E se fôssemos computadores ou smartphones?

Uma metáfora reflexiva sobre processos para a ampliação da consciência

Se nossas mentes fossem smartphones ou computadores, muitos de nós teriam como sistema operacional a versão básica do Android ou do Windows, outros teriam uma versão mais recente, outros ainda estariam com versão beta… Alguns de nós funcionariam com um sistema operacional como iOS ou um MacOS, com aplicativos mais intuitivos e que travam com menos frequência. Já outros, teriam um sistema operacional meio complicado de compreender e interagir “para a maioria”: os “Xing Ling”.

Cada um com suas singularidades e comandos, interfaces fáceis e ágeis, outros lentos e nada intuitivos. Se classificássemos esses sistemas segundo a psicanálise, teríamos três grandes classes: os sistemas neuróticos, psicóticos e pervertidos. Nenhum sistema poderia ser considerado “normal”, “melhor” ou “pior”; pois cada instância desses sistemas operacionais é única, com configurações combinadas de maneira única e instaladas sobre um hardware (aparelho neurológico e corpo biológico) único, operando numa web-humana (cultura) com conexões únicas.

Todo sistema operacional (mente), tem o papel de interpretar e controlar algumas funções do hardware (corpo) interagir com o mundo exterior (“acessar a web-humana, fazer download e upload de dados dos mais diversos formatos (símbolos) por meio das mais diversas mídias (linguagens), enviar e receber mensagens via aplicativos ou sistemas aplicados (WhatsApp -diálogos síncronos-, Messenger ou Email -diálogos assíncronos- etc.) e processar os arquivos recebidos, capturados e armazenados garantindo o mínimo de organização da memória no “HD/cérebro””).

Para facilitar a interação com o mundo exterior, há uma infinidade de aplicativos disponíveis para instalação (aprendizagem: aquisição (download), retenção (armazenamento) e aplicação do que se adquiriu e reteve (uso)). Alguns desses aplicativos estão disponíveis em pacotes, como nos computadores: o pacote Office ou Adobe — nem sempre compatíveis com a versão do sistema operacional instalado sobre o hardware nativo. Certas versões de hardware não suportam certas versões de aplicativos. Sabe-se que a qualidade dos afetos e a nutrição recebidos nos primeiros anos de vida, por exemplo, comprometem a capacidade de o hardware conseguir executar certos aplicativos — como a empatia e o autocontrole. Pacotes como a religião, a educação formal ou informal e as atividades socioeconômicas (profissionais, mercadológicas e corporativistas) também facilitam ou dificultam o bom funcionamento ou o acesso a certas plataformas colaborativas, orientadas à nova economia e à sustentabilidade forte, por exemplo.

Em pacotes, alguns aplicativos são muito úteis, mas quase sempre são instalados em conjunto com plugins que, isoladamente, não “servem pra nada”… O problema é que, na maioria das vezes, um não funciona sem o outro — sistema de valores, crenças, visão de mundo, preconceitos (variáveis de ambiente, parâmetros, etc). Para desinstalar um, você precisa desinstalar tudo. Reinventar-se!

Quando se abre muitas aplicações ao mesmo tempo, tentando acessar muitas redes, são mais prováveis contatos com aplicações maliciosas ou sistemas na rede que contém vírus. Às vezes, na melhor das intenções, faz-se o download de aplicativos ou conecta-se com plataformas que apresentam “bugs” e dificultam o funcionamento do sistema operacional. Possíveis resultados: egocentrismo, impaciência e intolerância, orgulho, arrogância, moralismo… apatia, acídia (preguiça e inveja / tédio e depressão), acrasia, crises de ansiedade (expectativas irreais), acessos de raiva, fobias, etc. E o sistema trava inviabilizando a conexão com o outro!

Como fazer a curadoria dos aplicativos que baixamos, das plataformas que acessamos, dos meandros da web-humana que navegamos? Se existe resposta, talvez não seja nada simples.

O que se intui é que é preciso ter consciência das aplicações que se “baixa” e avaliar a utilidade do ponto de vista ético e aprender o mais rápido possível quando uma aplicação viola a equação (o que se quer) x (o que se pode) x (o que se deve). Esse seria o algoritmo básico para se incorporar ao sistema operacional individual: desenvolvendo assim, um antivírus pessoal.

A função básica desse antivírus é expurgar o sistema operacional, isto é, a mente, de corruptores da convivência (interna e externa: a sociabilidade): comportamentos que corrompem as etiquetas (pacote de aplicações que tem por objetivo garantir o conforto do outro ao se estabelecer uma conexão); as gentilezas e civilidade. Cabe a esse antivírus alertar sobre os conteúdos da deep-web: áreas cheias de sistemas maliciosos que enchem a tela mental de “pop-ups” oferendo “gratuitamente” serviços e aplicativos que violam o respeito, a empatia e a solidariedade — facilitadores da convivência.

Talvez assim, numa web-humana com uma gestão consciente dos sistemas em operação, seja possível despertar no meio onde se vive (família, trabalho e demais espaços sociais) o senso de comunidade onde o envolvimento seja genuíno. Onde o abrir mão de algo em proveito alheio (um, vários ou todos), i.e., a doação, não seja vista como uma falha do sistema. Onde a coragem de colocar-se em risco e cumprir com as responsabilidades assumidas não seja encarada como um absurdo altruísta, mas como um comportamento esperado e onde fazer o que é certo ainda que o custo pessoal, mesmo alto, seja reconhecido como um ato de honestidade e integridade.

Sem isso, a entropia da web-humana a levará ao seu colapso. Sistemas operacionais (mentes) cheias de vírus, spam, spyware, worms etc. deflagrando com relativa frequência conflitos violentos no trânsito, no ambiente de trabalho das organizações etc. comprometendo a sustentabilidade da convivência consigo e com outro.

— Ebraim M. de Andrade (SP, 22/fev/2016)

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Ebraim M. de Andrade’s story.