De 1985 para a Eternidade.

Ainda sob o impacto da turnê “The Book of Souls” do Iron Maiden, que passou pelo Brasil em março com uma série de shows impecáveis (embora o óbvio não seja necessário mencionar), esta coluna volta décadas no tempo para lembrar um dos registros ao vivo mais importantes da banda.
Há trinta e um anos, num desses eventos que só acontecem com o alinhamento dos planetas (apesar desse fenômeno astronômico não ter ocorrido em 1985, pelo menos no nosso sistema solar), a melhor banda de heavy metal da época em sua formação mais clássica e no auge da carreira, lançou um álbum ao vivo com suas melhores músicas (até então) gravadas numa turnê de proporções épicas.
Trata-se de “Live After Death”, do Iron Maiden. Muitas coisas tornam esse trabalho especial.
Ele foi considerado por críticos da época como um dos melhores álbuns ao vivo de heavy metal já produzidos. Em minha modesta e parcial opinião, continua sendo até hoje.
As músicas, gravadas nos shows de outubro de 1984 no Hammersmith Odeon em Londres e de março de 1985 na Long Beach Arena na Califórnia, são irretocáveis e representam a banda no melhor de sua forma, tanto no entrosamento dos músicos, quanto na voz de Mr. Bruce “Air Raid Siren” Dickinson. A produção ficou por conta de Martin Birch, veterano de trabalhos com grupos como o Deep Purple, o Whitesnake e o Black Sabbath, que já estava com o Maiden desde o álbum “Killers” (1981) e permaneceu no cargo até “Fear of the Dark” (1992).
Steve Harris (baixista e senhor supremo da banda) afirmou que não houve correções de trechos de músicas em estúdio, somente a mixagem necessária dos canais de áudio. Ou seja, é um álbum realmente “ao vivo”.
Para quem não sabe, algumas bandas refazem trechos instrumentais ou vocais em estúdio para “consertar” partes que não ficaram boas ou não tiveram uma gravação adequada na hora do show.
“Live After Death” tem 17 músicas, delas eu gostaria de destacar…as 17. Difícil falar de qualquer uma em especial: tem os futuros clássicos (na época)“Aces High” e “Two Minutes to Midninght” (“Aces…” começa o álbum rasgando, seguida logo de “Midnight…”), os já clássicos “The Number of The Beast” e “Run to The Hills”, o clássico subestimado “Flight of Icarus”, tem o momento de interação com o público em “Running Free” e por aí vai.
A lista completa é um passeio por todos os trabalhos da banda com os músicos tocando com perfeição e Bruce Dickinson arrasando mesmo nas músicas criadas originalmente para o antigo vocalista Paul Di’Anno (Dickinson tem um incrível talento para interpretar qualquer música com personalidade. Ele poderia cantar “Faixa Amarela” do Zeca Pagodinho e ninguém jamais diria que não é uma composição feita para sua voz). Se você não conhece o Iron Maiden, o que é algo inaceitável, ou quer apresentar a banda para alguém, esse álbum é uma excelente opção.
“Live After Death” foi gravado na turnê gigante “World Slavery Tour”, que promoveu o álbum “Powerslave”. Ela começou em agosto de 1984 na Polônia e terminou em julho de 1985 nos Estados Unidos, depois de passar por 23 países, com mais de 180 shows em 330 dias de turnê.
Esta também foi a turnê que quase acabou com a banda por conta da longa duração. Bruce Dickinson, Steve Harris, os guitarristas Adrian Smith e Dave Murray e o baterista Nicko McBrain (para o bem ou para mal, o terceiro guitarrista Janick Gers ainda não existia) descobriram que a rapadura é doce, mas não é mole, não. Apesar de jovens e escolados pelas turnês de divulgação dos álbuns “The Number of The Beast” e “Piece of Mind” e de todo o dinheiro entrando, as constantes viagens (nos EUA eles atravessaram o país de ônibus tocando em várias cidades) por meses e meses, fazendo a mesma coisa noite após noite com pouco descanso, levaram os músicos ao limite da exaustão.
“No final, estávamos completamente exauridos. E Bruce, ainda mais que todos, prestes a desistir de cantar e voltar para casa. Quando você chega nesse estágio, tudo perde a graça, virando um enorme tédio, uma grave perturbação emocional. Quase destruiu a banda.” contou Nicko Brain no depoimento para o livro “Iron Maiden -Run to the Hills -A Biografia Autorizada” do jornalista e biógrafo Mick Wall.
A partir dessa excursão gigante e suicida (que também gerou o vídeo “Live After Death”, gravado durante as apresentações na Califórnia), foram feitos ajustes, como intervalos maiores entre os shows e mais dias de folga, para que as futuras turnês não acabassem matando a “galinha (ou a besta) dos ovos de ouro”
Mas a World Slavery Tour teve um significado a mais para nós brasileiros: foi a primeira vez que o Iron Maiden tocou na Terra de Santa Cruz, no Rock in Rio I, em janeiro de 1985.
