Poderia não ser eu

Ah…é! Por um minuto pensei ser outra pessoa, alguém com problemas não muito graves. Apenas com preocupações corriqueiras, se o pó de café vai dar pra hoje, que horas encontrar a Cíntia para correr ou onde deixei a chave do carro, por exemplo.

Mas o despertador tocando, novamente, me trouxe para a realidade. “Eu não deveria ter bebido tanto” resume bem o ritmo da minha vida, eu não queria ter feito tanta coisa, mas em algum momento eu perdi o controle e tudo ficou desconexo. A ressaca matinal já virou amiga e o antiácido, minha alegria. Nem sei por que insisto em viver uma vida que não quero.

Quando (ainda) traçava planos para o futuro, queria, com meus 20 e poucos anos, estar com o diploma em mãos, em um ótimo emprego, com um ótimo relacionamento, fazendo academia de manhã e aulas de zumba a noite. A vida toda planejada e resolvida. Mas hoje, o que eu quero é não bater o mindinho enquanto tento achar o caminho até o banheiro. Uma fatalidade do percurso ou uma mudança de perspectiva?

Em que ponto eu perdi o controle da minha vida e vim parar aqui? Em um kit net com o aluguel atrasado, sem energia elétrica — porque atrasei a conta de luz, de novo. Sozinha e, provavelmente, a única coisa que tenho para o café da manhã é um maço de Marlboro. Pelo lado bom, não é Minister.

A chuva que tá caindo lá fora é como uma metáfora do que se passa aqui dentro. É uma ótima desculpa para não precisar sair de casa também. Não ter que falar bom dia pra vizinha quando encontrá-la no elevador e, depois, ouvi-la reclamar das dores crônicas do ciático. Nem ter que ir pra faculdade, fingindo que me interesso por essas coisas e ainda tenho alguma pretensão. Males que vem para o bem, portanto.

O mais engraçado, ao mesmo tempo trágico, é que quando eu era criança e me perguntavam qual superpoder eu queria ter, respondia sem vacilar: -“Quero conseguir me transformar em outras pessoas.” No fundo, acho que nunca gostei muito de quem eu era.

Já tentei mudar, é claro. Li até livro de autoajuda. Em um deles, me aconselharam a achar um hobby, então comecei a fumar. Melhor decisão que eu tomei, diga-se de passagem. O cigarro é uma ótima metáfora. Assim que o acendo, meus problemas queimam, um a um, esvaindo-se pelo ar. A fumaça sai do meu cigarro com tremenda facilidade e não pode voltar. Meus problemas também não. E de quebra, ainda ganho uns 10 anos a menos de vida. Não tenho medo de morrer, tenho medo de não estar viva o suficiente.

Pensar muito te leva à insanidade. Tudo minuciosamente controlado, obviamente. Pílulas para te dar vontade de viver. Modelos magras na capa da revista para evitar que você desenvolva obesidade mórbida e transforme-se em problema da saúde pública. O celular novo do seu amigo, para você sentir-se insatisfeito com o seu e comprar outro, alimentando o magnífico capitalismo. Uma família, pra você sentir-se culpado por não ser uma pessoa normal. E o amor, aquele sentimento maravilhoso que, provavelmente, ninguém sentiu, mas que alimentará sua busca compulsória por alguém, paciente o bastante, para aguentar seus demônios.

Especialmente hoje, pela ressaca ou exaustão, acordei não querendo ser eu. De pelo menos um dia, não ser o ponto fora da reta, à exceção da regra, a ovelha desgarrada. Deve ser ótimo viver sem precisar justificar os porquês ao seu psiquiatra. — “Segunda-Feira eu mudo de vida, prometo. Mentira! É feriado. Terça-Feira, então.” Nada mais reconfortante do que adiar responsabilidades.