O Mofo Urbano

Eddie Quadros
Feb 23, 2017 · 4 min read

Como entender o mundo contemporâneo e a realidade urbana?

Por Eddie Quadros

Cena do filme "Metropolis" de Fritz Lang — 1927.

Nada de novo. Tudo permanece igual. Parece que a cidade está fadada a eterna imobilidade. Os desavisados, já cegos, irão apontar os dedos dormentes ou bater suas panelas nos condomínios de luxo — ou nos apartamentos burgueses de dois quartos — aos berros A cidade cresce… ela está sempre em transformação! Pura enganação. Desde quando esse glaucoma se enraizou? Ele inebria nossa visão de país e sociedade. Será que ninguém olha ao redor e percebe o quanto estamos amorfos e adormecidos? Claro que minha pergunta é retórica, pois se quem lê este artigo faz parte dos desavisados citados — e continua na negação — conseguirá, somente, encher o mesmo saco de batatas de uma massa robotizada como na ficção 1984 do brilhante Orwell. Essa reflexão me leva a uma triste conclusão: desse formigueiro urbano, não nascerão pensadores, apenas reprodutores do velho ideário conformista e conservador. Por isso precisamos fugir. Correr entre os becos e subir as ladeiras a cima, nas favelas e nos subúrbios. Coletar as maravilhas criadas pela degeneração e apreciar a verdade como ela é, e não como ela está representada, enquadrada nas telas de LED ou LCD. Se permanecermos sugando o esgoto à céu aberto, por quanto tempo ainda os bueiros de nossas casas permanecerão asseados?

Desse formigueiro urbano, não nascerão pensadores, apenas reprodutores do velho ideário conformista e conservador.

Quando olho para minha cidade, não vejo nada além de sonâmbulos. Mesmo aqueles que deveriam estar despertos, continuam se iludindo com a comodidade dos prazeres capitalistas, que são tão fáceis — a medida que se tenha como pagar, é claro. O ideal de comunidade e sociedade não existe, ele é apenas teórico. Caso fosse prático, como conceber toda essa canalhice da pseudo política? Liberdade, igualdade, fraternidade, mas para quem? Sempre caímos no campo da retórica e da filosofia, mas esses recursos, estão continuamente sendo utilizados contra as pessoas, contra a verdade, ou, contra aquilo de mais precioso que possuímos: a vida. E a Academia, onde andará? Ou melhor, o que de concreto ela nos acrescenta? Qual das suas inúmeras problematizações nos afastará do precipício moral e ético?

O ideal de comunidade e sociedade não existe, ele era apenas teórico. Caso fosse prático, como conceber toda essa canalhice da pseudo política?

Em nome dos interesses instituídos, tudo vale. Vale destituir os eleitos. Vale amordaçar os oprimidos. Vale vendar as futuras gerações e, principalmente, vale esmagar o opositor. Eu me pergunto então o que é a democracia e o quanto ela vale? Quando o valor de uma vida se difere do de outra, não me parece razoável falar de justiça e defender a democracia, nem mesmo o capitalismo e seus processos inescrupulosos. Mas eu não quero me calar. Eu vou gritar. Eu peço que vocês façam o mesmo. Embora nossos gritos pareçam surdos, acredito que aos poucos eles serão ouvidos, mesmo que isso leve 100 ou 1000 anos, depende de como você percebe o tempo e de como entende o seu próprio papel no mundo.

Hoje em dia não existe nada de novo, só o mofo que se esconde entre os livros não lidos; dos filmes empoeirados nos galpões; dos tratados esquecidos e das palavras heróicas de um hino não compreendido. A terra prometida por Weber parece interessante, mas não para mim. Quem sabe só para aqueles que tem medo de encarar o fétido campo da História. Ela revela os odores podres das instituições do velho mundo, onde o sistema de poder e ideologias despóticas ajudaram a perpetrar a desgraça do nosso submundo. Nós não somos os invasores das terras do pacífico. Não fomos nós que derrubamos as fronteiras. É dolorido perceber que o senso comum da maioria prevalece sob os fatos. Mas contra os fatos, não deveriam existir dúvidas, somente a reflexão. Mas a doutrinação funcionou. A domesticação deu certo e ela é constatada dia após dia através da ignorância uníssona. Por isso é importante surrupiar elementos que nos levam a pensar ou sermos críticos, pois, assim, nada mudará. Sem o pensamento não seremos mais homens, seremos apenas animais na selva, não na cidade, pois a cidade é feita de seres que pensam e que se importam uns com os outros.

Sem o pensamento não seremos mais homens, seremos apenas animais na selva, não na cidade, pois a cidade é feita de seres que pensam e que se importam uns com os outros.

Na modernidade a sociedade é liquida, evapora-se a cada segundo e a cada like no Facebook ou no Instagram — Bauman nos ajuda a entender essa contemporaneidade. Ao mesmo tempo, tudo é muito importante, mas nada realmente importa. A violência só passa a ser concreta quando ela se materializa e nos atinge diretamente, ou seja, nos tornamos convencidos, egocentristas e desinteressados pelo outro. Vivemos em um mundo doentio, onde epidemias como a da depressão se proliferam mais rápido do que qualquer peste na Antiguidade.

Ao mesmo tempo, tudo é muito importante, mas nada realmente importa.

Mas e a cidade hein? O que fazer com a cidade? A única solução é a desconstrução. Precisamos deglutir e mastigar novamente, até que a cidade seja digerida, depurando-a como em uma peneira. Não vejo saída, senão o dever: usar esse mofo urbano ao meu favor. Fazer dele um motivo em si, ajudando os outros através do enfrentamento dos meus medos e minhas abominações, operando uma limpeza mental. Assim nascerá o caos, contudo, também, a paz.

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