Lembro do anúncio do line up (hoje a gente chama assim porque festival de rock virou coisa comum por aqui, mas na época era “lista de atrações” mesmo) do evento ainda em 1984. Achava tudo inacreditável. Eram bandas de fama internacional, algumas delas ainda eram ilustres desconhecidas do público em geral (como o Scorpions, que começava a tocar nas rádios), mas o que me soou mais inconcebível foi justamente o Iron Maiden. Eles estavam no auge da carreira, com um disco (naquela época não tinha cd) estourado de sucesso…impossível aparecerem por aqui. Se o Capitão Nascimento já existisse na época, certamente diria: “Seu Roberto Medina, o senhor é um fanfarrão!!!”
Mas não é que era verdade? O Maiden interrompeu a sequência de shows que fazia nos Estados Unidos para realizar uma única apresentação no primeiro dia do festival (imagina a grana que rolou para eles toparem!).
Era noite do dia 11 de janeiro de 1985 (na verdade, as primeiras horas do dia 12), o lugar era a Cidade do Rock, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Do palco vazio, ouve-se a gravação do discurso do primeiro ministro britânico Winston Churchill sobre o esforço que a Inglaterra precisaria fazer na Segunda Guerra Mundial. A partir daquele momento, a história do Heavy Metal no Brasil e a de milhares de fãs brasileiros do gênero não seria mais a mesma. Subitamente, o cansaço causado por horas de pé, banheiros distantes, fome, sede e o show do Erasmo Carlos desapareceu como por encanto. Em minutos o Iron Maiden estava tocando para o maior público de sua carreira, mais de 200 mil pessoas.
O show teve de tudo: palco super produzido com temática do antigo Egito, o boneco gigante de Eddie, personagem que simboliza o Maiden em todas as capas dos álbuns da banda, em sua versão mumificada correndo de um lado para outro, Bruce Dickinson abrindo o supercílio ao bater acidentalmente com uma guitarra no rosto e, é claro, toneladas de heavy metal tocadas de um jeito que nenhum de nós podia imaginar.
Quando tudo acabou, era impossível tirar o sorriso e o olhar perdido do rosto, o medo era dormir e descobrir depois que aquilo não passou de um sonho de uma noite de verão.
“What did I see, can I believe what I saw last night was real and just not fantasy?” : esse trecho da letra de “The Number of The Beast” ilustra perfeitamente a nossa sensação quando o show terminou (e pelo resto de nossas vidas).
Na platéia e no palco, todos ficamos impressionados: nós porque nunca tínhamos visto aquilo e eles…porque nunca tinham visto aquilo (tanto que nos extras do DVD de “Live After Death”, há trechos do Rock in Rio com takes mostrando a multidão que compareceu ao festival por causa da banda.). Foi o começo de uma relação de amizade que dura até hoje: o Maiden volta sempre e os fãs (que já estão na segunda geração), estão lá para recebê-lo.
Os anos passaram e vieram outros álbuns ao vivo excelentes do Iron Maiden (inclusive um gravado no Rock in Rio em 2001), mas “Live After Death” é diferente porque nos lembra que há 30 anos ouvimos pela primeira vez a ordem que jamais ousamos desobedecer desde então: “SCREAM FOR ME BRAZIL!!!!!”.
E o som dessa publicação não podia ser outro. O Iron Maiden tocando a música “Iron Maiden” (do primeiro álbum chamado “Iron Maiden”) na Long Beach Arena durante a World Slavery Tour.
Sobre o post anterior.
A publicação inaugural da Rock Empire teve grande repercussão: fui intimado pela Polícia Federal, ameaçado pelo Estado Islâmico e recebi mensagens de credores que há muito me procuravam.
No meio de todos esses milhares de fãs, um amigo me cobrou a formação completa da banda americana “Cactus” e um pouco da história da música “Parchman Farm”, que coloquei na primeira coluna.
Então vamos lá: neste primeiro álbum de 1970, o “Cactus” era composto pelos ex-“Vanilla Fudge”, Carmine Appice na bateria e Tim Bogert no baixo, completavam o time Jim McCarty na guitarra e Rusty Day no vocal e gaita. A ideia inicial de Appice e Bogert era formar um power trio com Jeff Beck, mas o projeto acabou sendo adiado porque o guitarrista inglês sofreu um acidente de carro e precisou ficar um longo tempo fora do cenário musical para se recuperar (o “Cactus”, Carmine Appice, Tim Bogert e Jeff Beck voltarão a ser assunto nesta coluna, aguardem).
“Parchman Farm” é o apelido da Penitenciária de Segurança Máxima do Mississipi, a música foi composta pelo pianista e cantor de jazz americano Mose Allison em 1957, baseada na canção original “Parchman Farm Blues”, escrita e gravada em 1940 pelo cantor e guitarrista Bukka White, “ex-hóspede” da casa de detenção.
É isso, fiquem a vontade para se manifestar. Se der, eu resolvo o problema, se não der…fico devendo.
Um abraço, até!
Eduardo Biaia