram generais, outros intelectuais. Mas eu ainda não cheguei onde queria.

O que?

Tá vendo aquela luz?

Sim.

Foi ali.

Tem gente vivendo lá hoje?

Não.

Como você sabe?

Toda noite aquela fogueira é acesa…

É uma fogueira? Porra!

… e ninguém vive ali. Já fui de manhã, mas tudo é morto. nem grama cresce. Tem um resquício ou outro de alguma coisa, mas nenhuma moradia.

O município nunca soube disso? Pode ser um sítio arqueológico…

Tá lá pra tudo mundo ver, mas quem se atreve? Não dá pra ouvir nem passarinho por ali, é um cemitério.

O nervosismo é por isso?

É pouco? Eu já te disse como Chituca morreu?

Pensei que tinha sido de velhice.

Não, ele era velho, mas era bem vivo. Ele foi comigo mostrar a clareira dos mortos. Um tempinho depois de caminhar por ali, ele me puxou e insistiu para ir embora. O sangue fugiu da face dele, eu pude ver as veias grossas no pescoço e na testa quase estourando, mas não entendia. Pensei que era algum bicho que tinha aparecido de repente, mas nada. Enquanto eu decidia, ele correu todo trôpego — imagine, um sujeito brabo que amansava até onça no braço se borrando todo por nada.

E aí, aconteceu o quê depois?

Quando cheguei na fazenda, ele tava bufando de medo e cansaço. Não conseguia dizer nada. Morreu depois de dois dias encamado sem nenhuma doença. Ele só apontava para mim e tentava balbuciar e concatenar alguma ideia… “branco” e “proibido”, foi só o que eu entendi.

É uma maldição? Você tá inventando história…

Se a gente fizer silêncio, consegue escutar os tambores.

Ouviu alguma coisa se mexendo ali? Tá escuro.

Pode ser um cachito, mas ele não chega perto.

Porra, Homero, é uma pessoa…!

Chituca?

Boa noite, sinhô.

Que porra é essa? Tá rindo de quê? Ele não tava morto? Abre essa porta…

Descanse, homem. Era só uma brincadeira. Considere paga a dívida de trinta anos atrás, lembra daquela história de fantasma na praia? Venha aqui, ele é carne e osso, pode ver.

Foda-se, Homero, amanhã vou embora daqui. Porra, se eu fosse cardíaco? Sai, sai, não quero conversa mais. Pode rir à vontade, vocês dois.

Calma, meu amigo. Não perca o apetite que daqui a pouco sai o jantar. Amélia, a comida tá pronta?

Quase meu velho, falta só preparar o fígado.

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